Arcebispo JOB de Telmessos
Representante do Patriarcado Ecumênico
no Conselho Mundial das Igrejas
É mérito da Encíclica do Patriarcado Ecumênico de 1920 ter introduzido o conceito de ′′koinonia” (comunhão) das igrejas, no vocabulário ecumênico que se tornou um conceito fundamental na teologia do século XIX.

Posteriormente, a eclesiologia Eucarística sublinhou a correlação entre a Igreja e Eucaristia. Esta não era uma nova teoria, já que a encontramos no Novo Testamento. É notável que São Paulo, em sua Primeira Epístola ao Coríntios, fala dos cristãos como membros de um corpo, o corpo de Cristo, (1 Co 12:12-30) logo após ter falado sobre a instituição da Eucaristia (1 Co 11:23-26). E antes disso, o Apóstolo apontou que ′′embora sejamos somos muitos, somos um só pão, um só corpo, pois somos todos participantes desse pão′′ (1 Co 10:17). A unidade do corpo eclesiástico sempre se manifestou em participar de do mesmo pão e do mesmo cálice. Por esta razão particular, a Igreja Ortodoxa não partilha a Eucaristia com pessoas que não estão em comunhão com ela por questões de fé (em casos de heresia, cisma ou ruptura da comunhão) e considera a comunhão eucarística como a manifestação suprema da unidade da Igreja.
′′Uma Igreja que não serve a Eucaristia deixa de ser uma Igreja′′ lembrou-nos recentemente o Metropolita de Pérgamo Ioannes Zizioulas. Na verdade, a Igreja nunca deixou de celebrar a Eucaristia pois, mesmo durante o recente período de restrições, devido à pandemia do Corona vírus, a Eucaristia continuou a ser celebrada e distribuída, embora de uma forma restrita à porta fechada, seja na sede do Patriarcado Ecumênico, ou em monastérios, e até em algumas paróquias, com um número consideravelmente reduzido de pessoas.
A pandemia abalou a nossa praxis e continuará a fazê-lo, uma vez que muitos de nós não pudemos assistir aos ofícios da igreja, nos últimos meses, e as nossas práticas continuarão a ser revistas nos próximos meses. Certamente, muitos de nós, conseguimos acompanhar os ofícios eclesiásticos online, e isto tem sido uma consolação para todos nós no atual contexto.
No entanto, é impossível participar na comunhão online, não só porque não podemos consagrar pão e vinho online, mas acima de tudo, porque a Comunhão Eucarística não é um ato individual, uma vez que pressupõe a reunião (sinaxis) de todos num só corpo.
Agora que em vários países as igrejas estão gradualmente autorizadas a reabrir e a começar as suas celebrações, mais uma vez, nas condições de “distanciamento social”, outros desafios se apresentam para a celebração da Eucaristia. Na verdade, o termo ′′distanciamento social ′′ é um paradoxo, ou pelo menos, uma antinomia, em relação à Eucaristia, porque “Eucaristia” implica partilhar o mesmo pão e participar do mesmo cálice.
Enquanto algumas igrejas cristãs, como a Anglicana e a Católica Romana, parecem evitar, pelo menos neste momento, partilhar um cálice comum, e receber o corpo de Cristo nas mãos, levantando alguns questionamentos, a Igreja Ortodoxa está confrontando debates sobre o uso da colher comum, usada para a comunhão dos fiéis.
É preciso ter em mente que, os rituais da comunhão evoluíram ao longo da história e que, esta não é a primeira vez, que a Igreja enfrenta debates em tempos de epidemia.
Viver uma pandemia dessa proporção, pode ajudar-nos a compreender porque é que em algum período da história, a comunhão não era tão frequente como costumávamos experimentar nas últimas décadas. Ajuda-nos a compreender por que, por alguns motivos práticos, a participação do cálice comum foi proibida para os leigos no Ocidente. Por que, no Ocidente, nos últimos séculos, o pão fermentado foi substituído por pão sem fermento, e por que no Ocidente, recebe-se o pão na mão. Enquanto do Oriente, o cálice comum foi substituído pelo leigo recebendo um pedaço de pão embebido no cálice, através de uma colher.
Portanto, não se deve surpreender nem ser escandalizar pelas discussões e pelas prescrições higiênicas acerca dos rituais da comunhão, uma vez que o centro da questão não é a santidade do Corpo e do Sangue de Cristo, ′′o remédio da imortalidade “, mas sim, os instrumentos que são usados, ou seja, os meios práticos da sua distribuição que podem ser afetados pelo vírus.
São Nicodemos da Santa Montanha, que viveu no monte Athos no século VIII, conforta aqueles que estão chocados, uma vez que ele próprio deu a instrução aos seus padres para que, no momento da distribuição da comunhão, fosse esterilizada a colher da comunhão com vinagre após cada fiel ter feito uso dela.
Outro exemplo nos traz, o Comentário ao cânon 28 do Concílio em Trullo, na sua edição do Pedalion, publicado em 1800: “em casos excepcionais e no contexto de sua época, podem ser encontradas medidas higiênicas adequadas (para a comunhão). Atualmente, nos confrontamos com o Corona vírus.
Como Sua Santidade, o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, sublinhou na sua mensagem sobre Covid-19 em março passado, ′′o que está em jogo não é a nossa fé, é o fiel. Não é o Cristo, são os cristãos. Não é o homem divino, mas os seres humanos”. Podemos acrescentar: não é a Eucaristia, mas sim a forma como a recebemos, pelo bem-estar tanto da nossa alma como do corpo. A colher da comunhão nunca foi uma questão de fé, mas apenas um instrumento usado para a distribuição da Eucaristia.
Que os desafios que enfrentamos, atualmente, na nossa participação na santa comunhão, ocasionados pelas restrições e por conta do ′′distanciamento social′′ sejam a oportunidade de considerar e refletir sobre a importância da Eucaristia para a nossa vida espiritual, bem como para a comunhão da Igreja na Constituição do único Corpo de Cristo, sendo partícipes do mesmo pão e do cálice comum.





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