Entrevista com S. S. Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla, sobre a Encíclica “Laudato Se”’, em que o Papa Francisco refere-se várias vezes ao seu magistério sobre a defesa da criação: “Ecologia e economia têm a mesma raiz comum: a casa”
Por Andrea Tornielli — Cidade do Vaticano
«A gentil referência que fez nosso irmão o Papa Francisco não me surpreendeu…». O Patriarca ecumênico de Constantinopla, citado em dois parágrafos da encíclica «Laudato si’», é um pioneiro na pregação da defensa do meio ambiente. Vatican Insider foi entrevista-lo depois da leitura do texto de Francisco.
O Papa publica uma encíclica dedicada à ecologia que dedica dois parágrafos ao seu magistério sobre este tema. Isto o surpreendeu?
«A gentil referência que fez nosso irmão o Papa Francisco não me surpreendeu por muitos motivos. Principalmente, por que quem busca discernir a beleza de Deus na sacralidade da Criação inevitavelmente reconhecerá “tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honrado, o que é virtuoso e merece louvor” (Fp, 4, 8). Em segundo lugar, posto que não podemos falar de uma dupla ordem ou de uma dupla realidade na Criação, todas as Igrejas, todas as religiões e todas as disciplinas confessam a mesma verdade, isto é, que o mundo é um dom divino que todos nós estamos chamados a proteger e a preservar. Em terceiro lugar, a crise ecológica tem uma dimensão ecumênica: não se pode identificar uma instituição em particular e culpa-la pelo dano que temos provocado à Criação, e nenhuma instituição sozinha pode resolver a crise ecológica»
Por que as Igrejas Ortodoxa e Católica decidiram intervir sobre este tema específico de maneira tão decidida?
«Há muito mais. O que une as nossas duas Igrejas é muito mais que o que nos separa. Ambas devem ter presente este aspecto e comprometer-se com a unidade. Porém, muito mais além de nossas diferenças confessionais e doutrinais, estamos unidos na terra que compartilhamos, na Criação que nos foi oferecida como dom precioso e frágil por nosso Criador. Em lugar de sugerir que a Igreja Ortodoxa e a Igreja Católica tenham decidido denunciar o impacto que a humanidade tem nas mudanças climáticas, fosse talvez mais correto e apropriado dizer que as nossas Igrejas se deram conta de que não podemos atuar de outra maneira, que “servir e preservar” a Criação de Deus é parte integral de nossa vocação como líderes de comunidades cristãs. Assim como, transformar a natureza em cultura comprometer-nos na justiça social do mundo».
Na Encíclica «Laudato si’», Papa Francisco vincula o tema da custódia da Criação à necessidade mudança nos modelos de desenvolvimento em vista de uma economia que tenha como fundamento o ser humano e não o dinheiro. Compartilha deste enfoque?
O problema da contaminação e degradação ambiental não pode isolar-se com o objetivo de compreendê-lo ou de encontrar uma solução. O meio ambiente é a casa que circunda a espécie humana, e inclui o habitat humano. Por isso, não se pode apreciar nem avaliar o meio ambiente isolado, sem vinculá-lo diretamente com a criatura única que o habita. Preocupar-se com o meio ambiente significa preocupar-se com os problemas humanos como a pobreza, a fome e o ser. Este vínculo está descrito e detalhado exaustivamente na parábola em que o Senhor diz: “Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber” (Mt 25, 35). Ademais, os termos “ecologia” e “economia” possuem a mesma raiz etimológica. O prefixo que têm em comum, “eco”, deriva da palavra grega “oikos”, que significa “casa” ou “habitar”. Entretanto, é deplorável e egoísta o fato de que nós tenhamos limitado o uso desta palavra a nós mesmos, como se fôssemos os únicos habitantes do mundo. O fato é que nenhum sistema econômico, por mais tecnológica ou socialmente avançado, pode sobreviver ao colapso dos sistemas ambientais que os sustentam. Este planeta é, efetivamente, a nossa casa, porém é também a casa de todos, assim como é a casa de cada criatura animal e de cada forma de vida criada por Deus. É um sinal de arrogância nossa presumir que apenas nós, os seres humanos, habitamos nesta terra. Da mesma maneira, é também um sinal de arrogância crer que a Terra pertence apenas a esta geração».
