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«O povo da RDC anseia pela paz», foi dito a uma equipe de «Cartas Vivas»

cmiKINSHASA, República Democrática do Congo, 24 de julho de 2009 [Ortodoxia.org | CMI | Fredrick Nzwili] – Desde a menor aldeia até a maior cidade na zona oriental da República Democrática do Congo (RDC), as pessoas manifestam seu anseio de paz. Líderes eclesiais incentivam o desarmamento dos rebeldes. Há vários anos, as pessoas vivem aqui aprisionadas em meio a um complexo conflito que, na opinião da maioria, gira em torno da extração dos recursos minerais.

Segundo os líderes de igrejas congoleses, já foram assassinadas quase cinco milhões de pessoas. «Nós necessitamos de paz. O nosso país tem sido muito castigado. Precisamos do vosso apoio», disse o Rev. Muhasanya Lubunga, moderador da Igreja de Cristo, no Congo, Kivu do Sul, a uma delegação de «Cartas Vivas» do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). A delegação viajou para a cidade de Bukavu, na província de Kivu do Sul, e a Goma, em Kivu do Norte, de 9 a 11. Julho. Em sua reunião com dirigentes eclesiais, funcionários governamentais e membros das comunidades, a delegação foi informada sobre a forma como as igrejas tinham promovido a paz e a reconciliação, e haviam mobilizado os socorros, contra o terror provocado pelos rebeldes.  «Sabemos que, se os diferentes grupos não podem viver em paz entre si, continuará havendo guerra», disse o Rev. Kakule Molo, presidente da Comunidade Batista da África Central, numa reunião em Goma. A força brutal dirigida contra os civis na região é uma das principais preocupações dos líderes das igrejas. Os relatórios falam de assassinato, violações em massa, seqüestros e aldeias arrasadas pelo fogo. Ao mesmo tempo, a igreja está tomando medidas para ajudar os rebeldes a depor suas armas. Recentemente, várias centenas deles concordaram com o desarmamento.

Dificuldades para a população civil

No dia em que a equipe «Cartas Vivas» visitou Bukavu, Rozette Ndakumbusoga, agricultora da região de Mwenga, não sabia se iria conseguir alimentar seus dois filhos.  Há dois meses que tinha fugido para Bukavu quando eclodiram as lutas em Mwenga. «Nós não tivemos tempo de trazer nada; fugimos, tão logo ouvimos os disparos; éramos muitos», disse Ndakumbusoga. «Nós chegamos aqui sem nada; a única coisa que queremos é que cessem as lutas para que possamos então voltar para os nossos lugares, para as nossas casas e nossos trabalhos», disse ela. «Queremos também que os nossos filhos possam retornar para as suas escolas».

Na mesma situação que Ndakumbusoga, Mukobelwa Ndabegelwa, professora, está entre as 600.000 pessoas da região e 400.000 mais de muitas outras partes do leste da RDC, que fugiram para a cidade de Bukavu em busca de segurança. Alguns anos atrás, a cidade tinha uma população de 200.000, mas, agora, de acordo com o pessoal das igrejas, são quase 1,2 milhões. «Rezo para que a guerra termine e possamos voltar para as nossas famílias e nossos trabalhos; mas, não podemos fazê-lo agora por medo dos combates», disse Ndabegelwa. Vivem amontoados numa estrutura improvisada, ao sul da cidade; é uma miséria, disse o professor, situação pela qual culpa os ataques das chamadas Forças Democráticas para a Libertação do Ruanda (FDLR). «Muitos de nós estamos doentes, os nossos filhos estão doentes. Precisamos de medicamentos, roupas e alojamento», disse Ndabegelwa. «Dormimos sobre esteiras. Somos muitos. Trata-se de uma situação muito difícil para nós». Seis anos atrás, o governo assinou um acordo de paz com grupos rebeldes, mas outros não assinaram. Isso resultou numa paz relativa. No entanto, líderes das igrejas dizem que, sempre que o Exército realiza operações militares contra os rebeldes, estes reforçam ainda mais os seus ataques. «As pessoas fogem para a cidade de Bukavu buscando a paz», disse o bispo Jean-Luc Kuye Ndondo, presidente da Igreja de Cristo no Congo de Kivu do Sul. «O número de pessoas que produzem alimentos está reduzido e, por isso, não há o suficiente para comer. Quando as operações são realizadas, há ainda mais sofrimento».

Persuadir os rebeldes a deixar suas armas

Segundo uma opinião amplamente generalizada entre os líderes locais, as FDLR, que traçam sua origem no genocídio de Ruanda de 1994, são a principal causa da miséria no leste oriental da RDC. Também estão de acordo que, num diálogo pacífico com as FDLR, se estes aceitarem depor as armas, seria um passo decisivo rumo à paz na região. Com esta convicção, os líderes das Igrejas têm se dirigido aos guerrilheiros das FDLR e a outras milícias locais mais conhecidas, como a «Mai Mai», exortando-as ao desarmamento. Seus esforços já resultaram em progressos significativos, de acordo com o bispo Bulambo Lembelembe Josué, vice Presidente da Igreja de Cristo de Kivu do Sul. «Preparamos sete jovens para esta finalidade. Estes ativistas vão às igrejas e conversam com as pessoas», disse Bulambo. «Reúnem-se com os rebeldes, e lhes falam sobre os sofrimentos que seus combates causam às pessoas. “Exortam-lhes a deixar a selva e ir viver em paz com as pessoas». Isto tem conseguido convencer alguns combatentes à sair da selva, como Bulambo. Há alguns meses atrás, disse, 293 combatentes rebeldes deixaram as armas, na presença da comunidade internacional, dos líderes das igrejas e da sociedade civil. «O único problema é que quando um grupo avançado [enviado para Ruanda pelos rebeldes para ver se podiam retornar para lá], o exército nacional e o exército de Ruanda começaram a persegui-los», disse Bulambo. «Isto nos desanimou muito», Nas últimas semanas, os líderes eclesiais apontam para a revitalização dos ataques dos rebeldes à população civil. Isto se deve a divulgação de notícia de que os exércitos nacionais da RDC e Ruanda irão realizar, em breve, uma campanha militar contra as FDLR.

Em Maio de 2009, dirigentes eclesiais entraram em acordo com as FDLR que desarmariam, pelo menos, 1.000 combatentes, disse Ndondo. «Os combatentes estavam de acordo. Quando falamos com os seus chefes, eles disseram que não», disse Kuye. «Nós pedimos a vocês para que falem com os líderes que vivem no estrangeiro». Diz-se que os líderes da FDLR vivem na Alemanha e em França. «Esta é a parte mais grave do problema. Nós estamos seguros de que, não havendo estes fatores externos, o povo do Congo pode por-se de acordo entre si», disse Molo. «Por ora não se pode afirmar que seja o único problema, porque existem problemas no interior das comunidades. Mas estes podem se resolver se não surgem os problemas do exterior».

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