
Em uma conferência perto de Istambul, realizada em junho, a especialista em chimpanzés Jane Goodall falou sobre a perda de habitat dos animais aos quais se referiu como “nossos parentes mais próximos”. Destacando nossa relação evolucionária, a cientista falou sobre um encontro com um velho chimpanzé macho que tinha uma “bela barba branca”.
Com um sorriso, virou-se a um homem de 72 anos na primeira filha e acrescentou: “muito parecida com a sua”.
O homem de barba longa era o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I de Constantinopla, líder espiritual dos cristãos ortodoxos. Felizmente, ele é conhecido por suas maneiras tranquilas e afáveis e uniu-se à gargalhada que se seguiu.
Contudo, seu comprometimento com o ativismo ambiental é extremamente sério, garantindo-lhe o apelido de Patriarca Verde. Bartolomeu I prega que cuidar do meio ambiente é um imperativo religioso e, há mais de uma década, tenta unir teólogos e cientistas como Goodall para debates e reuniões.
Os relatos do recorde de derretimento da calota polar e das secas extremas deste ano chamaram atenção para as mensagens de Bartolomeu sobre a degradação do mundo natural. Enquanto economistas e políticos desejam ver um aumento no crescimento econômico e no consumo para superar a crise, o patriarca insiste que a verdadeira crise é cultural e espiritual, e que isso pode ser evitado por meio do fim do materialismo exacerbado.
Segundo ele, todos os seres humanos deveriam distinguir “entre o que queremos e o de que precisamos”.
Em setembro, o patriarca ortodoxo publicou uma encíclica severa convocando todos os cristãos ortodoxos a se arrependerem “do nosso pecado” de não fazer o bastante para proteger o planeta. A biodiversidade “é obra da sabedoria divina” e não foi entregue aos seres humanos para que fosse abusada, escreveu; o domínio humano sobre o planeta Terra não nos dá o direito de usurpar e destruir seus recursos. Além disso, Bartolomeu I se dirigiu aos “poderosos do mundo”, afirmando que precisam de uma nova mentalidade para dar fim à destruição do planeta em favor do lucro e dos benefícios de curto prazo.
Outros líderes religiosos, incluindo o Papa Bento 16, o Dalai Lama e o Arcebispo de Cantuária, também pediram mais responsabilidade no cuidado com o meio ambiente. Mas Bartolomeu foi mais longe e alguns teólogos acreditam que sua postura seja revolucionária.
“Tradicionalmente, no cristianismo, pecado é aquilo que fazemos para outros seres humanos”, afirmou Kallistos Ware, importante teólogo ortodoxo da Inglaterra, “mas Bartolomeu insiste que, mais do que estupidez, o que fazemos a outros animais, ao ar, à água e à terra também pode ser pecado, e essa é uma grande mudança”.
Assessores afirmam que assumir as causas ambientais faz parte dos objetivos de Bartolomeu I, que pretende modernizar uma Igreja profundamente conservadora, distante e isolada, concentrada em antigos rituais e misticismos bizantinos. Falar da natureza como uma criação divina está de acordo com os ensinamentos da Igreja e, segundo assessores, é tão importante que transcende as rivalidades e os nacionalismos da Igreja Ortodoxa. Uma vez que é uma federação de Igrejas nacionais independentes, a Igreja Ortodoxa não possui a autoridade central, como o Vaticano, por exemplo.
Ainda assim, o cargo de Bartolomeu, estabelecido há 1.700 anos, é o mais importante para os mais de 300 milhões de cristãos ortodoxos espalhados pelo planeta. O “primeiro entre os iguais” da igreja, o patriarca age como uma espécie de organizador e determina o agenda de discussões.
Contudo, nem todos os prelados da Igreja se inspiram por sua tentativa de educar os homens de fé em relação ao meio ambiente.
“O Patriarca nada contra a corrente de boa parte do mundo ortodoxo”, afirmou o reverendo John Chryssavgis, arquidiácono da igreja e conselheiro de assuntos ambientais. “Ele precisa pregar e promover isso constantemente.”
A bordo da balsa em direção a Istambul, Chryssavgis apontou um grande prédio pertencente à Igreja no topo da ilha de Buyukada. Um antigo orfanato, o prédio havia sido tomado pelo governo e recentemente foi devolvido à Igreja. Atualmente vazio e em mau estado de conservação, o local irá se transformar em um centro de estudo interreligioso sobre o meio ambiente, caso a ideia de Bartolomeu I seja aprovada.
“Ele quer uma instituição permanente”, afirmou Chryssavgis. “Pois, quando morrer, talvez não exista mais a mesma preocupação com o meio ambiente.”
É difícil ignorar o impacto dos sermões e das conferências do Patriarca. Segundo o editor americano Frederick Krueger, o novo livro “Greening the Orthodox Parish” despertou muito interesse. Com o subtítulo “A Handbook for Christian Ecological Practice” (“manual de práticas ecológicas cristãs”) e com um prefácio escrito por Bartolomeu I, o livro fala sobre teologia, liturgias especiais e orações, além de estudos científicos e conselhos práticos.
Diversos monastérios ortodoxos e igrejas na Europa Oriental e nos Estados Unidos passaram a utilizar a energia solar nos últimos anos.
Entre eles está o monastério de Chrysopegi, na ilha grega de Creta, onde as freiras utilizam os textos ambientais do Patriarca e de outros teólogos em seus ensinamentos.
“Um número cada vez maior de jovens está frequentando nossos cursos”, afirmou a madre Theocheni, abadessa do mosteiro, na conferência realizada em Halki, perto de Istambul. “Eles vêm em busca de significado e muitos são inspirados pela ecologia. Essa tendência cresceu rapidamente nos últimos 10 anos.”










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