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TODOS OS IRMÃOS

Arcebispo Job de Telmessos

Em 3 de outubro de 2020, na véspera da festa de São Francisco, no túmulo do santo em Assis, Sua Santidade o Papa Francisco emitiu uma encíclica muito forte e oportuna intitulada “Fratelli tutti”, abordando a questão da fraternidade universal e da cooperação em época de uma pandemia desastrosa que aflige a todos nós, não apenas pelo número impressionante de mortes e as consequências econômicas, mas cercada, infelizmente, pela ascensão do racismo, nacionalismo e fundamentalismo religioso. Seu título repete as palavras com as quais São Francisco de Assis se dirigiu a seus irmãos e irmãs ao lhes propor um modo de vida de acordo com o Evangelho. O Papa Francisco lembra que foi a visita do santo ao Egito, onde conheceu o sultão Malik-el-Kamil no ano de 1219, durante a época das Cruzadas, que revelou o seu amor pelos seres humano, cada ser humano, a quem considerava seus irmãos e irmãs.

O Papa sublinha que, embora sua encíclica anterior “Laudato Si” tenha sido inspirada em «seu irmão Bartolomeu», o «Patriarca Verde», esta teve sua inspiração no Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, que conheceu em Abu Dhabi, onde ambos os líderes religiosos declararam que «Deus criou todos os seres humanos iguais em direitos, deveres e dignidade, e os chamou para viver juntos como irmãos e irmãs».

Sua Santidade também explica que a encíclica foi escrita no contexto da atual pandemia da Covid-19, que infelizmente mostrou que os países e o mundo não estavam prontos para trabalhar juntos para o bem comum. Na verdade, o Papa considera que certas tendências em nosso mundo realmente dificultam o desenvolvimento da fraternidade universal. Se alguém poderia esperar que o mundo tivesse aprendido uma lição das guerras e desastres do passado, pode-se testemunhar sinais de uma certa regressão. Francisco observa que novos conflitos estão surgindo e que uma nova forma de nacionalismo míope, extremista, ressentido e agressivo está surgindo, enquanto exacerbação, extremismo e polarização se tornaram ferramentas políticas em muitos países do mundo.

O Papa Francisco lembra que a atual pandemia Covid-19 tem impactado particularmente os idosos que se viram abandonados, isolados de seus familiares e muitos morreram de forma trágica, devido principalmente à falta de respiradores e ao desmantelamento dos sistemas de saúde. Segundo ele, a pandemia chama o mundo inteiro a perceber que somos uma comunidade global, que estamos todos no mesmo barco, e que seus problemas pessoais são os problemas de todos. Segundo ele, o golpe imprevisto da pandemia nos instiga a recuperar nossa preocupação com os seres humanos, para todos, e não para o benefício de alguns, uma vez que a noção de «cada homem por si mesmo» poderia rapidamente se degenerar em um «liberdade-para-tudo» que seria pior do que qualquer pandemia.

Portanto, Sua Santidade chama a humanidade para um novo estilo de vida, através da redescoberta da necessidade um do outro. Ele considera que o mundo não pode continuar a descartar pessoas pela obsessão de reduzir custos trabalhistas. Ele observa que, embora algumas regras econômicas tenham se mostrado eficazes ao crescimento econômico, não o foram para o desenvolvimento humano integral. Ele argumenta que não se pode afirmar que o mundo moderno reduziu a pobreza medindo a pobreza com critérios do passado que não correspondem às realidades atuais.

O Papa Francisco também observa que, infelizmente, na prática, os direitos humanos não são iguais para todos. Guerra, ataques terroristas, perseguição racial ou religiosa, e muitas outras afrontas à dignidade humana são realmente julgadas de forma diferente, dependendo de quão conveniente isso se mostra para certos interesses, principalmente econômicos. Os migrantes não são vistos como possuidores da mesma dignidade que qualquer ser humano e, portanto, não têm o direito de participar da vida da sociedade como os outros. Ele sublinha que os cristãos não podem aceitar tal maneira de pensar e agir, uma vez que a fé cristã promove a dignidade inalienável de cada pessoa humana, independentemente da origem, raça ou religião, bem como a lei suprema do amor fraterno. Ele também ressalta que o progresso da tecnologia tem mostrado que não estamos livres de ideologias e que ela poderia servir campanhas digitais de ódio e destruição, e poderia criar, disfarçar e alterar qualquer coisa. E ele reconhece que formas destrutivas de fanatismo poderiam ser encontradas mesmo entre os crentes religiosos, incluindo os cristãos.

