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O Grego, a língua do Novo Testamento, dos  Santos Padres da Igreja, da Divina Liturgia e da hinologia

Saudação de Sua Santidade o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, na celebração do Dia Mundial da Língua Grega. (Escola Urbana de Gálata, 9 de fevereiro de 2026)

Veneráveis irmãos Hierarcas,

Filhos abençoados no Senhor,

Prestamos hoje homenagem à língua grega, a língua de Homero e Safo, dos Filósofos e dos autores das Tragédias, de Aristófanes e Tucídides, do Novo Testamento e dos Padres da Igreja, da Divina Liturgia e da hinologia. Honramos a “língua materna do espírito”, que ofereceu inumeráveis e inestimáveis contribuições à cultura universal, às letras e às ciências.

A língua grega, essencialmente filosófica e contemplativa, sempre direciona a mente e o pensamento para a profundidade das coisas, para o essencial, para a verdade que, como disse Demócrito, se encontra “no fundo”, não pertencendo apenas ao povo que a criou, cultivou e trouxe à luz. É um bem clássico e universal, uma “propriedade eterna” da humanidade. Provavelmente não existe uma única pessoa na Terra, com seus oito bilhões de habitantes, que não tenha pronunciado uma palavra em grego.

No mundo moderno da tecnopolítica, do economicismo, dos critérios quantitativos e da inteligência artificial, a língua grega continua a representar e expressar o “maravilhamento” do filósofo, o “deslumbramento” diante das coisas divinas, a transcendência do aprisionamento na lógica inexorável das necessidades insaciáveis. Revela a dimensão espiritual, enriquece-nos existencialmente, funciona como veículo para a humanização e a comunhão da vida.

Não é por acaso que o grego se tornou a língua central da teologia cristã. Através dele, a Igreja expressou sua fé e se dirigiu a círculos mais amplos. Obviamente, a combinação da linguagem filosófica com a teologia não estava isenta de riscos, visto que, como já foi dito, “a civilização inteira se propaga pela linguagem”. Dado esse poder da linguagem, era muito difícil que a influência do espírito grego permanecesse apenas no investimento linguístico. Os grandes Padres da Igreja, contudo, foram bem-sucedidos nessa tarefa, ou seja, em evitar a chamada “helenização do cristianismo” e não apenas em expressar de maneira admirável “uma experiência inteiramente nova” por meio da terminologia filosófica, mas também em abrir novos caminhos e uma nova ecumenicidade para a filosofia, e em demonstrar o poder do espírito e da língua grega. É impressionante que, na composição patrística, o investimento linguístico filosófico e o conteúdo teológico constituam um todo orgânico. A teologia dos Padres da Igreja contribuiu decisivamente para a preservação e difusão do antigo espírito grego por toda a oikoumene.

O decano dos teólogos ortodoxos do século XX, o saudoso padre Georges Florovsky, reconhece na escolha da língua grega para a formulação do dogma cristão “as decisões mais secretas da vontade de Deus”. Como ele escreve, essa língua parece ter “possuído certas forças e certos meios que ajudaram na investigação e expressão da verdade da Revelação”. E o padre Florovsky esclarece:

“Permanece o fato de que o Evangelho é dado a todos nós e para todas as épocas na língua grega. Nessa língua ouvimos o Evangelho em sua totalidade e plenitude. Isso, naturalmente, não significa — nem pode significar — que não possa ser traduzido, mas sempre o traduzimos a partir do grego. E há exatamente tão pouca ‘sorte’ ou ‘casualidade’ nessa ‘escolha’ da língua grega como a primeira e imutável língua do Evangelho cristão, quanto houve no fato de que ‘a salvação vem dos judeus’ (Jo 4,22).”

A língua grega e a fé ortodoxa pertencem ao cerne da identidade espiritual e cultural da nossa nação. Nunca deixamos de enfatizar a contribuição da Igreja, desde o início do período cristão, passando pelos anos bizantinos e pós-bizantinos, até os dias de hoje, para a formação, preservação, enriquecimento e disseminação da língua grega. Ela fundou escolas e academias, ensinou nossa língua com sua vida litúrgica, hinologia e teologia. Essa língua ainda hoje é ouvida nos serviços religiosos, conecta-nos com o passado e testemunha sua coerência, continuidade e unidade. Recordamos as palavras de Zisimos Lorentzatos: “Somente pela nossa fé e pela nossa língua fomos salvos até hoje, e somente por estas duas seremos salvos amanhã.”

Em nenhum momento da história de nossa Nação se apagou a lâmpada do antigo espírito grego. É um verdadeiro milagre que essa lâmpada tenha sido colocada no candelabro por Padres e Mestres da Igreja. O nosso povo vivia a sua helenidade juntamente com a vivência da Ortodoxia. E hoje, como escreve o saudoso Metropolita de Pérgamo, João: “Quanto mais nos apropriamos de nós mesmos e de nossa identidade grega, mais bebemos da água da Ortodoxia”.

Caros presentes,

Estamos certos de que todos vocês sentem orgulho da nossa língua: a língua dos nossos antepassados e a nossa; a língua dos habitantes nascidos na Cidade de Constantino; a língua da diáspora, que porta e expressa o ethos, a cultura, a liberdade, a fé e o amor em sua unidade indivisível.

Orgulhamo-nos da maravilhosa língua na qual foram escritas obras incomparáveis ​​e irrepetíveis. Esta língua que, ainda hoje, é fonte de inspiração e bússola de orientação espiritual para inúmeros seres humanos em todo a oikoumene. Regozijamo-nos com o fato de as obras dos filósofos e poetas da Antiguidade adornarem as bibliotecas do mundo, serem estudadas e debatidas, e de milhares de palavras e termos gregos e helenísticos serem encontrados na terminologia das ciências e nas línguas do mundo.

Com esses pensamentos, saudamos a todos e desejamos a todos vocês, que partilham do mesmo ideal, todas as bênçãos de Deus. Agradecemos pela atenção.

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