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Relações Roma-Moscou começam um novo período

Arcebispo ortodoxo se oferece para ajudar a Europa a lutar contra o secularismo

Por Robert Moynihan

WASHINGTON, quarta-feira, 23 de dezembro de 2009 (ZENIT.org) – As coisas movem-se no fronte oriental. E poderia haver maior movimento, já que o inverno nas relações entre Roma e Moscou parece aproximar do fim, com conseqüências para a Europa e o mundo. Os observadores vaticanos acompanham estes processos com grande atenção. «Para Roma e Moscou, é primavera outra vez», afirmou o respeitado vaticanista Sandro Magister, em uma coluna do dia 11 de dezembro.

Esta melhora nas relações deve-se em parte a numerosos passos dados em silêncio pelo Vaticano, sob a direção do cardeal Walter Kasper, chefe do ecumenismo do Vaticano, que liderou a delegação do Vaticano durante uma longa semana de diálogo teológico no Chipre, e pelo arcebispo Antonio Mennini, o muito capacitado núncio do Papa em Moscou. Magister, contudo, refere-se a dois recentes acontecimentos chave: (1) a melhoria das relações entre a Santa Sé e a Rússia, e (2) a publicação na Rússia, pela primeira vez, de uma coleção de homilias de Bento XVI.

Este «tempo de primavera» tem um objetivo, argumenta Magister: «a defesa da tradição cristã na Europa e em todo mundo». Assim, o que temos, essencialmente, é o anúncio de uma nova aliança no mundo entre duas potências que durante muito tempo desconfiavam uma da outra: Roma e Rússia. Por incrível que pareça -tendo em conta que há apenas 20 anos a Rússia era a União Soviética ateia e perseguidora da Igreja – isto é o que parece estar sucedendo ante nossos olhos.

No dia 9 de dezembro, depois de um encontro no Vaticano entre o Papa e o presidente da Rússia, Dimitri Medvedev, este país e o Vaticano anunciaram o estabelecimento de relações diplomáticas entre eles, com nunciatura apostólica e embaixada. Na semana anterior, Bento XVI tinha recebido Medvedev em audiência no Vaticano e lhe tinha dado uma cópia, em russo, da encíclica «Caritas In Veritate».

A 2 de dezembro, no dia anterior que Medvedev se encontrasse com o Papa, apresentou-se em Roma um livro publicado pelo Patriarcado de Moscou que continha os principais discursos sobre a Europa realizados nos últimos dez anos por Joseph Ratzinger, como cardeal e como Papa. O volume completo está em dois idiomas, italiano e russo -de novo, um sinal do estreitamento das relações entre Rússia e Roma.

Almas gêmeas

O arcebispo Hilarion Alfeyev, de Volokolamsk, chefia o departamento de relações eclesiais externas do Patriarcado, escreve a introdução do livro. O arcebispo é uma figura cada vez mais importante na Igreja Ortodoxa Russa e no mundo ortodoxo (o ocupante anterior de seu cargo, Cirillo, foi eleito Patriarca de Moscou no início deste ano, o que sugere uma possível importância futura do próprio arcebispo Hilarion).

Nesta introdução, o arcebispo Hilarion, de 43 anos, oferece sua visão da Europa, e da nova aliança necessária para levar a cabo esta visão. É um texto sobressalente, que aqui podemos apenas abordar.

Magister estava tão impressionado por esta introdução que escreveu: «os que esperam uma Igreja Ortodoxa apartada do tempo, feita só de tradições remotas e de liturgias arcaicas, irá se sentir sacudido ao ler a introdução deste livro […]». «A imagem que surge é a de uma Igreja Ortodoxa Russa que se nega a deixar-se fechar em um gueto, mas que se lança contra o ataque laicista com todas as armas pacíficas ao seu alcance, sem excluir a desobediência civil contra as leis ‘que obrigam a cometer um pecado ante os olhos de Deus’».

Quem no ocidente, tanto na Europa como nos Estados Unidos, considera que se aprovaram leis injustas que não podem ser toleradas pelos cristãos encontrará uma alma gêmea no arcebispo Hilarion. O título do texto do arcebispo ortodoxo é «A ajuda que a Igreja Ortodoxa Russa pode dar à Europa». Começa com uma lamentação muito sincera e profundamente sentida, pela parte de um líder ortodoxo, pelo fechamento de igrejas católicas e protestantes na Europa Ocidental. «Ao viajar à Europa, especialmente aos países de tradição protestante, sempre me surpreende ver não poucas igrejas abandonadas por suas congregações, especialmente as convertidas em bares, discotecas, lojas ou lugares de atividades profanas de outro tipo», escreve o arcebispo Hilarion. «Há algo profundamente deplorável neste triste espectáculo». «Venho de um país em que durante muitas décadas as igrejas foram utilizadas para fins não religiosos. Numerosos lugares de culto foram destruídos completamente […] Por que o espaço para a religião na sociedade ocidental se reduziu de maneira tão significativa nas últimas décadas?»

