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Bartolomeu: juntos, como cristãos, testemunhamos que não há paz sem justiça

Andrea Tornielli
Entrevista ao Vatican News
(Meeting de Rimini, 30/08/2025)

No contexto do Meeting pela Amizade entre os Povos, em Rimini, dedicado este ano ao 1700º aniversário do Concílio de Niceia (325-2025), o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu, concedeu uma ampla entrevista aos meios de comunicação do Vaticano. Nela, abordou a atualidade do Concílio, o desafio de uma data comum para a Páscoa, a memória do Papa Francisco e os primeiros passos do Papa Leão XIV, além de uma reflexão sobre o papel dos cristãos diante das guerras e da injustiça no mundo.

O legado vivo do Concílio de Niceia

“O Concílio de Niceia foi uma pedra angular para toda a história do cristianismo”, afirmou Bartolomeu. Recordando a definição dogmática de Cristo como “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, consubstancial (Homoousios) ao Pai”, o Patriarca sublinhou que, sem essa verdade da fé, “a história cristã seria apenas uma bela filosofia ética, e não a história da salvação”.

O Patriarca destacou que o evento de 325 continua a interpelar os cristãos de hoje:

“Se Jesus Cristo não fosse Deus, com o Espírito Santo, Trindade consubstancial e indivisível, então toda a nossa ação perderia o sentido. É dessa verdade que deriva toda a nossa missão no presente e no futuro”.

A questão da data comum da Páscoa

Em Niceia, também se discutiu a necessidade de celebrar a Páscoa em uma única data para todos os cristãos. Apesar dos esforços, diferenças históricas e culturais impediram a unidade. Bartolomeu recordou que, em sintonia com o Papa Francisco, foi criada uma comissão para estudar o tema.

“Para sermos críveis como cristãos, precisamos celebrar a Ressurreição do Salvador no mesmo dia. Contudo, é nosso dever evitar novas divisões. Para a Igreja Ortodoxa, o que foi estabelecido por um Concílio Ecumênico só pode ser alterado por outro Concílio Ecumênico”, explicou.

Neste ano de 2025, pela primeira vez em muito tempo, todos os cristãos celebraram a Páscoa no mesmo dia — fato que, para o Patriarca, foi um sinal eloquente da ação do Espírito.

A memória do Papa Francisco

O Patriarca recordou com emoção a última Páscoa vivida em comum com o Papa Francisco, falecido em 2025:

“Francisco não foi apenas o Bispo de Roma. Foi um irmão com quem partilhamos plena sintonia diante dos grandes problemas da humanidade contemporânea. Encontramo-nos inúmeras vezes e cada encontro foi um verdadeiro encontro de irmãos que se amam. O Senhor lhe dará mérito por tudo o que testemunhou com sua vida”.

Foi também sob o pontificado de Francisco que, pela primeira vez na história, um Patriarca Ecumênico participou da cerimônia de início do ministério de um Papa.

O novo Papa: Leão XIV

Desde 8 de maio de 2025, a Igreja Católica tem um novo pontífice: Papa Leão XIV. Bartolomeu afirmou já ter se encontrado com ele duas vezes e testemunhou sua “firme convicção de prosseguir nos passos de seu predecessor”.

O Patriarca destacou ainda que a primeira viagem internacional do novo Papa será ao Patriarcado Ecumênico, em Istambul, e a Niceia, para marcar o aniversário do Concílio.

“Estamos particularmente felizes, aguardando com grande expectativa este testemunho comum de diálogo ecumênico e compromisso diante dos desafios globais”.

O desafio da paz e da justiça

Respondendo sobre as guerras atuais, Bartolomeu foi direto:

“Na Ucrânia, há uma guerra fratricida, escândalo para o mundo cristão e sobretudo ortodoxo. Em Gaza e em todo o Oriente Médio, interesses alheios às populações locais empurram para uma guerra dilacerante e desumana”.

O Patriarca destacou que, como cristãos, não podemos permanecer em silêncio:

“Temos a necessidade de fazer ouvir nossa voz, unidos, assim como nossos irmãos o Patriarca Teófilo de Jerusalém e o cardeal Pizzaballa. Devemos testemunhar uma firme vontade de justiça, porque sem justiça não há paz. Mas jamais devemos esquecer que temos também uma arma invencível: a oração”.

Conclusão: testemunho humilde, voz profética

Bartolomeu encerrou a entrevista com palavras de gratidão pelo convite ao Meeting de Rimini, onde falou diante de milhares de fiéis sobre o Concílio de Niceia e a missão da Igreja no mundo contemporâneo.

“Aceitei de bom grado o convite e estou aqui para dar o meu humilde testemunho. Amanhã retornarei a Istambul, à minha sede”.

Referências

  • Andrea Tornielli, Entrevista com o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, Vatican News, Meeting de Rimini, 30 de agosto de 2025.
  • Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, Declarações sobre a visão sagrada do homem, Conselho Mundial das Religiões pela Paz, Istambul, 30 de julho de 2025.
  • Sala de Imprensa da Santa Sé, Comunicado sobre o encontro do Papa Leão XIV com a Delegação do Patriarcado Ecumênico, 28 de junho de 2025.

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