Pressione "Enter" para pular para o conteúdo

Ioannis Zizioulas, Metropolita de Pérgamo: «A Igreja sem a Eucaristia não é mais a Igreja»

Uma conversa (por telefone) com o Metropolita de Pérgamo, Ioannis Zizioulas, em 23 de março de 2020.

Entrevistador: Desejamos ouvir suas opiniões sobre a situação atual, uma vez que sua teologia desempenha uma grande função nas circunstâncias atuais.

Metropolita Ioannis de Pérgamo: Minha teologia, infelizmente, não pode ser aplicada. Na Grécia, eles já fecharam as igrejas e a Divina Liturgia não está sendo celebrada. Celebra-se na Sérvia?

Entrevistador: Levando em consideração a decisão do governo de limitar o número de pessoas em um só lugar, bem como a questão de locomoção e distanciamento social, a mais nova decisão do Patriarca Irinej é que os cultos sejam realizados nas igrejas, porém, não podendo exceder cinco pessoas.

Metropolita: Isso é aceitável.

Entrevistador: Na América, foi decidido que o sacerdote, o cantor e os assistentes do altar estivessem presentes, para que a Liturgia fosse celebrada, para que eles pudessem ter os mistérios sagrados para comungar o povo. O que V. E. acha disso?

Metropolita: Para mim, a Igreja sem a santa Eucaristia não é mais a Igreja. Por outro lado, o perigo de transmitir esse vírus a outras pessoas nos impõe a necessidade de fazer o que for necessário, mesmo que isso signifique fechar os templos. O governo grego tomou medidas drásticas devido ao assunto muito sério em jogo.

Entrevistador: Muitos se perguntam: o que diz o Metropolita Zizioulas a respeito? Como todos sabem, V. E. disse uma vez que na Ortodoxia não existe liturgia “privada”.

Metropolita: A liturgia, nas condições atuais, será realizada para a vida do mundo. Um sacerdote celebrará para permitir que o povo tenha comunhão. Não esqueçamos, a Liturgia é celebrada “para aqueles que estão ausentes por um bom motivo”. Aqueles que não podem vir agora são todos. Eu acho que é uma decisão aceitável que um padre celebre a liturgia na igreja com duas ou três pessoas. Como ele proibirá que outros participem, eu não sei. Acho que a melhor decisão, em vez de fechar completamente os templos, é fazer com que o sacerdote celebre com até cinco pessoas. Portanto, a Liturgia deve ser celebrada nas igrejas, mas a possibilidade de espalhar o vírus deve ser reduzida a zero.

Entrevistador: A Igreja da Grécia transmitirá a Santa Liturgia pela Internet. Alguns na América farão o mesmo. Qual é sua opinião?

Metropolita: Não concordo que a Divina Liturgia seja transmitida pela televisão. Estou confinado em minha casa e não poderei participar da Liturgia. No entanto, não ligarei a televisão para assistir à Liturgia. Considero isso uma expressão de falta de piedade. Não é piedoso alguém sentar-se e assistir à Liturgia.

Entrevistador: Ouvimos dizer que os fiéis na Grécia acompanharão a Liturgia pela televisão. Onde a Liturgia será celebrada?

Metropolita: Eu acho que será transmitida da Catedral da Arquidiocese de Atenas. Pessoalmente, como eu disse, não gosto que a Liturgia seja transmitida em um canal de TV. Na Grécia, há pelo menos essa liturgia que será celebrada na Catedral. Na minha opinião, poderia ter sido celebrada em mais igrejas, mas existe o medo de espalhar a doença.

Entrevistador: Na liturgia, a pessoa está presente ou não está presente, já lemos isso em seus escritos. O que os cristãos podem fazer no domingo de manhã quando são impedidos de participar da Liturgia em uma igreja e precisam ficar em casa? O que V. E. sugere aos cristãos nessas circunstâncias atuais?

Metropolita: Que a pessoa fique em casa e ore. A igreja pode preparar alguns textos litúrgicos para incentivar os fiéis a ler, por exemplo, o ofício da manhã em suas casas, mas não a ler o texto da Divina Liturgia. A Divina Liturgia requer a nossa presença. Não se pode participar dela à distância. Portanto, que os fiéis orem de suas casas.

