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Volta de estátuas de Stalin encontra forte resistência em Moscou

Por Ignacio Ortega da EFE

MOSCOU, Rússia, 05 de Novembro de 2009 – A Igreja Ortodoxa Russa se juntou hoje à verdadeira cruzada de ativistas e liberais para evitar o retorno das estátuas e símbolos de Stalin ao metrô de Moscou, um dos principais pontos turísticos da capital russa. «Não posso estar de acordo quando intencionalmente são restituídos símbolos que contribuem para a divisão do povo», afirmou o arcipreste Vladimir Siloviev, chefe do Departamento Editorial do Patriarcado de Moscou. O clérigo lembrou que serão necessários muitos anos e esforços para «eliminar o negativo legado stalinista» de Moscou. «Gostaria que o metrô, apesar de sua simbologia soviética e comunista, fosse um lugar de paz», disse Siloviev, que defendeu a instalação de capelas nos pontos do metrô onde houve atos de violência. O arcipreste concedeu uma entrevista coletiva depois que o arquiteto chefe de Moscou, Aleksandr Kuzmin, anunciou o plano de restaurar a estátua de Stalin em seu lugar original, na entrada da movimentada estação de metrô Kurskaya. Perante a série de críticas recebidas, o chefe do metrô de Moscou, Dmitri Gáyev, explicou que «seria o primeiro passo para restabelecer a justiça histórica».

Por outro lado, os historiadores lembram que o metrô de Moscou foi construído nos tempos de Stalin, da mesma forma que muitas outras infraestruturas, mas ao custo de grandes sofrimentos e da morte de dezenas de milhares de trabalhadores. O metrô de Moscou já gerou indignação de ativistas e liberais em setembro, quando restaurou no salão da estação Kurskaya um relevo com uma frase do antigo hino soviético. «Stalin nos criou na lealdade ao povo, nos inspirou ao trabalho e ao heroísmo», diz a frase que tinha sido retirada nos anos 1950 dentro de uma campanha contra o stalinismo lançada por seu sucessor, Nikita Kruschev. A postura antistalinista da Igreja Ortodoxa Russa não é uma surpresa, já que o Patriarcado foi nos últimos anos o principal defensor da reabilitação do último czar e sua família, Nicolau II, mortos pelos bolcheviques em 1918. O Patriarcado também propôs substituir por uma estátua do czar o monumento de Karl Marx, instalado no centro de Moscou em frente ao teatro Bolshoi, pontos de reunião dos nostálgicos da URSS. A veterana ativista Ludmila Alexéyeva considera que «não há nada mais perigoso que tentar reabilitar a figura de Stalin e seus cruéis métodos de Governo». «O que tentam fazer no metrô de Moscou me traz à memória minhas piores lembranças da infância. É um ultraje e uma falta de respeito aos milhões de vítimas da repressão stalinista», assegurou à Efe. Alexéyeva considera que por trás desses planos «está o Governo federal e o primeiro-ministro Vladimir Putin, que está convencido de que Stalin fez mais bem do que mal». Em sinal de repulsa, a ativista antecipou que decidiu «boicotar a estação Kurskaya e que nunca mais voltará a pôr seus pés nela». Por outro lado, louvou as palavras pronunciadas há poucos dias pelo presidente russo, Dmitri Medvedev, que condenou duramente os crimes do stalinismo e as tentativas de justificá-los. «Não menos importante é impedir que, sob o pretexto do restabelecimento da justiça histórica, sejam justificados aqueles que massacraram o povo. Milhões de pessoas morreram como resultado do terror e de acusações falsas», disse. Já Yuri Bondarenko, líder do movimento que tenta devolver os nomes czaristas às milhares de ruas e prédios que foram renomeados após a Revolução Bolchevique de 1917, acredita que as autoridades lançaram uma campanha aberta de «propaganda stalinista». «Querem devolver a Rússia ao Gulag (campo de trabalho forçado)», assinalou Bondarenko, que cifra em mais de 6.200 as ruas que ainda ostentam nomes de personalidades soviéticas e denúncia a manipulação da figura de Stalin nos livros. O veterano líder liberal Grigori Yavlinski acredita que as autoridades russas «estão interessadas em uma leve reabilitação de Stalin». «Eu chamaria o atual período de ‘stalinismo pós-moderno’. Agora há muitas manifestações (…) que se parecem com os crimes dos bolcheviques e stalinistas», disse. Além da igreja, liberais e ativistas encontraram um inesperado aliado no líder ultranacionalista Vladimir Jirinovski, que também se opôs à restauração dos monumentos a Stalin, a quem qualificou de «carrasco, tirano e ditador». EFE

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