O Arquimandrita do Trono Ecumênico, Mons. Gerasimos Fragoulakis, com 48 anos de ministério sacerdotal e 67 anos de idade, compartilha uma profunda reflexão sobre a vida do sacerdote ortodoxo na diáspora. Em seu testemunho, retrata com sensibilidade as alegrias, os desafios e a missão pastoral que marcam o cotidiano daqueles que servem à Igreja de tradição ortodoxa, evidenciando os desafios, a dedicação e a fidelidade que caracterizam essa vocação.
Vivemos em um tempo de intensos questionamentos e profundas transformações, no qual muitas certezas são postas à prova. Nesse contexto, infelizmente, o clero ortodoxo também tem sido, com frequência, alvo de críticas, incompreensões e julgamentos, tornando ainda mais desafiador o exercício fiel do ministério sacerdotal.
Palavras fáceis, julgamentos precipitados, generalizações que ferem. E a imagem do sacerdote fica turva, não pela verdade, mas pela pressa dos tempos. São João Crisóstomo nos lembra: “O sacerdote administra na terra as coisas do céu”. Mas como isso é facilmente esquecido!
O sacerdote certamente não é um anjo; é um ser humano com suas falhas, com suas dificuldades; e haverá momentos em que sua alma se sente sobrecarregada. São Porfírio costumava dizer àqueles que o visitavam e expressavam queixas sobre alguns sacerdotes: “O sacerdote é um ser humano. Não o queiram santo desde o primeiro dia”. E São Paísios enfatizava regularmente: “Não olhem para as falhas do sacerdote, mas para a sua luta”. Sem dúvida, há casos que não honram a batina. Contudo, é injusto lançar uma sombra pesada sobre milhares de clérigos que lutam em silêncio, com esforço, com oração, com lágrimas. Como Dostoiévski tinha razão quando disse: “Amar uma pessoa significa vê-la como Deus a concebeu”. Gostaria que assim fosse, e que nos esforçássemos para ver os sacerdotes dessa maneira.
O mundo vê o padre por um instante na Divina Liturgia, em um Ofício, em uma cerimônia. Mas não vê as horas que não mostradas. Não vê o padre cruzando a soleira de uma casa às duas da manhã, para ficar ao lado de uma pessoa que está sofrendo. Não ouve as confissões feitas com dor na alma e com lágrimas que correm silenciosamente. Não conhece sua angústia pelas famílias que estão sendo provadas, pelos jovens que lutam contra a escuridão, pelas pessoas que não têm mais ninguém para ouvi-las.
Muitas das ações do clérigo permanecerão desconhecidas. Pois a verdadeira oferta não chama aplausos! Quantas vezes ele levanta pesos que não são seus, apenas para aliviar a dor de alguém?
O Metropolita Antônio de Sourozh costumava dizer: “O verdadeiro amor é suportar a dor do outro como se fosse sua”, e é isso que o sacerdote faz. Nada disso é novidade, porque isso é a essência do sacerdócio.
Muitos dizem que o sacerdote é pago para fazer o seu trabalho. Mas o sacerdócio não é um trabalho. É uma cruz, é uma responsabilidade, é uma vocação que não se remunera com dinheiro. São João Crisóstomo disse: “O sacerdote, seja ele santo ou pecador, traz a graça de Deus.”
Que recompensa ou salário pode compensar a responsabilidade espiritual por centenas de almas? Que quantia pode expressar a angústia de um padre por um jovem que luta contra o desespero?
A crítica é certamente necessária e benéfica. O sacerdote deve prestar contas, corrigir-se e progredir. Mas uma coisa é criticar, outra é generalizar e nivelar por baixo. A crítica constrói. O nivelamento destrói, e quando a confiança no clero é destruída, toda a sociedade sofre.
São Serafim de Sarov disse: “Alcance a paz interior e milhares ao seu redor serão salvos”. Que possamos buscar a paz em nossos corações ao falarmos do clero. Antes de adotarmos palavras fáceis que desacreditam o clero, perguntemo-nos: Sabemos realmente o que o sacerdote faz? Sabemos quantas histórias de amor permanecem ocultas? Sabemos quantos sacrifícios jamais serão ouvidos?
A maioria dos membros do clero continua a trabalhar discretamente, apoiando, confortando e carregando fardos invisíveis. Eles não buscam elogios, não buscam idealização, buscam justiça, cumprir a missão.
E se o sacerdócio é uma cruz em toda parte, o da diáspora, muitas vezes torna-se uma cruz dupla. O ministério do sacerdote da diáspora, tem uma particularidade difícil de descrever. É uma jornada de condições exigentes, muitas vezes solitária, mas sempre abençoada. O clérigo da diáspora é chamado a ser não apenas um ministro, mas também um portador da memória, da tradição, da língua e da consolação. Sua missão é manter viva a chama da fé cristã ortodoxa numa sociedade que se move a ritmos diferentes e com prioridades diferentes.
Nessa jornada, o sacerdote não está sozinho. Ele tem um porto espiritual, um lar, uma orientação paterna. O trabalho do clérigo ortodoxo é vasto, multidimensional e muitas vezes silencioso: apoia paróquias dispersas por um país de grandes distâncias, fortalece a identidade ortodoxa dos jovens, acolhe famílias que enfrentam as dificuldades de fé, cria pontes entre culturas e oferece conforto espiritual às pessoas, e não querem viver longe da Igreja.
Tudo isso, naturalmente, acontece no seio amoroso do Patriarcado Ecumênico. O Patriarcado, com sua responsabilidade histórica e esplendor espiritual, constitui para todos nós o eixo estável da unidade, da tradição e do testemunho. É a Mãe Igreja que acolhe seus filhos onde quer que estejam. De Constantinopla a todos os lugares da Ecumene apoia a missão da diáspora com amor e oração.
Assim, o sacerdote no exterior não serve apenas a uma paróquia, mas à Igreja Ortodoxa. Ele não apenas ampara as pessoas, mas apoia a própria continuidade da Ortodoxia no mundo moderno, e não caminha sozinho. Ele caminha com a bênção de seu Bispo e a bênção do Trono Ecumênico.
Essas palavras não foram escritas para justificar ou embelezar situações. Foram escritas para nos lembrar. Para nos lembrar que, por trás de cada batina, há uma pessoa que luta, que reza, que carrega fardos invisíveis. Foi escrito para nos convocar a mais justiça, mais compreensão, mais paz no coração quando falamos sobre o clero.


Seja o primeiro a comentar