Introdução
Desde o princípio, Deus criou o ser humano de tal modo que pudesse tornar-se semelhante a Ele. O homem, porém, fez mau uso de sua liberdade e caiu da condição paradisíaca, a qual lhe proporcionava tudo o que era necessário para avançar do estado de «segundo a imagem» para o estado de «segundo a semelhança». Jesus Cristo, quando chegou a plenitude dos tempos, assumiu a natureza humana para restaurá-la à sua antiga beleza, ao esplendor original da participação na luz divina, na energia incriada e na glória trinitária. Ele nos mostrou quem é verdadeiramente o homem e por que foi criado; qual é o seu destino e qual é o propósito de sua criação.
Assim, por meio de Jesus Cristo, aprendemos qual é o termo final da caminhada humana e como somos conduzidos, em última instância, à semelhança com Deus. Os meios para alcançar esse fim nos são concedidos agora no interior de Seu Corpo, a Igreja, desde o Santo Batismo, no qual o homem velho morre e o homem novo é formado, bem como por meio de todos os mistérios salvíficos de Sua Igreja.
Escreve São João Crisóstomo:
«Quando Cristo pronuncia a palavra “revesti-vos”, ordena-nos que nos revistamos d’Ele próprio, para que Ele seja tudo em nós, tanto interior quanto exteriormente. Pois Ele é nossa plenitude e nosso fim; é caminho e esposo, alimento e vida, apóstolo e sumo sacerdote, companheiro do túmulo e da cruz, mendigo, casa e amigo. E nós somos Seus membros, Seu campo, Seu edifício, Seus ramos e Seus cooperadores. Ele nos une e nos vincula a Si de todos os modos possíveis, o que é próprio daquele que ama com toda a força do seu amor.»
(São João Crisóstomo, Homilia sobre Romanos XVI)
O caminho do fiel no interior do Corpo de Cristo é um caminho transformador, um caminho terapêutico, para que o homem se torne capaz de apropriar-se da Graça de Deus, fazendo do próprio Deus seu companheiro de caminho e colaborador no esforço de participar da verdadeira vida, que é a vida eterna e o conhecimento de Deus dentro da luz da graça divina.
Metodologia
A metodologia dos médicos espirituais que colocaram a sua vida a serviço do Corpo de Cristo, a Igreja, sempre foi e continua sendo médico-terapêutica, constituindo o duplo caminho da sã teologia. O que se busca é a cura, a qual pressupõe a adequada educação e o exercício tanto do corpo quanto da alma, para que tenha lugar a preparação do nosso coração.
Dentro do sistema espiritual e prático de cura da Igreja coexistem, como experiências e modo de vida, a oração, a ascese, a vida sacramental, o culto divino, a Revelação divina, a consciência dogmática, a ortodoxia e a ortopraxia como exercício das virtudes, bem como a obra de evangelização dos homens.
São Basílio, o Grande, ensina-nos:
«A preparação do coração consiste em desaprender os ensinamentos do mau hábito. Pois, assim como não podes escrever sobre a cera sem antes apagar as letras que nela estavam escritas, também não podes introduzir os dogmas na alma sem primeiro expulsar as ideias preconcebidas às quais ela estava acostumada.»
(São Basílio, Carta II a Gregório, seu companheiro)
São Basílio, o Grande, também nos fala do arrependimento e da purificação dos pensamentos. A tarefa fundamental da purificação é o combate e a eliminação dos pensamentos. Existem dois modos de pensamentos pelos quais as ideias perturbam a nossa faculdade racional. O primeiro ocorre quando a nossa mente divaga por nossa própria negligência — isto é, pela dispersão mental — e cai das fantasias irracionais na obscuridade da imaginação. O segundo consiste na cilada do diabo, que apresenta fantasias absurdas para afastar o homem da louvável dedicação à Palavra de Deus.
A contrição do coração é a destruição desses pensamentos. Quem os desprezar e entregar a faculdade governante de sua alma — isto é, a mente — aos pensamentos divinos, adquirirá um coração contrito e humilde. Realizando esse sacrifício espiritual, conserva o seu coração, pela graça, sem ser rejeitado pelo Senhor.
São João Crisóstomo ensina-nos que o coração não purificado está cheio de maus pensamentos, possui inveja e engano, e encontra-se pervertido em relação à verdade e aos dogmas. O coração purificado experimenta alegria, conhecendo a Deus e à Sua graça, vivendo o amor divino e adquirindo a filosofia divina mediante a revelação.
