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“Igreja Irmã” e Unidade Visível – Ioannis Lotsios

Discurso de Sua Eminência o Metropolita Ancião Emanuel de Calcedônia a Sua Santidade o Papa Leão XIV por ocasião da Festa do Trono da Igreja de Roma (Vaticano, 28 de junho de 2025)

Introdução

O encontro anual da delegação do Patriarcado Ecumênico com o Papa de Roma, tradicionalmente realizado por ocasião da festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, constitui ponto central de referência no diálogo ortodoxo-católico. O primeiro desses encontros com o Papa Leão XIV, em 2025, reveste-se de especial importância, pois manifesta o perfil eclesiológico e a visão ecumênica do recentemente eleito Bispo de Roma¹. A menção oficial do Papa à Igreja de Constantinopla como “Igreja Irmã” representa um ponto de partida fundamental para a compreensão da base do reconhecimento mútuo e da orientação rumo à unidade. Também o discurso do Metropolita de Calcedônia, Emanuel, ao Papa Leão XIV, como Chefe da Delegação Patriarcal por ocasião da Festa do Trono da Igreja Romana, constitui um texto de relevância ecumênica, no qual a utilização do termo “Igreja Irmã” para referir-se à Igreja de Roma não é fortuita, mas carrega um peso teológico, histórico e ecumênico substancial². Esse termo expressa uma concepção teológica específica da relação entre Ortodoxia e Catolicismo, bem como o esforço de redefinição e aprofundamento do diálogo em prol da unidade³.

  1. A afinidade apostólica como fundamento da unidade

O discurso do Papa Leão XIV inicia-se com a saudação “Irmãos no Senhor”, que assinala o vínculo espiritual entre as Igrejas. A longa referência aos Apóstolos Pedro e André, como fundamentos históricos e simbólicos das duas tradições — Ocidental e Oriental — evidencia a comunhão apostólica como o fundamento supremo da unidade. A memória e veneração comuns dos Santos Apóstolos atuam como elemento de coesão e afinidade na identidade e função eclesiológicas das Igrejas⁴.

No discurso, o Papa Leão XIV afirma:

“Sinto-me particularmente feliz por acolher, pela primeira vez desde minha eleição como Bispo de Roma e sucessor do Apóstolo Pedro, vossa Delegação que representa a Igreja irmã de Constantinopla, enquanto celebramos a festa dos Santos Pedro e Paulo, Padroeiros da Igreja de Roma. Esta tradicional troca de delegações entre as duas Igrejas, nas respectivas festas dos Santos Padroeiros, é sinal da profunda comunhão já existente entre nós, bem como reflexo do vínculo de fraternidade que une os Apóstolos Pedro e André.”⁵

A busca pela piena comunione visibile (plena comunhão visível) é central na eclesiologia ortodoxa e católica. A noção de comunhão visível possui relevância teológica, pois a Igreja é entendida não apenas como uma comunidade espiritual, mas como uma realidade social e visível que testemunha a unidade no Corpo de Cristo. A expressão continua ascolto rispettoso e dialogo fraterno sublinha a necessidade de escuta mútua, discernimento e espírito de amor — elementos fundamentais de todo autêntico diálogo.

  1. O uso do termo “Igreja Irmã”

A expressão “Igreja Irmã”⁶ foi introduzida e consolidada no contexto do diálogo ecumênico a partir da metade do século XX, especialmente após o encontro histórico entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras em 1964, que marcou a revogação dos anátemas de 1054 e abriu uma nova era nas relações entre Roma e Constantinopla⁷. Esta expressão transmite o reconhecimento mútuo da plenitude da Igreja da outra parte, derrubando toda teoria de monopólio eclesiástico da verdade ou de exclusividade. “Igrejas irmãs” implica igualdade, respeito mútuo e reconhecimento da autonomia histórica e teológica, no marco de uma unidade na diversidade⁸.

O uso do termo pelo Papa Leão XIV não constitui mero gesto diplomático, mas expressa a convicção eclesiológica fundamental de que existe continuidade apostólica e eucarística na Igreja de Constantinopla. Declara, ainda, o desejo de restauração da plena comunhão, não como homogeneização, mas como renovação de uma experiência apostólica comum. O discurso refere-se explicitamente ao encontro de 1964 e aos esforços dos predecessores do Papa Leão XIV, os quais desenvolveram uma visão duradoura de reconciliação e unidade, com respeito à memória histórica e à tradição ortodoxa.

A revogação dos anátemas, como símbolo de reconciliação, ressalta a responsabilidade comum de superar os muros divisórios e promover uma unidade que não se impõe de cima, mas se funda na aceitação recíproca e no diálogo⁹.

O uso eclesiológico do termo “Igreja Irmã” por parte do Metropolita de Calcedônia reflete o princípio de igualdade e reciprocidade entre as Igrejas, sem sugerir superioridade hierárquica ou submissão. Fundamenta-se na fé comum em Cristo e na aceitação conjunta da oikonomia e da missão da Igreja como Corpo de Cristo. A expressão possui raízes na tradição patrística, onde as Igrejas locais são denominadas “irmãs” entre si, refletindo a coesão do corpo eclesial¹⁰.

