Cem anos atrás, em janeiro de 1920, o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla emitiu um documento profético: a encíclica dirigida “às Igrejas de Cristo em todos os lugares”, que afirmou que a Igreja Ortodoxa “sustenta que a aproximação (προσέγγισις) entre as várias Igrejas e comunhão cristã (κοινωνία) entre elas não está excluída pelas diferenças doutrinais que existem entre elas”, e as chamou para a ‘necessidade de estabelecer um contato e vínculo (comunhão – κοινωνία) entre as Igrejas’, por analogia com a liga das Nações, criada em Genebra em 1919.
Este chamado profético é geralmente considerado um passo pioneiro para a criação, em 1948, do Conselho Mundial de Igrejas, do qual o Patriarcado Ecumênico é membro-fundador. Quando o Patriarca Ecumênico Atenágoras visitou o CMI, em 1967, o primeiro secretário-geral (CMI), Willem Adolf Visser T’Hooft, declarou: “A Igreja de Constantinopla foi uma das primeiras na história moderna a lembrar que o cristianismo seria desobediente para com a vontade de seu Mestre e Salvador, se não procurasse demonstrar ao mundo a unidade do povo de Deus e do corpo de Cristo.” Através de sua profética Encíclica, ‘Constantinopla soou o toque de clarim para a unidade’”.
O Arcebispo Germanos Strenopoulos (foto), que se tornaria o Metropolita de Thyatira, à época decano da Faculdade de Teologia de Halki, situada nas proximidades de Constantinopla, foi um dos redatores desta histórica Encíclica. Ele se tornou assim um pioneiro do Movimento Ecumênico, tendo papel ativo como representante do Patriarcado Ecumênico nas primeiras conferências dos movimentos de “Fé e Constituição” (Genebra 1920, Lausanne 1927, Edinburgh 1937); e “Vida e Obra” (Genebra 1920, Estocolmo 1925, Oxford 1937). Juntamente com o Pe. Georges Florovsky, foi um dos poucos delegados ortodoxos para orientar o processo de formação do Conselho Mundial de Igrejas, que encarnou o “koinonia das Igrejas” para o que a Encíclica do Patriarcado Ecumênico de 1920 havia profeticamente conclamado a todas as Igrejas de Cristo em toda parte.
É importante sublinhar que a encíclica, não exclusivamente ela, foi um chamado profético para a constituição do que se tornou, mais tarde, o Conselho Mundial de Igrejas, e também uma concreta colaboração. Ela concebeu a convocação de conferências inter-cristãs; a colaboração entre faculdades teológicas de diferentes confissões e intercâmbio de estudantes cristãos; sugeriu o uso de capelas e cemitérios para os funerais e enterros de fiéis de outras confissões que morrem em terras estrangeiras; apelou para a solução da questão dos casamentos mistos entre as confissões; propôs a adoção de um calendário comum para todos os cristãos.
Neste sentido, a Encíclica era mais do que profética. No início do século 20 o Patriarcado Ecumênico estava, de fato na vanguarda do Movimento Ecumênico. Ele acreditava que os cristãos de diferentes igrejas poderiam colaborar, encontrando juntas soluções para problemas comuns e avançar rumo à unidade. Um século mais tarde, quando alguns cristãos ainda conservam dúvidas de uns para com os outros sobre se constituem ou não Igreja ou, se podem ou não rezar juntos, a leitura desta Encíclica de 1920 ainda pode ser inspiradora e encorajadora para prosseguir hoje dando passos a frente em nossa peregrinação comum rumo à unidade dos cristãos.
Arcebispo Job de Telmessos,
Representante Permanente do Patriarcado Ecumênico
no Conselho Mundial de Igrejas
Fonte: Newsletter do Patriarcado Ecumênico






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