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Novos Santos da Igreja Ortodoxa das Terras Tchecas e Eslováquia

Pe. Edward Pehanich
Family Hospice and Palliative Care em Pittsburgh

No sábado, 8 de fevereiro de 2020, na Catedral de Praga, a Igreja Ortodoxa das Terras Checas e da Eslováquia canonizou vários clérigos e leigos martirizados pelos nazistas durante a II Guerra Mundial. Entre os novos santos estão os sacerdotes Vladimir Petrek, Vaclav Cikl e os leigos Jan Sonnevend, Vaclav Ornest, Karel Louda e seus familiares. Todos estes cristãos ortodoxos sofreram por Cristo com o seu bispo Gorazd Pavlik, que já havia sido canonizado mártir em 1987.

A história dos novos mártires tem início em setembro de 1941, quando Reinhard Heydrich foi nomeado vice-Protetor do Reich (Governador) nazista da Boêmia e da Morávia. Heydrich tinha a reputação de ser um nazista violento e sem coração. Hitler o chamava de “o homem com coração de ferro”, e outros se referiam a ele como “Açougueiro”. Cinco dias após a sua chegada a Praga, 142 pessoas foram executadas e Heydrichfoi o arquitecto e principal organizador do Holocausto, que levou ao extermínio mais de seis milhões de judeus, entre outros. Hoje, ao olharmos as fotos históricas de pilhas de corpos nos campos de concentração nazistas nos perguntamos: “Alguém se importou? Por não se impediu esse mal? Por que não se fez alguma coisa?

Em maio de 1942, um grupo de pessoas corajosas tomou medidas para acabar com este mal. As forças aliadas já haviam escondido na região vários membros do exército checoslovaco. O codinome de sua missão era “Operação Antropóide”, e seu objetivo era a remoção e assassinato de Reinhard Heydrich. Na manhã de 27 de maio de 1942, Heydrich estava sendo levado em carro aberto para seu escritório, em Praga. Saindo para a estrada, os soldados tchecoslovacos abriram fogo com uma metralhadora e uma bomba, o que levou à morte de Heydrich vários dias depois.

Os nazistas desencadearam uma onda de terror em represália ao assassinato de Heydrich. No dia 9 de Junho, na aldeia de Lídice, 172 homens, com idades entre 14 e 84 anos, foram baleados, mulheres e crianças foram deportadas para campos de concentração. O mesmo padrão repetiu-se na aldeia de Ležáky: todos os adultos foram assassinados. Em Praga, os soldados checoslovacos refugiaram-se refugiando-se nos lugares sagrados, como a Catedral Ortodoxa Santos Cirilo e Metódio, enquanto os nazistas iniciavam uma busca furiosa por seu esconderijo. Após intenso tiroteio, todos os soldados foram mortos na cripta da Catedral. Os nazistas voltaram então sua ira contra a liderança da Igreja Ortodoxa: o bispo Gorazd Pavlik e seus sacerdotes, Vladimir Petrek e Vaclav Cikl, foram torturados e executados por um pelotão de fuzilamento. Jan Sonnevend, Vaclav Ornest e Karen Louda, os líderes leigos da Catedral Ortodoxa de Praga, também foram submetidos a tortura e executados por um pelotão de fuzilamento. Hoje, no local do martírio, no Campo de Tiro de Kobylisz, foi erguido um monumento em memória deles e daqueles que sofreram nas mãos dos nazistas. A esposa de Sonnevend, Marie, a filha Ludmilla e seu marido, juntamente com a esposa do padre Cikl, Marie, foram enviados para o campo de concentração de Mauthausen, onde foram todos executados.

Esses novos mártires são conhecidos como os “Santos Novos Mártires da Boêmia” e comemorados em 5 de setembro.

Uma guerra justa?

O assassinato de Reinhard Heydrich levanta questões teológicas e éticas preocupantes. São Paulo, em sua epístola aos Romanos, escreveu

“A ninguém retribua mal com mal….Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem. (Rm 12:21)

Este ensino bíblico é claro, mas a questão permanece: é permitido, em alguma circunstância, um ato de violência para impedir a ocorrência de males maiores? O ato dos partidários checoslovacos foi necessário para tentar impedir as atrocidades nazistas contra judeus e outros? Alguns teólogos e especialistas em ética referem-se a estas questões como a “teoria da guerra justa”. Esta teoria sustenta que a guerra é sempre um ato maligno a ser evitado, mas existem exceções, como para defender os inocentes ou para prevenir males e violência maiores.