Cristo, portanto, concede-nos a participação na graça do Espírito, para que se realize a união e se abra o caminho para a semelhança. Escreve o Sacro Crisóstomo:
«Assim como o fogo entra em contato com o ferro e o ferro se torna fogo, permanecendo, contudo, na natureza do ferro, assim também a carne dos fiéis que possuem o Espírito Santo move-se para uma condição espiritual e é elevada juntamente com a alma.»
(São João Crisóstomo, Homilia sobre os Atos, XXXII)
Por sua vez, São Gregório, o Teólogo, exorta-nos a tornar-nos como Cristo, uma vez que Ele nos concedeu essa possibilidade:
«Façamo-nos como Cristo, já que Cristo também Se fez semelhante a nós. Façamo-nos deuses por meio d’Ele, porque também Ele Se fez homem por nós. Tomou o pior para nos dar o melhor. Fez-Se pobre para que nós enriquecêssemos por meio de Sua pobreza. Assumiu a forma de servo para que nós desfrutássemos da liberdade. Desceu para que nós fôssemos elevados. Suportou as tentações para que nós vencêssemos. Suportou a desonra para nos glorificar. Morreu para nos salvar e ascendeu para atrair-nos para Si desde as profundezas onde nos encontrávamos, caídos e mortos pelo pecado.»
(São Gregório, o Teólogo, Discurso I sobre a Santa Páscoa)
São Máximo, o Confessor, revela-nos seis abstinências que auxiliam na purificação, para que a graça de Deus possa habitar em nosso ser:
«Seis são as abstinências que, se lograrmos praticar, nos permitem conhecer a Deus. A primeira é a abstinência da ação pecaminosa. A segunda é a abstinência da alimentação excitante e desmedida. A terceira é a abstinência dos lugares onde se encontram pessoas desenfreadas e luxuriosas. A quarta é a abstinência de trabalhos incompatíveis com a vida segundo Deus. A quinta é a abstinência de uma vida censurável que dispersa a mente em muitas direções. A sexta é a abstinência da própria vontade.»
A terapia, portanto, que traz consigo a graça de Deus mediante a abstinência do mal e a participação nos mistérios salvíficos, é seguida pela cura e pela restauração da imagem divina; depois vem a entrada no Santo dos Santos mediante a iluminação divina e o estabelecimento do Espírito Santo nas profundezas do nosso ser.
A luta espiritual como livre escolha humana
«São João Crisóstomo utiliza o termo proáiresis (livre escolha) em estreita relação com a vontade, o livre-arbítrio e a determinação. Proáiresis significa escolha livre, decisão deliberada e liberdade para decidir. Em Crisóstomo, contudo, esse termo adquire uma importância extraordinária.»
(Demétrio Trakatelis, Os Padres interpretam, Atenas, 1995, pp. 71-91)
São Nicetas Estetato escreve acerca da deificação:
«A deificação é, nesta vida, a verdadeira e espiritual liturgia divina, durante a qual o Logos da Sabedoria inefável atua sacramentalmente e Se comunica àqueles que se prepararam, tornando-Se para eles aquilo que une.»
Essa união exprime-se também mediante a unidade da fé.
Aqueles que experimentam a deificação como revelação das realidades divinas por meio da participação em Deus, dentro da luz da graça divina, tornam-se conformes à imagem do Filho de Deus. Encontram-se no caminho do «segundo a semelhança». Estes serão deuses por posição ou por participação para os demais homens sobre a terra. (Hierotheos Vlachos, Conversações sobre a Psicoterapia Ortodoxa, Os Deificados, p. 126)
A deificação como participação no Reino de Deus
Em Deus distinguimos entre essência e energia. A essência é incomunicável; não podemos ter qualquer relação com ela e encontra-se para além de toda compreensão por parte das criaturas e, certamente, do homem. A energia, ao contrário, é participável. A energia de Deus também recebe o nome de graça divina.
A experiência da graça divina manifesta-se para muitos dos deificados sob a forma de luz. São Basílio, o Grande, escreve que as almas iluminadas pela luz divina transmitem também essa graça a outros e recebem simultaneamente numerosos dons, tais como:
- conhecimento prévio de acontecimentos futuros;
- compreensão dos mistérios;
- percepção das coisas ocultas;
- distribuição de carismas;
- alegria inesgotável;
- comunhão com os anjos;
- permanência em Deus;
- cidadania celeste;
- semelhança com Deus;
- e o mais elevado de todos os bens que almejamos: tornar-se deuses.
Os Santos Padres da Igreja concordam quanto a isso, entre eles São Máximo, o Confessor, e São Gregório Palamás: aqueles que foram deificados, isto é, aqueles que se uniram a Cristo, tornam-se sem princípio e sem fim, pois já não vivem uma vida temporal que possui começo e término.