O cristianismo tem sido frequentemente acusado por ter permitido a aplicação de um modelo de exploração da Terra a partir das palavras bíblicas do Gênesis: O que significa “cultivar ou custodiar”.
«Nosso objetivo está unido à oração do Sacerdote na Divina Liturgia: “Os mesmos dons, de Ti recebidos, a Ti os oferecemos em tudo e por tudo”. A Ti nos dirigimos, Te bendizemos, a Ti damos graças, ó Senhor, e Te suplicamos, ó Deus nosso”. Então, devemos ser capazes de abraçar a todas as pessoas e a todas as coisas, não com medo ou por necessidade, mas com amor e alegria. É então quando aprendemos a cuidar das plantas, dos animais, dos rios, das montanhas, dos mares, de todos os seres humanos e de toda a natureza. É quando descobrimos a alegria ao invés de provocar dor, em nossa vida e no mundo. Consequentemente, cremos e promovemos instrumentos de paz e de vida, e não de violência ou de morte. É então quando, por um lado a Criação, por outro a humanidade (a que abraça e a que é abraçada) correspondem-se plenamente e cooperam uma com a outra, porque não se contradizem nem competem entre si. É então quando a humanidade oferece à Criação num gesto de serviço e sacrifício sacerdotal, restituindo-a a Deus, e a Criação se oferece como dom à humanidade para todas as gerações futuras. É então quando tudo se converte numa espécie de recíproco intercâmbio, fruto da abundância e complemento do amor. É então quando tudo assume seu destino original e sua meta original, tal e como Deus pretendia desde o instante da Criação».
Na Encíclica, Papa Francisco valoriza o movimento ecológico, mas se afasta daquela corrente de pensamento que considera o homem o “mal” do planeta, defendendo mesmo a redução da população. O que lhe parece?
«Na leitura clássica da Igreja das origens, a humanidade é considerada em termos dialéticos. São Gregório, o Teólogo, que foi arcebispo de Constantinopla até final do século IV, afirmou que o homem é, ao mesmo tempo, divino e humano, um criado chamado a converter-se em deus, um microcosmos e um micro-Deus, um co-criador junto ao Divino Criador. Esta ambivalência da humanidade significa que o homem é capaz das mais nobres e dignas ações, porém, ao mesmo tempo, inclina-se aos abusos mais repugnantes e danosos. Assim, pois, é certo que a humanidade, criada à imagem e semelhança de Deus, encontra-se em seu estado mais natural quando age com compaixão e dedica-se a cuidar dos demais e da natureza. Entretanto, devido à queda, o homem age “contrariamente” à natureza, de maneira alterada, esquecendo-se da visão e da intenção que Deus tinha em relação ao mundo».
Francisco propôs novamente um acordo para uma data comum na qual a Páscoa seria celebrada por todos os cristãos. V. Santidade está de acordo com esta hipótese?
«A Igreja Ortodoxa tem tratado da possibilidade de uma data única para a celebração da Páscoa, a Festa das festas, há mais de meio século. De fato, as primeiras consultas panortodoxas em preparação do Grande e Santo Concílio programado para o próximo ano em Istambul (Turquia) considerou várias opções científicas e litúrgicas para esta eventualidade. Entretanto, recentemente, e especialmente depois da dissolução da Cortina de Ferro, alguns elementos importantes no interior de algumas Igrejas nacionais vem resistindo sistematicamente a esta hipótese de mudança. Sem dúvida nenhuma que um acordo sobre uma data comum para a celebração da Páscoa seria bom, particularmente para os cristãos que vivem na América, na Europa ocidental e na Oceania. Porém, sem considerar o fato de que, pessoalmente, esteja ou não de acordo, uma proposta desta natureza deveria ser decidida em conjunto por todas Igrejas Ortodoxas, evitando-se pôr em risco a unidade do mundo ortodoxo»
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Tradução por Pe. André
do original em espanhol publicado por Vatican Insider











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