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Talvez devêssemos ouvir Mozart juntos!

Os passos mais consistentes no caminho ecumênico foram sempre sustentados por histórias concretas de amizade

65-017Os passos mais consistentes no caminho ecumênico foram sempre sustentados por histórias concretas de amizade. E se há um desafio urgente a acolher, em vista dessa oração que Jesus faz («que todos sejam um» Jo 17, 22), é precisamente esse: o do mútuo conhecimento entre os cristãos, o da relação franca, tecida na gratuidade, na descoberta, no prazer de estarmos juntos, em trocas criativamente cordiais que avizinhem não só a razão.

No significativo patrimônio ecumênico que o século XX construiu, destacam-se, como pilares, histórias assim. Recordo aquela vivida por dois nobilíssimos teólogos: Hans Urs von Balthasar, católico, e Karl Barth, da Igreja Reformada. Conheceram-se em Basiléia, nos anos 40, e certamente conversaram muito sobre as suas visões teológicas, sobre os grandes mestres da tradição cristã que revisitavam, sobre conceitos, distinções e distâncias. Conheceram-se a esse nível tão a fundo, que Balthasar escreveu uma introdução ao pensamento de Barth, hoje unanimemente considerada na bibliografia crítica daquele autor. Mas talvez essa sintonia não fosse possível, se a uni-los não estivesse também uma arrebatada paixão pela música de Mozart, que escutavam juntos naqueles anos tão carregados de incerteza, vendo (ou melhor, ouvindo) nela um sinal palpável da Redenção.

Recordo igualmente uma das imagens mais radiosas do cristianismo contemporâneo: a do abraço entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Ecumênico Atenágoras I, dado em Jerusalém, como primeiro gesto do perdão recíproco que, mais adiante, viria a ser declarado entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa. Quarenta anos depois, com palavras emocionadas, João Paulo II haveria ainda de evocá-lo, tendo a seu lado o sucessor de Atenágoras, Bartolomeu I. Declarou o Papa: «aquele abraço tornou-se símbolo da reconciliação que desejamos!»

José Tolentino Mendonça / Portugal

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