GENEBRA, Suíça, 04 de janeiro de 2010 [Ortodoxia.org | CMI, Juan Michel *) — O que a Bíblia diz sobre a mudança climática e que reflexões teológicas podem oferecer as Igrejas para um mundo que enfrenta uma crise ecológica sem precedentes? Estas questões, levantadas num seminário sobre «A Criação e a crise climática» da qual participaram os representantes das igrejas durante a cúpula da ONU sobre o clima em Copenhague, parece agora ainda mais urgente depois do fracasso da cúpula que não foi capaz de chegar a um acordo justo, ambicioso e juridicamente vinculativo, o que era esperado por milhões em todo mundo.«Não existe uma relação óbvia entre o evangelho e a mudança climática”, disse Jakob Wolf, chefe do Departamento de Teologia Sistemática na Universidade de Copenhague, que patrocinou o seminário juntamente com o Conselho Nacional de Igrejas na Dinamarca. No entanto, como a mudança climática é uma conseqüência da atividade humana cai sob o imperativo dos princípios éticos, porque os seres humanos são responsáveis por suas ações». A exigência ética de amar o nosso próximo aplica-se aqui, visto que o «Planeta Terra tornou-se o nosso próximo», disse Wolf, e, por sua vez, «vulnerável à atividade humana». Segundo Wolf, uma visão teológica no planeta e da vida que há nele como criação de Deus lhe confere um valor intrínseco, pelo que suscita «respeito e amor». «Quanto mais nós amamos a vida sobre a Terra, mais dispostos estaremos a agir de forma não egoísta», disse Wolf. Esta é a contribuição que a fé e a teologia cristã podem aportar na luta contra as mudanças climáticas: uma motivação que é abrangente, profunda e «muito mais vigorosa» do que se basear em «meros cálculos e frias obrigações». isto é fundamental, disse Wolf, porque a humanidade «tem em mãos todas as ferramentas» para adotar medidas concretas contra as alterações climáticas. «A única coisa que falta é a vontade».
No apocalipse, senão esperança, a biblista Bárbara Rossing, professora na Faculdade Luterana de Teologia, em Chicago, EUA, concordou com Wolf quanto a que «a Bíblia nada diz sobre a mudança climática». Mas ela acredita que os cristãos podem embasar na Bíblia a sua resposta a este fenômeno. O ponto de partida de Rossing é a pergunta: «Onde está Deus nesta crise?» Ela rejeita a noção de que Deus castiga a humanidade, e crê, isto sim, que «Deus se lamenta juntamente com o mundo». Segundo sua leitura do livro do Apocalipse, chora «Deus chora pela terra, e não a amaldiçoa». As famosas pragas não são predições, mas ameaças e advertências, chamadas de atenção, projeções futuras das conseqüências lógicas das ações humanas, se não mudar o rumo. No entanto, para Rossing, o livro do Apocalipse não prenuncia o fim do mundo, mas o fim do Império. Assim, pois, apesar das atuais pautas insustentáveis de consumo e uma economia baseada no carbono, Rossing encontra nele uma mensagem de esperança: «A catástrofe não é necessariamente inevitável, ainda há tempo para mudar». Esta «visão de esperança para hoje» é um contributo essencial que a teologia e a fé cristã podem dar para os esforços globais no enfrentamento do problema das alterações climáticas. A dimensão ecumênica da mudança climática «de forma muito ameaçadora e preocupante, a crise do clima faz-nos estar unidos como a humanidade, como a comunidade dos crentes, como a igreja Una», disse Olav Fykse Tveit, secretário-geral eleito do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). «Somos chamados a dar um sinal do que significa ser a humanidade una, do que significa o fato de que Deus ama o mundo inteiro», disse Tveit. Quando as igrejas se reúnem para oferecer este sinal, a luta contra a mudança climática «nos une de forma muito especial, como igrejas, como crentes».
A mensagem que Deus ama o mundo e todas as criaturas da Terra «tem sido a pulsação do movimento ecumênico para enfrentar o problema da mudança climática», disse Tveit, lembrando a longa história da preocupação do CMI em relação as questões ambientais. Numa perspectiva ecumênica, a preocupação com a criação sempre esteve ligada à preocupação com a justiça e a paz. «Não se pode dizer que este é um planeta para alguns de nós», disse Tveit, «este é um planeta para todos nós».
Destacou ainda este aspecto Jesse Mugambi, da Universidade de Nairobi e membro do CMI do grupo de trabalho sobre mudança climática. «O mundo é um mundo no qual todos estamos relacionados, porém, em algum momento decidimos […] tratar-nos uns aos outros como estrangeiros», disse ele.Mugambi explicou que na África a mudança climática já está causando secas severas, por um lado, e inundações por outro. Com a ajuda de mapas demonstrou que as partes do continente, ricas em água e terras cultiváveis, são também as áreas de maior conflito. «E estes conflitos nada tem a ver com etnia, mas com os recursos», disse ele. Para Mugambi, o papel da fé cristã e da religião em geral, através de seus líderes, teólogos e especialistas em ética, é a de «trazer-nos de volta para as normas» que podem ajudar a enfrentar problemas, como o das mudanças climáticas. «Nós não falamos de «ajudar» aos países Africanos, disse Mugambi. «Não é uma questão de «ajuda», mas a sobrevivência de todos nós”.
(*) Juan Michel é o assessor de imprensa do CMI.





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