Panagiotis Ant. Andriopoulou
A lacuna mais profunda causada no Cristianismo com o Cisma de 1054, após nove séculos, o grande Patriarca Ecumênico Atenágoras tentou repará-la. As iniciativas do Patriarca Atenágoras visavam amenizar as contradições entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa, construindo um clima de compreensão mútua, confiança e cooperação, a fim de iniciar um diálogo teológico. Assim, em 5 de janeiro de 1964, os Primazes das duas Igrejas, o Patriarca Ecumênico Atenágoras e o Papa Paulo VI, se encontraram no Monte das Oliveiras, em Jerusalém, e trocaram o beijo de amor e paz.
Depois do beijo entre o Patriarca e o Papa, a cidade de Patras recebeu de Roma um tesouro, a Cruz do Apóstolo André, que marca uma nova era nas relações entre a Igreja Ortodoxa e a Igreja Católica Romana. Uma nova página começou a ser escrita sobre o Cristianismo no século 20, com acontecimentos que marcaram as duas Igrejas. O primeiro fruto daquele encontro histórico, de janeiro de 1964, veio poucos meses depois, em 26 de setembro do mesmo ano. A Igreja Católica Romana respondia a um pedido da Igreja Ortodoxa, em Patras, e devolvia o as relíquias do santo padroeiro de Patras, o Apóstolo Santo André, o Primeiro Chamado, mantida em Roma desde sua transferência (1462) pelo governante Thomas Palaiologos para evitar que fosse parar nas mãos dos turcos. Roma, portanto, que tem como fundador o Apóstolo Pedro, abraçava Patras, a cidade de Protoklitos, o Primeiro Chamado. Foi precedido pelo abraço dos dois líderes, Atenágoras e Papa Paulo VI, que é o primeiro beijo dos dois Apóstolos, pois o Papa e o Patriarca têm os seus lugares onde os outros Apóstolos martirizaram, de onde vem a sua apostolicidade. O Papa na Roma de Pedro e o Patriarca Ecumênico em Constantinopla de André.
Patras, como cidade do martírio dos primeiros chamados, recebe a aura revigorante deste abraço apostólico. Até então, o Cristianismo conhecia o abraço de Pedro e Paulo que, afinal, celebram juntos, no dia 29 de junho, dia da Festa do Trono da Igreja de Roma. Os cristãos estão agora a reviver o abraço dos irmãos Pedro e André, os irmãos na carne, que agora experienciam uma nova realidade do diálogo e da partilha, o caminho para a unidade das duas Igrejas.
Apesar de que a Diocese de Patras e a comunidade local não terem feito tanto alarde ao fato, a importância deste evento em um nível inter-cristão, significava que a Igreja Católica Romana renovava aquele abraço. Em 19 de janeiro de 1980, era devolvida a Cruz do Martírio do Primeiro Chamado, mantida até então na Igreja de São Vítor, em Marselha. O Apóstolo André, como apóstolo ecumênico, iluminava novamente as relações entre o Ocidente e o Oriente. Mas, o abraço das cidades de Roma e Patras se estendia em 2002, quando do Mosteiro Hautecombe da França, devolvia-se um ícone de Agia Irini (Santa Irene) à Igreja de Santa Irene, em Riganokampos, Patras. Assim, a cidade de Patras se tornava a única cidade da Grécia em que três relíquias eclesiásticas, que agora se tornavam o tesouro espiritual da cidade, foram devolvidas por Roma em um espaço de quarenta anos: a Cruz do Primeiro Chamado, a Cruz de seu martírio e o ícone de Agia Irini. Infelizmente, a cidade de Patras era indiferente a estes abraços espirituais feitos por Roma, que passam naturalmente pelo Patriarcado Ecumênico. A Diocese e a cidade não promoveram relações inter-cristãs, apesar de haver uma comunidade católica histórica em Patras, com a igreja de Santo André. Não houve abertura para o cristianismo ocidental. Uma introversão conveniente foi preferida por todos, o que é contrário à universalidade do Evangelho e dos tempos.