Mas, ao mesmo tempo, a pandemia Covid-19 permitiu que a sociedade reconhecesse e apreciasse todos aqueles que sacrificaram suas vidas por outros, como as equipes médicas, comerciantes, zeladores, todos aqueles que prestam serviços essenciais e segurança pública, voluntários, bem como religiosos, que entendem e mostram que ninguém é salvo sozinho. O Papa Francisco toma a história do Bom Samaritano como um paradigma, sublinhando que ela está constantemente sendo repetida. Ele considera que essa parábola encoraja a humanidade a perseverar no amor, a restaurar a dignidade do sofrimento e a construir uma sociedade digna, e afirma que os cristãos são chamados a reconhecer Cristo em cada um de nossos irmãos e irmãs abandonados ou excluídos.

O ensino de Cristo exige um amor capaz de transcender fronteiras e que pode ser chamado de “amizade social”. A amizade social e a fraternidade universal exigem necessariamente o reconhecimento do valor de cada pessoa humana, sempre e em todos os lugares. O Papa Francisco sublinha que a noção de pessoa humana é por natureza relacional. Somos todos chamados de seres humanos a transcender-nos através de um encontro com os outros. Por isso, a solidariedade é uma expressão concreta de serviço, de cuidado com os outros. Ele nos lembra que o mundo existe para todos, porque todos nascem com a mesma dignidade humana, e que as diferenças de cor, religião, origem, nacionalidade não podem ser usadas para justificar os privilégios de alguns sobre os direitos de todos. Ele também ressalta que a assistência mútua entre os países se mostra enriquecedora para cada um e que o verdadeiro valor dos diferentes países é medido por sua capacidade de pensar não apenas como um país, mas também como parte da maior família humana.

Sua Santidade considera que a pandemia nos lembrou que precisamos ter uma perspectiva global para nos salvar do provincianismo. Ele insiste que o desenvolvimento de uma comunidade global de fraternidade baseada na prática da amizade social por parte dos povos e nações exige um melhor tipo de política, verdadeiramente a serviço do bem comum. Ele aponta para a educação que é essencial para as relações humanas de qualidade e para permitir que a própria sociedade reaja contra injustiças, aberrações e abusos do poder econômico, tecnológico, político e midiático.

Segundo p Papa, reconhecer que todas as pessoas são nossos irmãos e irmãs, e buscar formas de amizade social que incluam todos, não é meramente utópico. Exige um compromisso decisivo para elaborar meios eficazes para este fim. Qualquer esforço nesse sentido torna-se um nobre exercício de caridade. A política também deve abrir espaço para um amor terno dos outros. E afirma que, se quisermos nos encontrar e ajudar uns aos outros, precisamos de um autêntico diálogo social que envolva a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro e admitir que pode incluir convicções e preocupações legítimas. Ele salienta que toda guerra deixa o mundo pior do que era antes. Segundo ele, a guerra é um fracasso da política e da humanidade.

O Papa nos lembra que, em muitas partes do mundo, há uma necessidade de paz e reconciliação, que há também a necessidade de pacificadores, preparados para iniciar processos de cura e encontro renovado. Ele ressalta que o perdão e a reconciliação são temas centrais no cristianismo, assim como em outras religiões. Aos seus olhos, as diferentes religiões, baseadas no respeito por cada pessoa humana como uma criatura chamada a ser filho de Deus, contribuem significativamente para a construção da fraternidade e a defesa da justiça na sociedade. Diante de ações que nunca podem ser toleradas, justificadas ou dispensadas, o perdão é sempre possível. Embora perdoar não signifique esquecer, diante de algo que não pode ser esquecido, o perdão é, no entanto, possível.

A encíclica «Fratelli tutti» do Papa Francisco foi lançada em um momento crucial da história da humanidade. Que seu apelo pela paz, justiça e fraternidade inspirados particularmente em São Francisco de Assis, nos permita perceber que somos todos irmãos e nos estimular a agir em conformidade, a fim de que o mundo do pós-pandemia seja melhor, modelado pela solidariedade humana.


FONTENewsletter da Delegação Permanente do Patriarcado Ecumênico no CMI

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