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FOME, SOFRIMENTO, ADORAÇÃO E COMUNHÃO EM MEIO À PANDEMIA COVID-19

Por D. Makarios*, Metropolita de Nairóbi

Vivemos tempos realmente difíceis, uma época em que o mundo inteiro quase parou; o tecido social que define a interação humana foi desenrolado por um vírus invisível e mortal. Grandes instituições foram forçadas a fechar e a refletir sobre o melhor caminho a seguir. Covid-19 tem sido tão implacável para todos os seres humanos, jovens e velhos, com potencial para devastar impiedosamente as nossas vidas.

Descoberto na China, em dezembro de 2019, o novo coronavírus só despertou o Quênia em meados de março de 2020. E devo dizer que «não estávamos preparados para o que estava por vir».

Em poucos dias os números começaram a subir, e cenários como havia sido anteriormente testemunhado na Europa estavam agora diante de nós, em nosso quintal. Primeiro, as escolas foram fechadas, depois vieram os hotéis e igrejas; os municípios mais afetados foram bloqueados e a mobilidade foi restrita aos prestadores de serviços essenciais; os voos estavam suspensos; o planeta literalmente parou.

Quando as escolas fecharam, houve um tipo de alívio porque nossos filhos não seriam um meio de infecção, no caso provável de que o vírus atingisse nossas populações mais vulneráveis, especialmente as favelas em expansão. Mas havia uma grande preocupação também: a maioria de nossos filhos em nossas escolas totalmente patrocinadas dependem apenas da comida que servimos diariamente a eles. De grande preocupação para nós foi nossa escola primária no complexo do Seminário, com mais de 290 alunos totalmente dependentes das refeições e de outros itens essenciais que lhes eram oferecidos.

Superando a fome

Para ajudar os milhares de pessoas trancadas sem trabalho informal e outras demitidas de seus empregos habituais sem remuneração, embarquei em um projeto para fornecer rações diárias de alimentos para famílias do nosso bairro, bem como em todas as nossas paróquias. Isso foi motivado, não só pelos relatos na mídia, mas principalmente pelo que vi pessoalmente enquanto viajava para várias partes da Diocese para ver as pessoas e incentivá-las. A mídia, até o final de julho de 2020, informou que 3,6 milhões de quenianos enfrentaram a fome devido aos efeitos covid-19. Esse número está entre os 16% da população global que enfrenta a miséria e a fome. Para piorar ainda as coisas, essa pandemia veio em um momento em que muitas partes do país lutavam contra uma invasão de gafanhotos, que dizimou plantações de alimentos essenciais nas fazendas. À medida que o enxame varriam o país, inundações de chuvas torrenciais também causavam estragos e destruição no que restava na trilha dos gafanhotos, varrendo plantações e animais. A situação era sombria e cheia de incertezas. A igreja teve de mudar para combater a ameaça de fome, em um momento em que o governo lutava para controlar a propagação do novo coronavírus.

A Igreja Ortodoxa distribuía comida diariamente para os pais de nossa escola primária, para as famílias pobres em nossas paróquias, para os asilos, orfanatos e até mesmo para membros da comunidade ao nosso redor e para as muitas crianças de rua que, de outra forma, dormiriam com fome. Viajamos para quase todos os cantos do país onde temos comunidades ortodoxas para distribuir alimentos. No entanto, não limitamos nossas rações alimentares apenas às comunidades ortodoxas; em nossa área há uma grande comunidade muçulmana e compartilhamos comida com eles também. Diante de um inimigo invencível comum, vimos a imagem de Deus em cada pessoa que sofre, e era nosso dever ministrar a todos, independentemente de suas afiliações religiosas.

Enquanto escrevo este artigo, estamos planejando visitar a árida parte norte do Quênia para distribuir alimentos às nossas comunidades ortodoxas nas áreas de Lodwar e Turkana.

Em situações terríveis como a atual, todos nós olhamos para o socorro internacional para ajudar a amortecer e aliviar o fardo. Lamentavelmente, esta ajuda não foi o caso, visto que todas as nações foram afetadas em igual medida e economias gigantes foram postas em situação deplorável. Portanto, nossos esforços filantrópicos foram e ainda são muito tensos. Nossa sincera gratidão aos numerosos homens e mulheres de boa-vontade que, vendo o que estávamos fazendo ofereceram seu apoio, ainda que pouco, para tornar nossa distribuição de alimentos possível.