Ajudar o Ocidente

O arcebispo Hilarion expõe seu ponto principal: a Rússia pode ajudar. A Rússia pode vir ao resgate do ocidente. «A Igreja Ortodoxa Russa, com sua experiência única de sobrevivência às mais duras perseguições, de luta contra o ateísmo militante, de ressurgimento de gueto quando a situação política mudou, de recuperar seu lugar na sociedade e de redefinição de suas responsabilidades sociais, pode ser por isso de ajuda à Europa», escreve. «A ditadura totalitária do passado não pode ser substituída por uma nova ditadura de mecanismos governamentais pan-Europeus […]. Os países de tradição ortodoxa, por exemplo, não aceitam as leis que legalizam a eutanásia, os casamentos homossexuais, o tráfico de drogas, a manutenção de prostíbulos, a pornografia, e assim sucessivamente».

Em resumo, o arcebispo diz que os ortodoxos, incluindo a Igreja Ortodoxa Russa, a qual ele representa, estão dispostos a lutar pelos valores cristãos no Ocidente, junto a católicos e protestantes.

O arcebispo Hilarión não exclui a desobediência contra as leis injustas. «Obviamente, a desobediência da lei civil é uma medida extrema que uma Igreja particular pode adotar em circunstâncias excepcionais», escreve. «No entanto, é uma possibilidade que não deve se excluir a priori, no caso de que o sistema de valores secularizados converta-se no único que opere na Europa».

Este texto é uma raridade, não representativa, fora da corrente geral? Bem, uma indicação de que não é só uma opinião rara, mas parte de um crescente consenso, é que o jornal L’Osservatore Romano publicou o texto do arcebispo Hilarion quase em sua totalidade no dia 2 de dezembro.

John Thavis, o distinto vaticanista do Catholic News Service – da Conferência Episcopal dos EUA- escreveu a 11 de dezembro: «A Igreja Ortodoxa Russa se adiantou a propor uma aliança estratégica com a Igreja Católica com o ânimo de salvar a alma da Europa do pós-humanismo cristão ocidental».

São Gregório Nazianzeno

Esta introdução do arcebispo não deveria chegar como uma surpresa. Durante os últimos quatro anos, o arcebispo tem falado publicamente várias vezes de uma aliança semelhante. De fato, em maio de 2006, o Vaticano e o Patriarcado de Moscou mantiveram uma conferência durante toda uma semana, à qual assisti, e na qual delinearam o marco de trabalho desta cooperação.

No mês passado, viajei à Rússia e me reuni com o arcebispo Hilarion e seus colaboradores mais próximos. Um deles é Leonid Sevastianov, de 31 anos, diretor executivo da Fundação caritativa russa ortodoxa de São Gregório Nazianzeno, criada há algumas semanas com a bênção do Patriarca Cirillo para ajudar a levar a cabo a visão do arcebispo Hilarion de trabalhar com os cristãos do Ocidente pelos valores cristãos. «Queremos sua ajuda, a ajuda dos católicos, e dos europeus e norte-americanos», disse-me Sevastianov.  «O Patriarca Cirillo chamou à renovação moral da Rússia, através de um retorno aos valores profundos da fé cristã. Esta é nossa visão. (A revista Forbes, em novembro, nomeou Cirillo como um dos líderes mais poderosos da Rússia de hoje).

São Gregório Nazianzeno é um teólogo do século IV, muito antes da divisão da Igreja no Oriente e Ocidente e, portanto, é venerado tanto pelos católicos como pelos ortodoxos. É um Padre da Igreja para todos os cristãos. Os co-fundadores desta nova fundação são o arcebispo Hilarion e Vadim Bakunin, um dos empresários mais ricos da Rússia. Outros ricos russos também estão dispostos a apoiar esta fundação. Mas a participação dos norte-americanos e europeus também seria muito apreciada, disseram-se o arcebispo Hilarion e Sevastianov.

«Queremos tentar atrair a atenção dos crentes religiosos, na Rússia e no estrangeiro, que crêem nos valores cristãos tradicionais, e que querem contribuir a formar uma sociedade mais justa e mais mora», disse Sevastianov. «Queremos promover a idéia da unidade entre Ocidente e Rússia sobre a base das raízes cristãs comuns».

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Robert Moynihan é fundador e editor da revista mensal Incide the Vatican. É autor do livro “Let God’s Light Shane Forth: the Espiritual Vision of Pope Benedict XVI” (2005, Doubleday). O blog de Moynihan pode-se encontrar em www.insidethevatican.com. Seu e-mail é: editor@insidethevatican.com.

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