Em outras palavras, participam da vida eterna; são aqueles que passaram da morte para a vida.
«Participando desta contemplação, o homem deificado adquire pela graça aquelas propriedades que Deus possui por natureza.»
(Hierotheos Vlachos, op. cit., p. 128)
Escreve São Gregório Palamás:
«Assim como o resplendor presente nos olhos, ao unir-se aos raios do sol, torna-se verdadeiramente luz e desse modo vê as coisas sensíveis, da mesma maneira a mente, quando chega a ser um só espírito com o Senhor, contempla com pureza as realidades espirituais.»
E quanto vê?
«Não vê tanto quanto é aquilo que contempla, mas tanto quanto se tornou receptiva ao poder do Espírito Santo.»
Por isso, na festa da Transfiguração cantamos:
«Mostraste aos Teus discípulos a Tua glória, segundo podiam suportá-la.»
Isto é, na medida em que eles podiam contemplá-la. Como diz São Dionísio:
«A união dos deificados com a Luz supraessencial é o repouso de toda atividade intelectual.»
(São Dionísio Areopagita, Sobre os Nomes Divinos, I, 5; PG 3, 593C)
Prossegue Palamás, dizendo:
«Quando alguém deseja ascender aos mistérios inefáveis de Deus, a contemplação não consiste apenas em negação e abstração, mas em união e deificação, realizadas de modo místico e inefável pela graça de Deus, após ter afastado completamente tudo aquilo que mantém a mente presa às coisas inferiores; ou melhor, após alcançar aquele repouso que é superior a toda abstração.»
(São Gregório Palamás, Em Defesa dos Santos Hesicastas)
A cessação de toda atividade intelectual e a união com a Luz supracelestial são próprias unicamente daqueles que alcançaram a purificação do coração e o adornaram com as virtudes e a graça. Em lugar de olhos, ouvidos e raciocínios ordinários, possuem o Espírito incompreensível, por meio do qual veem, ouvem e compreendem. E verdadeiramente, quando cessa toda atividade intelectual, com que contemplam a Deus os homens iguais aos anjos, senão com o poder do Espírito?
Por isso, esta visão não é uma sensação, pois não é percebida por meio dos sentidos. Tampouco é um ato do pensamento, porque não é adquirida mediante raciocínios nem mediante o conhecimento discursivo dos pensamentos, mas pela cessação de toda atividade mental. Não é imaginação, nem reflexão discursiva, nem opinião, nem qualquer conclusão lógica. Tampouco é alcançada apenas por meio da ascensão apofática.
Deste modo, toda forma de oração culmina na oração pura, e todo discurso conclui na transcendência de todos os seres. Depois da oração existe uma visão inefável e um êxtase contemplativo, assim como mistérios indescritíveis. Depois da transcendência dos seres — ou, mais exatamente, depois da cessação de toda atividade —, se existe uma ignorância, esta é superior ao conhecimento; e, se existe uma obscuridade, esta é sobreluminosamente resplandecente.
Nessa obscuridade supraluminosa são concedidas as realidades divinas aos santos, conforme ensina o grande Dionísio.
Alcance e limites da deificação
Na passagem evangélica que afirma que ninguém jamais viu a Deus (Jo 1,18), o evangelista João refere-se à essência divina, bem como ao conhecimento intelectual dessa essência. Segundo São Máximo, o Confessor, a graça divina, embora conceda deleite àqueles que dela participam, não lhes concede compreensão exaustiva nem apreensão total. Segundo São Gregório de Nissa, a promessa da visão de Deus possui um duplo significado. O primeiro significado seria conhecer a natureza divina que está acima de todas as coisas; isto, segundo os santos, é impossível. O segundo significado é aquilo que o Senhor promete quando declara bem-aventurados os puros de coração:
«Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.» (Mt 5,8)
(São Gregório de Nissa, Discurso Antirrético II)
Portanto, o «rosto» de Deus que pode ser contemplado é a energia e a graça divinas quando se manifestam aos dignos. O «rosto» de Deus que jamais pode ser visto é a natureza ou essência divina, que se encontra para além de toda expressão e de toda visão, pois ninguém jamais viu nem descreveu a natureza de Deus. (Homilia XI, Sobre a Venerável Cruz).
São Gregório ensina que a contemplação de Deus, isto é, a visão de Deus — teoptia —, não ocorre exteriormente, mas interiormente. O homem contempla a luz incriada mediante a deificação, mediante a glorificação. Não se trata, portanto, de uma visão através dos sentidos corporais, mas mediante a ação espiritual e interior da graça, que transforma o homem tanto interior quanto exteriormente para que possa receber o dom da visão de Deus.