Entrevistador: Quando V. E. diz “oração”, o que quer dizer especificamente? Para recitar estas orações que conhecem ou para que os bispos e padres os recomendem alguma coisa?

Metropolita: As dioceses podem recomendar uma regra de oração; na minha opinião, o Orthros (Matinas de Domingo) é suficiente. A Igreja deve distribuir o texto para o Orthros, por exemplo, para que os fiéis os recitem em suas casas durante o tempo em que a Divina Liturgia está sendo celebrada. Uma transmissão na televisão da liturgia não é a coisa certa a fazer. Por outro lado, uma boa solução é que a Divina Liturgia seja celebrada por um sacerdote e duas ou três pessoas e, se possível, distribuir a Santa Comunhão aos fiéis. Até onde eu sei, isso é difícil agora, já que não temos diáconos que possam levar a Comunhão. Na igreja antiga, a Comunhão era levada àqueles que não podiam comparecer. Assim, se isso não existir, que a Divina Liturgia tenha ao menos cinco pessoas.

Entrevistador: O que V. E. recomenda aos fiéis a respeito das orações individuais (particulares) de cada cristão?

Metropolita: Os fiéis devem continuar a orar, elevando suas súplicas pessoais ao Senhor.

Entrevistador: Como V. E. chamaria esse estado e essa situação, já que agora é fora do comum? V. E. disse que a Igreja sem a Eucaristia não é a Igreja e que a Eucaristia deve ser preservada. Este tipo ou forma da Eucaristia, como V. E. chamaria, para que não se transformasse em ritual “privado”?

Metropolita: Se há cinco pessoas na Divina Liturgia, não é mais uma Liturgia privada. É importante que aqueles que compareçam não estejam em perigo e não possam colocar em risco outras pessoas.

Entrevistador: Quanto ao perigo, no entanto, ninguém pode dizer que não há perigo em matéria de transmissão.

Metropolita: Como os médicos nos dizem, o perigo é minimizado se a distância for mantida e as medidas de de higiene forem cumpridas.

Entrevistador: Portanto, exclui-se que a Eucaristia pode ser reduzida a um assunto privado. Se a Divina Liturgia é realizada na presença de vários fiéis, esse perigo é evitado?

Metropolita: É melhor do que ter os templos totalmente fechados.

Entrevistador: Alguns acreditam que, neste caso de participação limitada dos fiéis, a Igreja não existe mais como comunidade e assembléia eucarística e, portanto, dizem que a Eucaristia não deve ser realizada. E eles acrescentam: se isso não for feito (o que está além da nossa vontade e desejo), Deus não nos deixará. Então, perguntam: se não temos uma comunidade da igreja reunida, por que devemos celebrar uma Liturgia tão “limitada”?

Metropolita: Uma comunidade (κοινωνία e κοινότητα) nunca é completa em termos da participação de toda a comunidade. Sempre há uma minoria presente; no entanto, ainda representa e age em nome de todos aqueles que estão ausentes. E, é claro, oramos por todos aqueles que estão “ausentes por uma causa razoável”, ou seja, que foram impedidos de participar. Esta não é uma novidade em nossa Igreja. Sempre houve quem estivesse ausente na Liturgia. Aqueles que participam dela oram por aqueles que estão ausentes. Como sabemos, alguns podem estar ausentes porque estão doentes ou porque estão viajando. No entanto, também se pode estar ausente porque a situação não permite que ele atenda devido a emergência. Não há nenhum problema substancial aqui, porque há uma comunidade ou congregação desses poucos. É melhor ter uma comunidade de poucos do que uma situação em que não haja ninguém na assembléia eucarística.

Entrevistador: Alguns acreditam que aqueles que participam dessa Liturgia de três ou quatro membros são “privilegiados” e, portanto, mais favorecidos que outros?

Metropolita: O que significa “privilegiado”? Quem está presente gostaria muito que outros estivessem presentes, mas sabe que não podem. Eles não olham para si com exaltação ou satisfação por não haver outros. Eles sabem que representam aqueles que estão ausentes.

