Discurso proferido por Bento XVI hoje, nas imediações da igreja de Agia Kiriaki Chrysopolitissa, local de culto ortodoxo aberto também aos católicos e anglicanos, no qual presidiu, ao lado do Arcebispo Ortodoxo de Chipre, Sua Beatitude Chrysostomos II, uma celebração ecumênica.
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Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo,
“A vós graça e paz em abundância” (1 Pd 1,2). É com grande alegria que saúdo a vós que representais as comunidades cristãs presentes em Chipre.
Agradeço a Sua Beatitude Chrysostomos II pelas gentis palavras de boas-vindas, Sua Eminência Giorgio, Metropolitano de Pafos, que nos recebe, e todos aqueles empenhados em tornar possível este encontro. Apraz-me, ainda, saudar cordialmente os cristãos de outras confissões aqui presentes, incluindo os membros das comunidades armênia, luterana e anglicana.
Na verdade, é uma graça extraordinária para nós estarmos reunidos em oração nesta igreja de Agia Kiriaki Chrysopolitissa. Acabamos de ouvir a leitura dos Atos dos Apóstolos, que nos lembra como Chipre foi a primeira etapa das viagens missionárias do Apóstolo Paulo (cf. At 13,1-4). Resguardados pelo Espírito Santo, Paulo, juntamente a Barnabé, originário de Chipre, e Marcos, o futuro evangelista, aportaram primeiramente em Salamina, onde passaram a proclamar a palavra de Deus nas sinagogas. Atravessando a ilha, chegaram a Paphos, onde, bem próximo a este lugar, pregaram na presença do procônsul romano Serio Paolo. Foi então que, a partir deste local, a mensagem do Evangelho começou a se difundir para todo o império e a Igreja, fundamentada na pregação apostólica, pôde plantar raízes em todo o mundo até então conhecido.
A Igreja de Chipre pode, com justiça, ter orgulho de sua ligação direta com a pregação de Paulo, Barnabé e Marcos, e da comunhão na fé apostólica, que a liga a todas as Igrejas que custodiam a mesma regra de fé. Esta é a comunhão, real, ainda que imperfeita, que neste momento nos une, e que nos impele a superar nossas divisões e a lutar para restabelecer aquela plena união visível, que é desejada pelo Senhor e por todos os seus seguidores. Pois, nas palavras de Paulo, há “um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança; um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4,4-5).
A comunhão eclesial na fé apostólica é tanto um dom como um apelo à missão. Na passagem dos Atos que ouvimos, vemos uma imagem da unidade da Igreja na oração, na abertura aos convites do Espírito à missão. Como Paulo e Barnabé, cada cristão, mediante o batismo, é “reservado” para portar o testemunho profético do Senhor ressuscitado e seu Evangelho de reconciliação, de misericórdia e de paz. Em tal contexto, a Assembleia Especial para o Oriente Médio do Sínodo dos Bispos, que se reunirá em Roma em outubro próximo, refletirá sobre o papel vital dos cristãos na região, encorajará seu testemunho do Evangelho e os ajudará a promover um maior diálogo e cooperação entre todos os cristãos da região. Significativamente, os trabalhos do Sínodo serão enriquecidos pela presença de delegados fraternos de outras Igrejas e Comunidades cristãs da área, como sinal de comprometimento com o serviço à palavra de Deus e de nossa abertura ao poder de sua Graça que reconcilia.
A unidade de todos os discípulos de Cristo é um dom a se implorar ao Pai, na esperança que este reforce o testemunho do Evangelho no mundo de hoje. O Senhor rogou pela santidade e unidade de seus discípulos justamente para que o mundo creia (Jo 17,21).
Há apenas 100 anos, na Conferência Missionária de Edimburgo, a aguda consciência de que as divisões entre os cristãos constituíam um obstáculo à difusão do Evangelho deu origem ao movimento ecumênico moderno. Hoje devemos dar graças ao Senhor, o qual, mediante seu Espírito, nos conduziu – especialmente ao longo das últimas décadas – a redescobrir a rica herança apostólica compartilhada entre Oriente e Ocidente e, mediante um diálogo paciente e sincero, a encontrar os caminhos para a reaproximação, superando as controvérsias do passado e tendo em vista um futuro melhor.
A Igreja em Chipre, que demonstra ser uma ponte entre o Oriente e o Ocidente, tem contribuído muito para este processo de reconciliação. A via que conduz ao objetivo da plena comunhão não será, certamente, livre de dificuldades, mas a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa de Chipre estão empenhadas em progredir no caminho do diálogo e da cooperação fraterna. Possa o Espírito Santo iluminar nossas mentes e reforçar nossa determinação, para que juntos possamos levar a mensagem de salvação aos homens e mulheres de nosso tempo, os quais estão sedentos daquela verdade que conduz à liberdade autêntica e à salvação (cf. Jo 8,23), a verdade cujo nome é Jesus Cristo!
Caros irmãos e irmãs, não poderia concluir sem evocar a memória dos santos que adornaram a Igreja de Chipre, em particular Santo Epifânio, bispo de Salamina. A santidade é o sinal da plenitude da vida cristã, de uma profunda docilidade interior ante ao Espírito Santo que nos convida a uma conversão e a uma renovação constantes, enquanto nos esforçamos para ser sempre mais conformados a Cristo, nosso Salvador. Conversão e santidade são também os meios privilegiados mediante os quais abrimos as mentes e os corações à vontade do Senhor pela unidade de sua Igreja. Enquanto rendemos graça pelo encontro e pelo afeto fraternal que nos une, peçamos aos santos Bárbara e Epifânio, aos santos Pedro e Paulo, e a todos os Santos de Deus, que abençoem nossas comunidades, conservando-nos na fé dos Apóstolos, e guiando nossos passos pelo caminho da unidade, da caridade e da paz.
[Tradução: Paulo Silva
©Libreria Editrice Vaticana]






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