Embora a teoria da guerra justa tenha sido proposta por Santo Agostinho, um bispo do século IV no Norte da África, os outros Padres da Igreja primitiva concordam que a guerra e a violência são sempre más, por vezes, porém, são os “males menores”. A Igreja sempre defendeu a paz e procura a resolução pacífica das diferenças. Contudo, ao longo da história existem muitos exemplos da infeliz necessidade da guerra e de atos de violência para proteger os inocentes e deter o mal. A Igreja, seguindo o ensinamento de São Paulo, canonizou como mártires os santos Boris e Gleb que no XI século aceitaram uma morte violenta nas mãos de seu irmão, em vez de usarem de violência para se defender. Esses dois irmãos são homenageados com o título de “Portadores da Paixão”, o que significa que imitaram o Senhor Jesus na aceitação de sua paixão e morte. O meu próprio santo onomástico: o rei Eduardo de Inglaterra, século X, também é homenageado com o título de “Portador da Paixão” pela sua recusa em usar de violência em sua defesa. Por outro lado, a Igreja também homenageia soldados que deram suas vidas em batalha e canonizou numerosos guerreiros, como os primeiros mártires cristãos São Jorge, São Demétrio e Santo Alexandre Nevsky, o príncipe guerreiro da Rússia. A Igreja recorda as palavras de Nosso Senhor: “Ninguém tem maior amor do que este, dar a vida pelos seus amigos”. (Jo 15:13)

Em 1999, o Patriarca Bartolomeu de Constantinopla resumiu assim o ensinamento da nossa Igreja:

“A guerra e a violência nunca são meios utilizados por Deus para alcançar qualquer que seja o resultado. Em sua maior parte, são maquinações do diabo usadas para atingir fins ilícitos. Dizemos ‘na maior parte’ porque, como é bem sabido, em alguns casos específicos a Igreja Ortodoxa perdoa uma defesa armada contra a opressão e a violência. No entanto, como regra, a resolução pacífica de diferenças e a cooperação pacífica são mais agradáveis a Deus e mais benéficas para a humanidade”.

Publicado em: The American Carpatho-Russian Orthodox Diocese of the U.S.A, em 05 de setembro de 2022

No dia 10 de outubro, o Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa das Terras Checas e da Eslováquia decidiu canonizar vários Novos Mártires do século XX. Os novos santos foram companheiros do venerado Hieromártir São Gorazd (Pavlik): Pe. Vladimír Petřek e Pe. Václav Čikl, bem como Ján Sonnevend, Václav Ornest e Karel Louda e suas famílias, que deram suas vidas pela glória de Cristo e da santa Ortodoxia durante o período de severa repressão de Heydrichiáda pelos ocupantes nazistas do Protetorado da Boêmia e Morávia, durante a Segunda Guerra Mundial. São Gorazd foi canonizado pela Igreja Sérvia em 1961 e pela Igreja Tcheco-Eslovaca em 1987. A canonização dos Novos Mártires foi solenemente celebrada no sábado, 8 de fevereiro de 2020, na Igreja Catedral dos Santos de Cirilo e Metódio em Praga.

Tropário (Modo 4º) tradução não oficial:

Hoje louvamos Cristo Homem-Deus, glorificado em suas testemunhas, os sacerdotes Václav e Vladimir, juntamente com os membros fiéis do povo de Deus, o mártir Ján, e uma multidão de homens e mulheres que não temeram a tirania dos ímpios, mas cheios de esperança na imortalidade, com fé entregaram suas almas nas mãos do Senhor da vida. Por suas intercessões, ó Deus misericordioso, nosso Pai, confirma a fé Ortodoxa em nossa terra, e concede-nos  coragem para testemunhar o teu Reino com nossas vidas!

Kondakion (Modo 4º) tradução não oficial:

Nos tempos difíceis do mal e das trevas, testemunhastes Cristo, o Doador da luz e da vida, juntamente com o santo arquipastor Bispo Gorazd, ó santos Novos Mártires de Cristo, orgulho e adorno do povo Tcheco!

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