Adoração

Em época tão estranha, em meio a uma tempestade tão violenta como esta, não se poderia sequer correr para a Igreja para lá buscar refúgio; mesmo a Igreja tinha fechado suas portas. As autoridades locais de saúde emitiram diretrizes rigorosas que obedecemos plenamente e a maioria de nossas paróquias precisou fechar suas portas. Aqui na Escola do Seminário, nossos alunos tiveram de ir para casa de acordo com a diretiva do governo. Foi um grande golpe para o calendário acadêmico do nosso Seminário.

No entanto, tivemos que nos ajustar às condições e iniciamos um programa para ministrar as aulas online, à distância, para que nossos alunos de todo o continente africano pudessem prosseguir com seu aprendizado. Esta é, no entanto, uma iniciativa muito cara.

Nossa Capela do Seminário de São Macário do Egito, que tem serviços diários não me lembro de que alguma fez tenha sido fechada. Continuamos celebrando com as poucas pessoas que foram deixadas na sede da nossa Igreja. A Divina Liturgia foi celebrada plenamente e os aptos a participar estavam recebendo comunhão sempre. Por isso glorificamos a Deus.

Várias outras paróquias em nossa Arquidiocese continuaram com serviços divinos semanais. Assim, a luz e o fervor da Ortodoxia foram mantidos vivos. Agora todas as igrejas estão abertas, embora com diretrizes sanitárias rigorosas e distanciamento social.

Quanto ao Sacramento da Santa Comunhão, instituído por Jesus Cristo na Ceia Mística, na presença de seus discípulos (26: 26-28) (…) comuniquei ao meu rebanho que participar da Santa Comunhão não pode ser causa de transmissão de doenças, pois os fiéis de todos os tempos sabem que receber à comunhão no meio da pandemia, por um lado é uma determinação prática de obediência ao Deus vivo, e por outro uma grande manifestação de amor. “… o medo não existe no amor, mas o amor perfeito dissipa o medo. (1 João 4:18.) Aqueles que vêm “com temor de Deus, fé e amor” e absolutamente livres, sem qualquer compulsão, compartilham do Sangue e do Corpo de Cristo, que se torna “um remédio de imortalidade”, “para a remissão de pecados e a vida eterna”.

Ao celebrar em nossa capela durante toda a pandemia, eu estava tentando, sem qualquer fanatismo, expressar a necessidade de fortalecer nossa fé no Deus Triúno, defender a santidade da Santa Comunhão, sabendo muito bem que o mundo nos apresenta muitos desafios, sendo o Covid-19 um deles. Muitos tomaram isso como uma chance de defender que muitas colheres fossem usadas durante a comunhão. Eu exortei nosso povo a «… não se conformar com o padrão deste mundo…» (Rom 12:2) a respeitar o Mistério dos Mistérios e a não se distrair apressadamente com confusão e barulho.

Incentivo

Ainda não estamos fora de perigo, mas até agora, aqui no Quênia, podemos ver vislumbres de esperança. Não podemos, no entanto, deixar de ver o que está acontecendo em muitos países da Europa onde a pandemia está ameaçando uma segunda onda. Como tal, enquanto paramos e olhamos para o que Deus fez por nós, também incessantemente fazemos uma oração por nossa irmandade em Cristo nos países mais afetados, bem como em todo o mundo ortodoxo. Pelos tantos que perderam suas vidas para a Covid-19: pacientes, médicos, enfermeiros e cuidadores, pedimos ao Senhor para lhes conceda descanso e paz. Às suas famílias, pedimos que Deus as console. Para os sobreviventes e aqueles que ainda lutam contra o vírus e seus efeitos, que tenham coragem no Senhor. Estamos todos juntos nisso, e juntos venceremos.


*Makarios Tillyrides, Arcebispo de Nairóbi, nasceu em 1945 em Chipre. Graduou-se no St. Sergius Orthodox Theological Institute em Paris em 1972 e em 1976 doutorou-se em Filosofia pela Universidade de Oxford. Prosseguiu com pós-doutorado no Louvain-la-Neuve na Bélgica, entre os anos de 1978 e 1981. Desde 1977, começou a trabalhar como missionário na África, onde, em 1992, tornou-se bispo do Patriarcado Ortodoxo Grego de Alexandria. Desde então, o Arcebispo Macário está envolvido no Conselho Mundial de Igrejas e é membro da Comissão Internacional Conjunta para o Diálogo Teológico entre as Igrejas Ortodoxa e a Igreja Católico-Romana.

FONTENewsletter da Delegação Permanente do Patriarcado Ecumênico no CMI

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