A escolha do termo pelo Metropolita Emanuel para descrever a Igreja de Roma expressa a concepção fundamental de que ambas as Igrejas, apesar das diferenças e cisões históricas, compartilham uma herança comum baseada na sucessão apostólica e na fé nos mesmos dogmas fundamentais. Tal concepção também indica o desejo de reconciliação e cooperação em espírito de paz, visto que a fraternidade pressupõe diálogo e respeito mútuo. A expressão opera como ponte de confiança e esperança, que atravessa os limites das diferenças teológicas e estabelece como objetivo primordial a realização da unidade na fé¹¹.

Insere-se no marco mais amplo dos esforços ecumênicos pós-1964, com a revogação dos anátemas de 1054 como ponto histórico de inflexão, que lançou as bases para um diálogo teológico aberto e sincero.

O Metropolita assinala que a expressão “Igreja Irmã” não indica relação hierárquica absoluta, mas é parte de um esforço contínuo de compreensão e reconciliação, promovido através de comissões oficiais e documentos conjuntos. A fraternidade das Igrejas serve de fundamento para a abordagem de questões como o primado, a sinodalidade e as divergências dogmáticas em torno do Filioque. O uso da expressão revela a disposição positiva da Igreja de Constantinopla de encontrar-se com a Igreja de Roma em relação de igualdade, solidariedade e comunhão espiritual — fundamento do percurso de diálogo, reconciliação e cooperação no esforço por superar as diferenças históricas e alcançar a plena comunhão na fé. O discurso constitui marco importante, que com sabedoria e sensibilidade teológica busca reavivar o espírito do diálogo ecumênico, focalizando a unidade e a paz como frutos da fraternidade entre as Igrejas locais, em vista da celebração comum da fé e do caminho rumo ao futuro.

A parágrafo 23 da Lumen Gentium

O ponto focal do discurso centra-se na unidade plena e visível. Esta formulação não é casual: constitui termo-chave na teologia da Igreja Católica Romana sobre a unidade dos cristãos. A communio plena, isto é, comunhão na fé e nos sacramentos, é entendida — pela eclesiologia católica romana — como inexistente fora da submissão ao Bispo de Roma. Contudo, a abordagem de Leão XIV é equilibrada e integradora. Ele não exige submissão, mas ressalta a necessidade de um caminho comum “no Espírito”, “por meio do diálogo fraterno”, e especialmente “no contexto da sinodalidade”.

Essa perspectiva é familiar e fundamental à eclesiologia ortodoxa, e sua repetição pelo Papa indica uma releitura eclesiológica do Primado Papal em chave de serviço e não de poder. O Papa faz referência explícita ao parágrafo 23 da constituição dogmática Lumen Gentium do Concílio Vaticano II, sublinhando que o Bispo de Roma não age isoladamente, mas “em comunhão com todos os Bispos”.

Essa observação é de particular relevância para a Igreja Ortodoxa, que frequentemente destacou que a concepção católica romana do primado é incompatível com a sinodalidade da Igreja do primeiro milênio. O reconhecimento explícito da sinodalidade como fundamento do primado oferece nova base para o diálogo teológico. Como demonstrado pelo Documento de Ravena (2007), há consenso de que o primado existia na Igreja do primeiro milênio; a questão pendente é sua interpretação e exercício. O Papa Leão XIV parece disposto a reexaminar essa compreensão à luz da Tradição.

Conclusão

O uso da expressão “Igreja Irmã” pelo Papa Leão XIV manifesta uma intenção eclesiológica e ecumênica substancial, que transcende o simples gesto de boa vontade. Declara com clareza que a unidade entre as Igrejas requer reconhecimento mútuo, respeito pela Tradição e coerência apostólica. Essa abordagem pode constituir fundamento para a continuidade do diálogo, tendo como horizonte a plena comunhão — revivendo a antiga fraternidade apostólica e o testemunho comum no mundo.

Referências:

¹ Discurso do Papa Leão XIV: vatican.va/20250628-patriarcato-ecumenico.html
² Discurso do Metropolita Emanuel: ec-patr.org
³ John Meyendorff, Byzantine Theology, Fordham, 1974, p. 112–115
⁴ Discurso do Papa Leão XIV, cf. nota ¹
⁵ Will T. Cohen, The Concept of “Sister Churches”, Aschendorff, 2016
⁶ John O’Malley, What Happened at Vatican II, Harvard, 2008, p. 234–236; John Chryssavgis, Pilgrimage Toward Unity
⁷ Thomas F. Michel, “The Orthodox-Catholic Dialogue: Toward a Common Vision of the Church”, Theological Studies 70 (2009), p. 771–793
⁸ Geoffrey Wainwright, Ecumenical Theology, Eerdmans, 2000, p. 157–163
⁹ Cf. Cl 1,18
¹⁰ Cf. Ef 4,13

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