Entrevistador: O dilema de alguns é se privar da Santa Eucaristia e, assim, ajudar os outros (impedir a propagação da infecção) ou participar da Eucaristia na esperança de que isso não prejudique os outros. É suficiente cumprir todas as medidas para impedir a transmissão da infecção?

Metropolita: Devemos impedir a propagação da infecção, pois há um enorme risco de transmissão do vírus. Não apenas para aqueles que estão em nossa vizinhança imediata, mas também para aqueles que estão mais distantes. Isso está espalhado por toda a sociedade e por que devemos ser a causa dessa disseminação do vírus?

Entrevistador: A imagem da liturgia que temos agora, onde está confinada a alguns crentes ao redor do sacerdote, viola o sentido icônico da Liturgia? Essa reunião limitada continua a iconizar o Reino de Deus, qual é o significado da Liturgia?

Metropolita: A pequena comunidade não diminui a imagem (iconização) do futuro Reino. Muitas vezes, em muitos países da Europa, fui a paróquias cujos templos eram usados por pouquíssimos crentes ortodoxos. No entanto, toda a Santa Eucaristia é celebrada para todo o universo. Uma paróquia representa não apenas a comunidade local, mas também toda a Igreja Católica (Ortodoxa). Portanto, o menor templo representa o universo e resume o mundo inteiro.

Entrevistador: Muitos temem um certo elitismo nesse estado: apenas alguns privilegiados na Liturgia. V. E. vê algum perigo nisso?

Metropolita: Não, não vejo perigo.

Entrevistador: Em que sentido?

Metropolita: Basta que o bispo ou padre local permita uma presença alternada para que nem sempre os mesmos paroquianos venham. Nesta semana são três ou quatro, na próxima semana haverá outros três ou quatro fiéis. A participação de outras pessoas será gradualmente possível até que essa situação termine.

Entrevistador: Muitas pessoas falam que: não se trata de saber se a Igreja existe sem a Eucaristia, mas se os fiéis podem se abster de participar da Eucaristia por um mês ou dois. Há uma opinião de que não devemos realizar agora porque é uma situação assim. As liturgias foram abolidas em algumas dioceses, onde as autoridades estatais ordenaram a proibição de se reunir na Liturgia. Os bispos tiveram que impedir completamente a participação dos fiéis, como na Grécia. V. E. está satisfeito com a decisão na Grécia de que a Liturgia não possa ser oferecida até o final da pandemia?

Metropolita: Eu não acho isso bom. Acredito que eles poderiam encontrar outra solução em que a liturgia pudesse ser celebrada com a pequena participação de leigos. Eles escolheram uma solução, mas não acho que seja a melhor. A decisão de não comparecer à Liturgia poderia ter sido evitada.

Entrevistador: Se isso acontecer em todo o mundo, o que V. E. acha: que a Igreja deixaria de existir?

Metropolita: É apenas uma hipótese. Eu não acho que isso possa acontecer. Sempre haverá pessoas nas celebrações da Liturgia, por exemplo, nos monastérios.

Entrevistador: Alguns dizem que apenas “mantém as chamas acesas” (chama eucarística), o que é uma imagem agradável e poética. Essa é a resposta teológica e substantiva?

Metropolita: Essa não é a resposta. Sempre que algo não é de nossa escolha, mas uma necessidade que vem de fora, fazemos o que é chamado de oikonomia. Muitas coisas não estão certas na prática, mas como o certo não pode ser possível, aceitamos isso apenas como oikonomia. E aqui temos exatamente isso hoje: aplicamos a oikonomia para lidar com um problema sério. Eu vejo isso como uma medida de oikonomia.

Entrevistador: V. E. disse e escreveu que na eclesiologia não é apenas a comunhão dos dons sagrados que é crucial, mas também a participação na comunidade dos santos. Alguns esquecem que não fazemos apenas uma “coisa” do Santo Altar que é tomada e absorvida no organismo, mas que com a comunhão participamos da comunidade de todos os santos. O que V. E. pode dizer sobre esse tópico durante essa época do coronavírus?

Metropolita: Essa comunidade de santos certamente existe, mesmo quando há um pequeno número de clero e leigos. É a comunidade dos santos, e não apenas uma comunidade em um santuário.