Por conseguinte, também os sentidos corporais são transformados para se tornarem capazes de perceber a luz incriada. Esta deificação do homem é, na realidade, união com Deus, comunhão com Deus. O conhecimento de Deus que surge da deificação é conhecimento unicamente daquilo que é revelado ao homem criado por meio da energia divina.
«A deificação é participação e comunhão divinizadora. O conhecimento de Deus é fruto da união do homem com Deus. Esse conhecimento de Deus está acima do conhecimento humano. E não somente está acima do conhecimento humano, mas também acima da virtude.
São Gregório Palamás relaciona o conhecimento de Deus com a visão da luz incriada, com a deificação do homem e com sua comunhão com Deus.»
(Hierotheos Vlachos, Doença e Saúde Espiritual, cap. 4, p. 168)
Considerações finais
Escreve o Ancião José, o Hesicasta, a uma monja:
«A situação atual da maioria reduziu-se a uma forma exterior. Além disso, não existe preocupação com o interior da alma, onde reside o essencial, onde se unem o material e o imaterial, o homem e Deus, na medida em que isso é possível para a nossa natureza terrena. Nessa luta, Deus deve cooperar, porque sem Ele nada pode ser alcançado. A livre vontade do homem deve empenhar-se. O corpo deve derramar sangue, porque a pele do homem interior deve desprender-se; o homem velho deve derreter-se como a cera. E assim como, quando o ferro entra no fogo, perde a ferrugem que o recobre, assim sucede também com o homem. Pouco a pouco vem a graça e, apenas se aproxima do homem, este derrete-se como a cera. Nesse momento, o homem já não se reconhece a si mesmo, embora se torne inteiramente uma mente clarividente, cheia de olhos espirituais e de extraordinária clareza. Nessa energia sobrenatural, o homem não pode distinguir-se de si mesmo, porque se une completamente com Deus. Então cai a ferrugem, morre o homem velho, elimina-se a corrupção herdada e a massa humana é renovada. O homem não muda corporalmente, mas a graça ilumina, fortalece e renova os seus dons e qualidades naturais. Assim revive o antigo Adão, que foi criado à imagem de Deus.»
São José também escreve acerca dos remédios da alma para alcançar a purificação e a iluminação:
- jejum,
- vigília,
- oração,
- humildade,
- perseverança,
para atrair a graça de Deus e fazer com que Deus Se torne colaborador do homem. E prossegue dizendo:
«O homem luta para mudar a sua natureza e não pode fazê-lo por si mesmo; mas Deus a transforma. Porque Ele, que estabeleceu os limites de todas as coisas, pode derrubar esses limites e modificar a natureza segundo a Sua vontade. Mesmo quando outros te injuriarem, deves reconhecer a tentação que os move e arrepender-te tu mesmo, chorando como se fosses o causador. Deves combater o teu próprio eu e convencer-te de que as coisas são como os outros dizem, ainda que não o sejam. Deves ver que tens razão e, contudo, persuadir-te de que és tu quem está equivocado. Esta é a arte das artes e a ciência das ciências: que desapareça todo sentimento de direito próprio e se extinga completamente a soberba; tornar-se insensato com plena consciência. Hoje, se alguém fala da graça ou da purificação do homem interior, é considerado um extraviado. Deve honrar-nos Aquele que organiza o combate, mostra os prêmios, estabelece as regras da luta, concede a força, subjuga os adversários, coroa os atletas e recompensa a vitória. Isso não pode ser aprendido facilmente por palavras, se alguém não entrar na fornalha da provação; tampouco pode ser compreendido, se não for experimentado. Humilha, pois, o teu modo de pensar e não creias que é fácil aprender estas coisas.»
(Ancião José, Expressão da Experiência Monástica, Carta XLII)
A cura dos órgãos do conhecimento implica simultaneamente a sua purificação do pecado e da corrupção produzida pelas paixões. Dá-se especial atenção ao principal órgão do conhecimento, a mente (nous), porque a sua função possui uma importância decisiva no reino do ser e da personalidade humana.
Mas o que é a pureza da mente?
A pureza da mente é a iluminação nas realidades divinas, nas coisas e pensamentos de Deus, após a prática das virtudes. A prática das virtudes multiplica a graça no homem, e a presença da graça purifica a mente dos pensamentos malignos.
«A pureza da mente é a iluminação nas coisas divinas após o exercício das virtudes. A obra das virtudes multiplica a graça no homem, e a presença da graça limpa a mente dos pensamentos maus.»
(Justino Popović, Caminho do Conhecimento de Deus, pp. 201–209)










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