Artigo de Dom Iosif de Pátara, hierarca do Trono Ecumênico na Arquidiocese Ortodoxa de Buenos Aires e Exarcado da América do Sul, a propósito de alguns equívocos observados em artigos publicados nos últimos dias pela imprensa sul-americana, acerca do encontro, em Cuba, do Patriarca Kirill de Moscou e Todas as Rússias e do Papa Francisco.
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Res Tradita
Considerações gerais sobre a institucionalidade eclesiástica ortodoxa, à luz do encontro de S.B, o Patriarca Kyrill com S.S. o Papa Francisco, em Cuba
Iosif de Pátara
Tem sido noticiado – e seguirá sendo notícia nos próximos dias – o iminente encontro que acontecerá amanhã, 12 de fevereiro, em Havana, Cuba, entre S.S. o Papa Francisco e Sua Beatitude o Patriarca Kirill de Moscou e de Todas as Rússias.
Sobre este evento, existe um artigo na edição digital de hoje de um reconhecido diário da Argentina que afirma em seu primeiro parágrafo: “O patriarca da Igreja Ortodoxa Russa Kirill partiu hoje de Moscou com destino à Cuba, onde se reunirá amanhã com o papa Francisco para um encontro histórico entre os líderes das duas maiores confissões cristãs [1]”. A respeito desta afirmação, e de outras de teor secundário, gostaria de fazer alguns esclarecimentos que, espero, ajudem ao público em geral compreender a estrutura hierárquica da Igreja Ortodoxa, evitando assim erros de interpretação de afirmações como as que temos lido por estes dias. Considere-se, pois, o presente artigo como uma contribuição em vista de maior clareza, certeza, veracidade e precisão na informação.
- Na verdade, o sistema administrativo e hierárquico da Igreja Ortodoxa, assim como o seu regime de funcionamento, é bastante complexo e ainda pouco conhecido, particularmente, no mundo religioso ocidental que, em geral, baseia-se na tradição piramidal católico-romana ou na diversidade e independência denominacional da Reforma Protestante e Pentecostal.
- A Igreja Ortodoxa – Una, Santa, Católica e Apostólica – é constituída administrativamente por 14 jurisdições autocéfalas e autônomas, apresentadas abaixo de acordo com o lugar de honra e hierarquia que dita a Tradição, os Santos Cânones e, consequentemente, sua administração prática [2].
- Patriarcado Ecumênico de Constantinopla;
- Patriarcado de Alexandria;
- Patriarcado de Antioquia;
- Patriarcado de Jerusalém;
- Patriarcado de Moscou;
- Patriarcado da Sérvia;
- Patriarcado da Romênia;
- Patriarcado da Bulgária;
- Patriarcado da Geórgia;
- Igreja Autocéfala de Chipre;
- Igreja Autocéfala da Grécia;
- Igreja Autocéfala de Polônia;
- Igreja Autocéfala da Albânia;
- Igreja Autocéfala das Repúblicas Tcheca e Eslováquia.
- No que diz respeito às questões administrativas destas jurisdições, elas são independentes, porém estão unidas uma às outras pelo vínculo comum da comunhão de fé, doutrina, da vida litúrgica e sacramental. Esta unidade e comunhão tem no Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, como Igreja-Mãe, seu ponto de expressão, referência e representação universal [3].
- A Primazia de Honra do Patriarca de Constantinopla não é uma “astúcia” canônica, tampouco uma caricatura administrativa ou uma realidade fictícia ou mítica e, ainda menos, uma degeneração da primigênia eclesiologia ortodoxa como muitos hoje poderiam asseverar [4]. Este status próprio do Patriarcado Ecumênico é uma instituição fundamentada na milenar tradição da Igreja, no Oriente e no Ocidente – e se traduz em certas prerrogativas canônicas que emanam daquela “primazia no amor e no serviço entre as Igrejas Ortodoxas” que durante séculos exerceu “Centro da Ortodoxia”, a saber:
- Examinar os recursos apresentados ao Patriarca Ecumênico pelo clero sob sua jurisdição ou de todas as outras Igrejas Ortodoxas;
- Envio de correspondência a todas as jurisdições ortodoxas em matérias de carácter inter-ortodoxo, inter-cristão ou de natureza secular que diz respeito à Igreja Ortodoxa como corpo único;
- Convocar o Sínodo Panortodoxo;
- Conferir o status de autocefalia, autonomia, semi-autonomia, assim como o status patriarcal à jurisdições que se encontrem sob sua jurisdição [5];
- Dirimir questões de relevância em relação a uma ou mais Igrejas Ortodoxas nos domínios da fé, da vida moral, da lei eclesiástica, da ordem da Igreja etc., seja diretamente do Fanar – sua Sede Patriarcal – ou enviando seus exarcas patriarcais;
- Eleger e nomear de forma permanente os hierarcas do Trono Ecumênico nas terras fora da Turquia como Exarcas do Patriarcado Ecumênico;
- Consagrar o Santo Myron – Santo Crisma – e distribui-lo‑ a todas as Igrejas-irmãs ortodoxas, como manifestação e prova dos laços espirituais existentes entre todas as Igrejas Ortodoxas.
- Canonizar pessoas cuja vida tenha sido de comprovada santidade, que tenham vivido não apenas nos limites do Patriarcado Ecumênico, mas também fora de seus limites, nesse caso, a partir das correspondentes recomendações apresentadas pelas demais Igrejas;
- Ocupar a primazia nas concelebrações litúrgicas na qual participam outros prelados ortodoxos;
- Pôr sob sua jurisdição direta e estabelecer monastérios patriarcais – stavropegia – no âmbito de suas arquidiocese, diocese e metrópoles e, em certos casos, também no âmbito dos limites de outras Igrejas Ortodoxas, nesse caso, resultando de uma decisão conjunta entre as Igrejas;
- Atuar como um ponto de contato e referência da Ortodoxia no mundo contemporâneo.
- Do ponto de vista canônico, o Cânon 3 do II Concílio Ecumênico [6] realizado em Constantinopla no ano 381, outorga à Sè Constantinopolitana la preeminência de honra depois do Bispo de Roma, enquanto que o Cânon 28 do IV Concílio Ecumênico [7], realizado em Calcedônia no ano 451, concede ao Patriarca Ecumênico o direito pastoral de administração de todos os lugares situados fora da jurisdição territorial dos demais Patriarcados e Igrejas Autocéfalas – Diáspora.
Do que acima foi dito, evidencia-se claramente que o Patriarca de Moscou e de todas as Rússias é o Hierarca que preside e governa a Igreja Ortodoxa Russa junto ao seu Santo Sínodo e à Hierarquia Episcopal. Neste contexto, é o líder religioso máximo para o seu território jurisdicional e geográfico, pelo que, de nenhum modo, pode-se considerá-lo “cabeça da Igreja Ortodoxa”, nem “líder de uma das maiores confissões cristãs”, como alguns da imprensa vem fazendo nos últimos dias. Evidentemente, o conceito de hierarquia é chave aqui. Sua etimologia o evidencia [8] . O critério da ordem na Igreja, ainda que extrinsecamente pareça mundano, em sua essência não o é. Não se baseia, nem na quantidade de fiéis, nem no poder econômico ou político da Instituição. Se assim fosse, não haveria hierarquia, mas anarquia.
Mesmo havendo muitas opiniões e posições a respeito do tema, assim como dúvidas e descrédito por parte de muitos teólogos ou não teólogos, dentro e fora da Igreja Ortodoxa, e se queiram projetar enfoques diferentes à legítima vida da Igreja em sua institucionalidade – e espiritualidade – remeto-me à realidade atual para justificar as posições anteriores: refiro-me ao Santo e Grande Sínodo que a Igreja Ortodoxa irá realizar no próximo mês de junho, em Creta, Grécia, e que foi convocado pelo Patriarca Ecumênico Bartolomeu, tomando o bastão de seus predecessores Demétrio e Atenágoras, e com a participação de todas as Igrejas acima mencionadas, para refletir e debater sobre os variados temas que dizem respeito à vida da Igreja Ortodoxa na contemporaneidade. Tal fato, que terá lugar no próximo mês de junho, mas que vem sendo preparado há décadas, referenda o que foi anteriormente exposto e evidencia que, mesmo quando há divergências de opiniões sobre a forma da institucionalidade da Igreja, sua tradição vernácula baseada na vida e no Espírito se impõe não deixando dúvidas sobre como são as coisas.
É bem verdade que a Tradição, contemplada anacrônica e sincronicamente como a vida mesma da Igreja, é dinâmica e cambiável, sempre receptiva às energias do Espírito Santo de acordo com a receptividade dos membros da Igreja. Entretanto, o respeito à Tradição se manteve intacto até os dias de hoje. Tratemos pois, de ser consequentes com a nossa fé e com a nossa Tradição, posto que a institucionalidade na Igreja Ortodoxa não se concebe sem a vida em Cristo e a participação em suas energias incriadas que nos purificam e nos revelam a Verdade. De outra maneiro, não há Igreja.
Notas:
[1] http://www.clarin.com/mundo/patriarca‑Cuba‑encuentro‑historico‑Papa_0_1520848052.html. O grifado é nosso e indica a informação que pode ser objeto de equívocos em sua interpretação, o que motivou o presente artigo;
[2] Esta ordem hierárquica é respeitada no âmbito do funcionamento do Sínodo Panortodoxo que é convocado, reunido e presidido por Sua Santidade o Patriarca Ecumênico de Constantinopla.
[3] Desta maneira, a Assembleia Panortodoxa, expressão última da unidade da Igreja Ortodoxa, é um Sínodo é formado por todas estas Jurisdições Autocéfalas que integram a Ortodoxia Universal, convocado, reunido e presidido por quem tem a Primazia de Honra entre todos os primazes, isto é, o Patriarca de Constantinopla.
[4] De fato, esta realidade que emerge de uma eclesiologia ortodoxa indubitável, se opõe, na teoria e na prática, a uma simples “plenitudo potestatis ecclesiae”, e tampouco pretende ao Patriarca Ecumênico “episcopus ecclesiae universalis”.
[5] Como o caso da Igreja de Moscou e todas as Rússias, que obteve seu status patriarcal da Igreja-Mãe de Constantinopla no ano de 1589. Pelo que, como é evidente, o Papa de Roma e o Patriarca de Moscou nunca poderiam ter se reunido como tais antes deste ano, e menos ainda, como figura em muitas publicações, antes ou desde 1054 (data que os historiadores atribuem referindo-se à separação das Igrejas do Oriente e a do Ocidente) já que, antes de 1589 não existia o Patriarcado de Moscou como tal, sendo esta Igreja uma porção da jurisdição do Patriarcado de Constantinopla!
[6] «Τόόν µμὲν τῷ Κωνσταντινουπόόλεως ἐπίίσκοπον ἔχειν τὰ πρεσβείία τῆς τιµμῆς µμετάά τὸν τῆς Ρώώµμης ἐπίίσκοπον, διὰ τὸ εἶναι αὐτήήν νέέαν Ρώώµμην».
[7] «Τάά ἵσα πρεσβείία ἀπέένειµμαν [οἱ Πατέέρες] τῷ τῆς Νέέας Ρώώµμης ἁγιωτάάτῳ θρόόνῳ».
[8] Ἱερᾶ ἀρχήή: principio
Traduzido por:
Pe. André Sperandio






Gostaria de parabenizar Dom Iosif por essa maravilhosa explanação sobre o assunto.
Apesar de ser Católico Apostólico Romano, sou um grande admirador da fé Ortodoxa na qual vejo a pureza do Cristianismo na sua forma mais primitiva e original.
Gostaria muito de poder um dia conhecer melhor essa doutrina, principalmente no que se refere a Igreja Antioquiana.
Infelizmente não tenho perto de mim nenhum Igreja Ortodoxa que eu possa profundar meus desejos de conhecimento.
Que Deus esteja com todos nós