De 4 a 6 de dezembro de 2021, o Papa Francisco visitará a Grécia, tendo em seu programa de viagem Atenas e Lesbos. No entanto, seria perfeitamente razoável e imperativo, em outras circunstâncias, visitar também a cidade do Primeiro Chamado, para a qual a Igreja Católica Romana devolveu três relíquias. A relação entre Patras e Roma é historicamente forte e inquestionável, mesmo que os contemporâneos demonstrem reconhecer esta importância. O abraço entre os irmãos Apóstolos André e Pedro, e entre as cidades de Roma e Patras, são também de natureza espiritual. Resta abrir os olhos para entendê-lo como uma Ressurreição.
Um exemplo disso se deu recentemente nos EUA na América do Norte, durante a visita do Patriarca Ecumênico Bartolomeu, quando o abraço dos irmãos Apóstolos tornou-se realidade outra vez em uma Cátedra Universitária: a família do empresário Michalis Psaros, estabeleceu uma cadeira em homenagem ao Patriarca Ecumênico Bartolomeu na famosa Universidade de Georgetown.
Em uma entrevista com “Ethnikos Kirikas” e Theodoros Kalmoukos, respondendo à pergunta sobre como ele pensava em criar a Cátedra em homenagem ao Patriarca Bartolomeu, Psaros disse que:
«Cinco anos atrás a Georgetown University, a mais antiga e importante Universidade Católica Romana do Estados Unidos, pedia-me para arcar com os custos de criação de uma iconostase com os novos ícones no santuário da cripta Copley no edifício Copley. Os edifícios Healy e Copley foram construídos antes da criação do Distrito de Columbia».
O Sr. Psaros acrescentou que ficara comovido com a proposta ecumênica da Universidade para a Comunidade Ortodoxa e, consequentemente, com aquela abordagem ecumênica e simbólica da Igreja do Ocidente para com a Igreja do Oriente.
«Chorei ao receber o telefonema, mas não me surpreendeu porque esta é a Georgetown University, uma das primeiras universidades mundiais e internacionais nos Estados Unidos e a primeira universidade a ter uma Escola de Diplomacia Estrangeira, a primeira a ter um Escola Internacional de Negócios e, o mais importante, é uma Universidade na Capital da nossa Nação».
Os ícones foram criados pelo hagiógrafo Georgios Filippakis, que me foi apresentado pelo meu mentor e amigo Pe. Alexandros Karloutsos. A imagem mais simbólica é do Apóstolo André, o Primeiro Chamado, abraçando seu irmão Pedro.
«Fui inspirado por esta imagem porque fui abençoado por ser um membro da escolta de Sua Santidade no ‘Grande Encontro’ com o Papa Francisco em Jerusalém. O Patriarca Ecumênico e o Papa se cumprimentaram com ‘Meu Irmão André, Meu Irmão Pedro’. Esta imagem simboliza aquele momento de amor e o respeito fraternos».
E, acrescentou:
«Esta Cátedra continuará a presença do Martírio Ortodoxo para sempre. A Universidade de Georgetown tem quase 300 anos e esta cadeira será o testemunho contínuo de nossa Santa Ortodoxia pelos próximos três ou mais séculos».
O abraço dos Apóstolos André e Pedro é o guia luminoso no caminho para a Unidade das Igrejas.
O beato Patriarca Atenágoras, ao ser informado que a Cruz de Santo André tinha sido devolvida à cidade de Patras, escreveu:
«Eu concordo que a Ortodoxia se alegra. Expressamos pessoalmente um agradecimento fraterno ao Senhor e abençoamos os irmãos de nossas igrejas que desejam a unidade».
Durante a entrega das relíquias de Santo André, o Cardeal Bea, transmitindo a mensagem do Papa Paulo VI, e fixando seu olhar para o ícone de Santo André, pediu ao Senhor que o amor mútuo entre os cristãos do Oriente e do Ocidente se fortifique:
«Santo André, o primeiro chamado por Cristo, e junto com Simão Pedro, integrante da família apostólica, concidadão e mártir da fé, imploramos a Cristo nosso Deus, o revigoramento do amor mútuo. E agora, que vossas relíquias foram repatriadas à terra que foi glorificada pelo vosso martírio, esforcemo-nos no vínculo do amor».
Fonte: Fos Fanarion










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