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PRONUNCIAMENTO DE S. S. BARTOLOMEU NO ENCONTRO INTERNACIONAL DE ORAÇÃO PELA PAZ

(Roma, 20 de outubro de 2020)

É-nos dada mais uma vez a possibilidade de nos encontrarmos neste período difícil para toda a humanidade, mas ao mesmo tempo um momento propício para nos questionarmos, meditarmos, rezarmos e agirmos para construir uma sociedade melhor. Uma sociedade capaz de aceitar os grandes desafios do momento, que não dizem respeito apenas a alguns povos ou nações, mas a toda a nossa vida nesta casa maravilhosa, o mundo – que é um dom da misericórdia de Deus.

Para construir a fraternidade que conduz à paz e à justiça, ao respeito e à compreensão, a nos sentirmos familiarizados como em casa, devemos começar cuidando da nossa casa comum, na qual todos nos encontramos, filhos desta humanidade e de tudo o que foi criado por Deus. O tempo da modismo ecológico, de sua idealização ou, pior ainda, de sua ideologização acabou. Precisamos de um tempo para a ação que já começou.

Certamente, inúmeras nações, movimentos, correntes de pensamento, cientistas ou simples cidadãos do mundo trabalharam e estão trabalhando para curar nosso planeta doente. Nosso Patriarcado Ecumênico identificou por mais de trinta anos as raízes espirituais da crise ecológica. Já promovemos conferências, reuniões, seminários, Cartas Ecológicas, mas tudo isso foi rapidamente suplantado pela crise mundial de saúde e econômica, causada pela atual pandemia, que por sua vez levantou novas questões.

A ação pela casa comum, portanto, deve seguir um novo caminho, deve desenvolver-se sob uma luz diferente. Devemos subverter uma ordem sócio-cultural secular e sentir o fragmento divino em seu interior.

No 6º século a.C, o filósofo grego Anaxímenes de Mileto introduziu a teoria dos quatro elementos. Uma teoria que percorreu toda a nossa história e chegou até nós. Desde as origens, filósofos, matemáticos e alquimistas investigaram e estudaram os quatro elementos naturais: ar, água, fogo e terra. Todos importantes da mesma forma, eles se alternam constantemente permitindo o desenvolvimento harmonioso da vida e o devir regular do mundo. Chegou a hora de entender que sua relação com a vida só é tal se contiver em si o paradigma do lar comum. Sem a preservação do ambiente natural, sem a casa comum, os quatro elementos pertencem ao espaço cósmico, mas não pertencem à vida criada por Deus.

Ao mesmo tempo, as grandes religiões do mundo e seus textos sagrados nos oferecem uma imagem muito semelhante da ação criadora de Deus, no centro da qual está a humanidade. A humanidade faz parte da criação com tudo o que ela contém. Na tradição cristã, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus e muitas vezes isso foi interpretado por uma certa teologia como uma espécie de supremacia do ser humano sobre o resto da criação. Não uma partilha daquela “alma vivente” que está presente em toda a ação criadora de Deus, mas um domínio absoluto do ser humano sobre todo o universo. Devemos também subverter essa ordem antropológica e devemos entender que a casa comum é como uma casa de espelhos. É um espelho no qual vemos refletida nossa imagem, como a de cada um de nossos irmãos e irmãs e conosco vemos cada elemento da criação. Criados à imagem e semelhança de Deus, vemos em nós a imagem dos nossos irmãos e em cada ser humano o fragmento divino. Olhando para o que está ao nosso redor, vemos a obra divina contida nisso.

A convulsão sócio-cultural que se segue, portanto, nos leva a ver a ecologia como um sinal da presença do divino na criação. Então, não devemos falar da ecologia como um dos grandes fenômenos ou temas do momento, mas como o ar que respiramos. A humanidade pode retomar o seu papel de guardiã e cuidadora da criação: não há mais lugar para o fundamentalismo, a injustiça social e econômica, o hedonismo, o egoísmo, a vontade de dominar e toda a criação voltará a participar do bem mundial. Na Casa Comum, – εν τῷ οίκῳ, – a fraternidade e a paz não são elementos do integrismo religioso ou cultural, mas a verdadeira liberdade que nos faz compreender nesta hora obscura do planeta terra que “Ninguém se salva sozinho”.

✠ Bartolomeu de Constantinopla

Fonte: Newsletter de novembro-2020
Delegação Permanente do Patriarcado Ecumênico | WCC

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