Entrevistador: V. E. tem algum comentário sobre a maneira de receber a comunhão? Suponho que tenha ouvido os argumentos atuais sobre este tópico. Enquanto alguns insistem em dar a comunhão com a mesma colher, outros buscam outros caminhos, a fim de responder aos desafios da epidemia e mostrar sua responsabilidade social. Uma das igrejas locais ordenou a desinfecção obrigatória da colher, enquanto outra começou a usar colheres descartáveis. O que diz a respeito? Que oikonomia ou dispensação deve ser aplicada aqui?

Metropolita: Na Liturgia de São Tiago, o Irmão do Senhor, os fiéis tomam a comunhão separadamente, o Corpo separado do Sangue do Senhor. Como sabemos, de acordo com a ordem desta Liturgia antiga, estes não são ambos colocados no cálice. Existem, portanto, várias maneiras. Não concordo em ter colheres descartáveis para cada pessoa. Eu não acho isso bom. Em vez disso, é melhor que os fiéis recebam o Corpo de Cristo que teria sido previamente mergulhado no Sangue de Cristo. Dessa maneira, a propagação do vírus será evitada. Esta é uma resposta ad hoc (para este fim específico), de caráter provisório. Mas acho que podemos encontrar maneiras. Embora a Igreja não tenha pensado muito em outras maneiras, acho que deveria fazê-lo.

Entrevistador: Comunhão com uma colher remonta ao século XI ou XII?

Metropolita: Sim. Essa é uma prática consideravelmente posterior e acho que, pelo menos temporariamente, devemos voltar às soluções antigas. Acredito que vamos descobri-las. Mas quem pensa nelas hoje?

Entrevistador: Alguns sugeriram a seguinte solução: os sacerdotes devem preparar as partículas do Corpo de Cristo a partir do Cordeiro e depois embeber as partículas com o Sangue de Cristo. Então as pessoas se aproximam e tomam essa comunhão. O que acha a respeito?

Metropolita: Eu acho que essa é uma solução muito boa, pois já existe medo entre um grupo de fiéis. Pessoalmente, eu gostaria e desejo que os fiéis não tenham medo (da santa Comunhão). Considero que o Corpo e o Sangue de Cristo são verdadeiramente o recebimento da imortalidade da medicina e não acho perigoso. Pessoalmente, não me incomodaria comungar de um cálice durante uma epidemia ou até mesmo usar uma colher comum. No entanto, como existem aqueles que, como diz o apóstolo Paulo, são fracos na fé, devemos evitar escandalizá-los. A Igreja deve encontrar uma solução para eles também, para atender às suas necessidades, a fim de evitar acusações de que nós cristãos transmitimos infecções ou doenças.

Entrevistador: Observamos que V. E. considera importante as vozes que vem de fora da Igreja. Acha que a Igreja deve tomar cuidado com a sua imagem ou impressão que no mundo se tem dela?

Metropolita: Com a prática predominante de se receber a Comunhão, acho que, no caso de a doença se espalhar, muitos acusarão os cristãos de serem culpados e muitos dirão que a Igreja espalhou a infecção.

Entrevistador: Existe uma responsabilidade da Igreja para com a sociedade e a Criação?

Metropolita: Certamente existe.

Entrevistador: Eminência, nós lhe somos devedores de muita gratidão por esta conversa. É maravilhoso que nossos leitores tenham a oportunidade de ver suas respostas para essas questões atuais.

Metropolita: Espero que quem vier a ler isso faça-o corretamente e não me interprete mal. Oro para que o Senhor nos ajude a lidar com esta situação da maneira certa.

Fonte: Public Orthodoxy
Traduzido do sérvio pelo Pe. Bratislav Krsic e Pe. Milovan Katanic,
e para o português, por Humberto Cardoso

Um Comentário

  1. Diamantino P. de Carvalho Diamantino P. de Carvalho 30 de março de 2020

    Muito oportunas e sábias as orientações do Metropolita de Pérgamo, Joannis Zizioulas.
    Deus o cubra de bênçãos. E a todos nós, que sofremos com esse isolamento social, devido
    à pandemia do covid-19.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *