Três jornalistas do informativo grego «Cafebabel » entrevistaram S. Santidade Bartolomeu I, Patriarca de Ecumênico de Constantinopla, no Fanar, em Istambul. Confessaram estar ansiosos pois, um pouco mais tarde, estariam diante do líder espiritual de cerca de 350 milhões de ortodoxos. Encontraram o Patriarca Ecumênico em seu gabinete muito receptivo e sorridente . «Após os cumprimentos nos ofereceu alguns doces típicos e café», disse um deles.
O chefe da Igreja Católica Romana, o Papa, visitou recentemente o Reino Unido, mas não podemos esquecer que o Patriarca Ecumênico fez esta mesma vista anteriormente. Por ser o Patriarcado Ecumênico membro fundador do Conselho Mundial das Igrejas cristãs, é possivel afirmar que a unidade das igrejas cristãs é viável ?
Os meus predecessores Atenágoras e Dimitrios, Patriarcas Ecumênicos de Constantinopla, de fato, deram os primeiros passos para o diálogo entre as confissões cristãs. Na verdade, assumiram a liderança daquilo que hoje é chamado de «movimento ecumênico». E houve uma caminhada. Durante a visita do Papa ao Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, assinamos uma declaração conjunta e recitamos juntos a oração do Pai-Nosso num oficio ortodoxo. Além disso, o Patriarca Ecumênico participa como membro da Conferência das Igrejas Européias. Apoiamos o diálogo, embora saibamos que o fosso da divisão é grande, já que estamos separados por séculos. Atualmente, com a Igreja de Roma, estamos discutindo a questão do primado do Bispo de Roma, examinando como era exercido no curso do primeiro milênio quando estávamos em unidade, e porque mudou . A questão do filioque é uma questão delicada. O caminho para a unidade é longo, mas não estamos desanimados. Ao contrário, fazemos todo o possível para preencher as lacunas.
Em agosto, Vossa Santidade celebrou a histórica liturgia no Monastério Panaguia de Soumela, e há poucas semanas, uma outra liturgia foi celebrada na Igreja armênia de Santa Cruz do Lago Van, na Turquia. V. S. acredita que essas ações sejam um reflexo do respeito pela liberdade religiosa no país? O próximo passo poderia ser a reabertura da Escola Teológica de Halki?
Estamos muito satisfeitos com estes acontecimentos, tanto no Monastério Panaguia de Soumela quanto na Igreja dos armênios. Eles mostram uma mudança na atitude do governo da Turquia. A celebração no Monastério mostrou que aquele local (que é oficialmente um museu) pode também servir como um local de culto anual, conforme indicado pela permissão oficial que temos recebido. Isso é algo benéfico para todos. O Estado turco entendeu que não somos uma ameaça, mas que gostamos de trabalhar para o bem do nosso país. Além dos benefícios materiais para o país decorrentes dos peregrinos, essas ações são prova de que o respeito pela liberdade religiosa está voltando à Turquia, e esta é uma questão de princípios e valores em relação aos direitos fundamentais do homem. Quanto a Escola Teológica de Halki, estamos muito otimistas. Achamos que tudo estará resolvido no decorrer de 2011, quando completará 40 anos do fechamento da escola. Estamos prontos para fazê-la funcionar imediatamente e acomodar os alunos da Turquia e do exterior, como no passado. Seremos capazes de formar o nosso clero em todos os níveis necessários para o funcionamento do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, atendendo as dioceses em diversas áreas do mundo, como Estados Unidos, Europa Ocidental e Oriental, Austrália, Coréia, Hong Kong, América Central e do Sul, e assim por diante.
Para Vossa Santidade, como se sente pessoalmente, sentar-se no trono de São João Crisóstomo, Fócio e Genádios, Patriarcas de Constantinopla?
É um peso histórico enorme. Eles foram gigantes na fé e no conhecimento. Claro, não pretendo chegar pessoalmente no mesmo nível. Mas sabe-se que este trono também é cruz. Cada um que se sentou nele pediu auxilio e apoio. Somos a voz de uma instituição dinâmica que tem existido nesta cidade durante dezessete séculos e continuará com a graça de Deus .
A Turquia parece gradualmente perceber que o Patriarcado Ecumênico não é apenas uma diocese local para os gregos de Constantinopla, mas uma instituição universal, e que não prejudica, mas que pode ajudá-la. V. Santidade compartilha desta visão e sente que o Estado turco está mudando em relação a esta questão?
Pode-se resumir a situação até agora em uma palavra: cooperação. Há múltipla cooperação com os interesses nacionais da Turquia e temos exemplos de que estas cooperações são mútuas. Nunca tivemos e não teremos no futuro qualquer interesse político. Temos percebido mudanças por parte do governo, sobretudo em relação às leis em favor das minorias (étnicas e religiosas). Essas leis não resolvem todos os nossos problemas, mas já representa um avanço. Recentemente, um cidadão turco de origem grega foi eleito membro da Comissão Estadual de Administração das Fundações (VAFIK), em Ancara. É um exemplo sem precedentes e estamos muito felizes com este fato. Também recentemente, o Primeiro-Ministro turco visitou nosso orfanato grego (que está fechado e desativado) e anunciou que temos direito àquela propriedade. Foi uma decisão política corajosa do Primeiro-Ministro, muito significativa.A visibilidade do Patriarca Ecumênico no mundo é enorme, o que pode ser benéfico para a Turquia. Nossos esforços em construir a paz e promover o respeito entre as pessoas de todas as religiões é bem conhecida e isso é confirmado pelo fato de que cada político que vem à Turquia continua visitando o Patriarcado Ecumênico. Estamos otimistas, então, e insistimos sobre esses direitos.
O que Vossa Santidade acha das medidas do novo governo turco sobre a reconhecimento das minorias?
[singlepic id=267 w=320 h=240 float=left]Esta é uma questão política sobre as quais não podemos permanecer em silêncio. Não é nenhum segredo que nós estamos realmente satisfeitos com estas medidas do governo turco. Apoiamos estas iniciativas. Esperamos que continue assim no futuro. Além disso, como dissemos anteriormente, acreditamos que tais medidas tornará a Turquia mais democrática. E é precisamente por isso que agora apoiamos a adesão da Turquia à União Européia.
Um grupo de gregos americanos liderado pelo Sr. Chris Spyrou queria organizar uma cerimônia religiosa em Santa Sofia, Istambul; posteriormente tal evento foi cancelado. O que V. S. diz sobre isto?
Não chegou até nós nenhuma informação oficial a este respeito. Não sei como alguém pode organizar uma cerimônia religiosa sem antes nos consultar, sem consultar o arcebispo local da cidade e sem autorização do governo turco. Ninguém pode fazer uma cerimônia cristã ortodoxa em Santa Sofia sem a autorização do Patriarca Ecumênico e do governo turco. Da mesma forma, não estamos autorizados a realizar cerimônias religiosas em outros países sem a permissão da igreja local, das autoridades locais e do governo do país.
Vossa Santidade tem sido chamado de «Patriarca Verde» por causa de sua sensibilidade em relação ao meio ambiente. Acredita que líderes religiosos são capazes de influenciar, se não os governos, pelo menos, a consciência ambiental dos fiéis?
É quase impossível influenciar os governos. Os interesses financeiros crescem a tal ponto que não é possível conciliá-lo com a preservação ambiental, e fomos confrontados com esta realidade em Copenhague. Contudo, nós acreditamos que somos capazes de cultivar nos fiéis uma sensibilidade acerca das questões ambientais. A crise global é primariamente conceitual, e se refere a valores. Precisamos entender que somos responsáveis para com o nosso planeta para as gerações vindouras. Não podemos continuar a desperdiçar recursos, mas temos de permitir que futuras gerações desfrutem dos bens que nos foram dados por Deus. A palavra «ecologia» vem da palavra grega «eco» e «logos», onde «eco» (oikos) significa «a nossa casa». Para se chegar a esta compreensão é preciso primeiro entender que não somos proprietários, mas tão somente administradores do mundo que Deus nos confiou. Portanto, devemos cuidar deste mundo e entregá-lo à próxima geração. O Patriarcado Ecumênico de Constantinopla assumiu um papel de liderança neste esforço para desenvolver a consciência ecológica através de suas conferências internacionais.
É fácil combinar estilo de vida consumista moderna com a mensagem do cristianismo? Muitos argumentam que os dois modelos são incompatíveis.
É essencial mudar a mentalidade atual e abandonar uma vida de consumismo e ganância que inevitavelmente levam à injustiça social e a desigualdade. O apóstolo Paulo ensinou que a ganância leva ao culto dos bens materiais, que é idolatria, o maior pecado. A Igreja ensina que não podemos ser gananciosos e levar uma vida simples e despreendida. O Evangelho diz que «quem tem duas túnicas deveria dar uma a alguém que nada tem». Infelizmente, chegamos ao ponto em que tentamos tirar de nossos irmãos até a própria roupa!
O que pode a fé ortodoxa testemunhar e oferecer aos jovens da Europa? É fácil conciliar ensinamentos ortodoxos com os valores de uma Europa ocidental, de formação protestante ou católica?
[singlepic id=268 w=320 h=240 float=left]Como disse anteriormente, todas as questões estão interligadas umas com as outras – social, econômica e ideologicamente. Os jovens, como tantas pessoas, se sentem inseguros. A Igreja Ortodoxa continua a propor a mesma fé de sempre, que existia na Europa durante os dez séculos de unidade. A Igreja é o verdadeiro Corpo de Cristo. Antes do grande cisma de 1054, quase toda a Europa era ortodoxa . Portanto, a Igreja é chamada a oferecer a mesma simplicidade e autenticidade da fé cristã. Ensinamos uma moral e espiritualidade autênticas. […] E hoje o Ocidente tem sido privado em relação a estes valores, e é justamente isso que explica a nostalgia que se manifesta atualmente. Nos últimos anos, mais e mais livros litúrgicos da Igreja Ortodoxa têm sido traduzidos e publicados no exterior. Além dos livros de teologia, é possível encontrar outros de espiritualidade como a Philokalia, traduzidos em várias linguas, o que demonstra grande interesse também dos não-ortodoxos. A fé ortodoxa incentiva a devoção e a adoração; e a Ortodoxia põe mais ênfase no coração do que no intelecto. Portanto, pode-se dizer que a Ortodoxia condensa em si a Tradição, a experiência e a sabedoria .
Vossa Santidade teme a globalização?
A globalização tem algumas coisas muito positivas, que apoiamos. Oferece o entendimento entre os povos e cria o espaço para as pessoas se ajudarem e viverem em paz. No entanto, como o arcebispo Christodoulos costumava dizer, há também o perigo de a globalização tornar as pessoas todas iguais como «carne moída». Isto certamente não é desejável. Recomendamos que cada nação deva manter um registro de sua cultura, língua etc, que os tornam distintos. Estes elementos contribuem para a individualidade de um povo. No entanto, ao mesmo tempo temos de ser criativos e não nos manter em «potes fechados» e reduzir nossa cultura a uma forma de auto-admiração. Um exemplo: no sexto século os missionários Cirilo e Metódio foram delegados pelo Patriarcado Ecumênico para pregar o Evangelho aos povos eslavos. Assim, para melhor executar esta missão, eles criaram o alfabeto cirílico. E neste fato, há quem diga que os missionarios não levaram aos povos eslavos a verdadeira ortodoxia tal qual era vivida na Grécia. Ora, o Patriarcado Ecumenico, naquela época, percebeu aquelas pessoas como eslavas e não como gregas, e por isso eles deveriam ser respeitados, levando-se o cristianismo ortodoxo em sua própria língua. Assim ficaram preservadas as identidades grega e eslava da Ortodoxia. Agora, todos os russos, búlgaros e sérvios sentem-se gratos à Igreja Mãe de Constantinopla.
Por último, Vossa Santidade acha que a ciência e a fé são incompatíveis ou simplesmente tratam de assuntos e conteudos distintos? Recentemente, Stephen Hawking tem causado polêmica com suas declarações de que o universo poderia existir sem um Criador. Vossa Santidade, como considera tais declarações e qual é a resposta da Igreja?
Eu não vejo a fé e a ciência em oposição, mas como estradas paralelas. Elas são complementares, porque têm a mesma finalidade: a busca da Verdade. Assim disse Einstein «A ciência não tem Deus, mas os cientistas têm um Deus». A Igreja Ortodoxa não é contra a ciência. Pelo contrário, há evidência histórica de que os nossos bispos estão entre os mais eminentes cientistas. Mosteiros ortodoxos preservam antigos manuscritos gregos que foram dados a conhecer ao Ocidente. São Gregório Palamàs estudou a filosofia de Aristóteles. Além disso, nossa Igreja tem um santo chamado Epistêmio (que significa «ciência» em grego) e um santo Ypomoni (que significa «paciência»). Não temos Galileu…
Sobre o que diz Stephen Hawking respeito, mas ninguem é obrigado a lhe dar crédito. Mas, tais afirmações são declarações provocativas e, em última instância, só servem para dividir as pessoas. Cremos que tudo o que foi criado no Univerno, tudo o que vemos ao nosso redor – o céu , oceanos, plantas – não foram gerados por acaso, mas realmente feitos por um Criador. Há poucos dias atrás, fiz um passeio no jardim com alguns amigos, e percebi a beleza e a perfeição de uma flor . Quanta indescritivel sabedoria numa pequena flor que é uma festa para os nossos olhos . Não é possível que isso seja assim por mero acaso.
Fonte : athens.cafebabel.com
Tradução: Ecclesia/BRASIL






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