O Concílio de Calcedônia (451) marcou a separação entre as igrejas Siro-ortodoxa e a copta (e, logo em seguida, a Armênia) e as Igrejas Ortodoxas de tradição bizantina. Chamados polemicamente de “monofisitas” os cristãos não-calcedonianos foram considerados hereges pelos bizantinos e submetidos a perseguição por parte das autoridades imperiais.
No entanto, estas duas famílias de Igrejas são mais próximas entre si que das demais denominações cristãs em termos de espiritualidade, doutrina e experiência histórica, e o diálogo entre os duas é o mais propenso a dar frutos visíveis.
Uma série de consultas informais foram realizadas em Aarhus (Dinamarca) em 1964 e em Bristol (Inglaterra), em 1967, das quais participaram teólogos destacados de ambas as partes. Novas reuniões foram realizadas em Genebra, Suíça (1970) e Addis Abeba, Etiópia (1971). Os resultados foram inesperadamente positivos. Como conta o Metropolita de Dioclea Calixto (Ware), em seu livro A Igreja Ortodoxa (1993), ficou claro que a questão básica que historicamente levou à divisão — a doutrina acerca da pessoa de Cristo —, não há de fato nenhum desacordo real. A divergência, como relatado em Aarhus, encontra-se no domínio da fraseologia. Os delegados concluíram: «Cada uma das partes reconhece na outra fé ortodoxa da Igreja […] No essencial do dogma cristológico estamos plenamente de acordo». Nas palavras da consulta de Bristol, «afirmamos duas naturezas, vontades e energias hipostaticamente unidas no único Senhor Jesus Cristo. Outros afirmamos uma natureza, vontade e energia divino-humano unidas no mesmo Cristo. Mas ambos os lados afirmam uma união sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação. As quatro expressões pertencem à nossa tradição comum. Ambos os lados afirmamos a permanência dinâmica da divindade e humanidade, com todas as suas propriedades e faculdades naturais, no único Cristo».
Estas quatro conversações não oficiais entre 1964-1971 foram seguidas pela convocação de uma Comissão Conjunta Oficial representando as duas famílias de Igrejas, que se reuniu em Genebra em 1985, no monastério de Amba Bishoy (Egito), em 1989, e novamente em Genebra, em 1990 e 1993. Sobre a questão das diferentes formulações cristológicas, que tinha sido uma pedra de tropeço no passado, foi acordado no sentido de que o entendimento subjacente acerca da encarnação era a mesma, embora cada uma das partes preferisse uma fórmula determinada quando se fala de uma ou duas «naturezas». Os acordos doutrinais alcançados nas consultas informais foram reafirmados e, ao final da terceira reunião (em 1990) recomendou-se que cada uma das partes deveria suspender todos os anátemas e condenações lançados uns aos outros no passado. A quarta reunião (em 1993) tratou acerca de como fazer isso a partir de um ponto de vista prático, e propôs que os anátemas e condenações fossem levantados «unânime e simultaneamente, pelos chefes de todas as Igrejas de ambas as famílias, mediante assinatura de uma Ata Eclesiástica que incluísse o reconhecimento de cada uma das partes de que o outro é ortodoxo em todos os aspectos». De acordo com os participantes, uma vez que os anátemas foram levantados, isto «deveria supor que a restauração da plena comunhão entre os dois lados acontecesse imediatamente» (Brock et al., 2001).
Ainda há dificuldades, uma vez que nem todos, em ambos os lados, têm uma atitude igualmente positiva sobre o diálogo: alguns na Grécia, por exemplo, seguem considerando «monofisitas hereges» aos não-calcedonianos, assim como alguns não-calcedonianos ainda consideram o Concílio de Calcedônia e o Tomo de Leão «nestorianos». Mas, a linha oficial de ambas as famílias de Igrejas foi claramente expressada no encontro de 1989: «Como duas famílias de igrejas ortodoxas que quebraram a comunhão há muito tempo atrás, agora rezamos e confiamos a Deus a restauração da comunhão sobre a base da fé apostólica da Igreja indivisa dos primeiros séculos, que confessamos em nosso Credo comum» (Ware, 1993).
Posteriormente houve outras reuniões com o objetivo de aproximar ambas as famílias de igrejas, como a que foi realizada entre os movimentos de jovens de ambas as partes, em maio de 1991, e que foram mantidas pelos Patriarcas do Oriente Médio em 1987 e 1991 (a segunda das quais tinha como objetivo «dar um exemplo concreto de tal amizade entre as duas Igrejas»). Como resultado da segunda reunião de 22 de julho de 1991, o Patriarca Siro-ortodoxo Inácio Zaqueu I e o Patriarca Inácio IV de Antioquia adotaram uma série de decisões importantes que foram refletidas em um comunicado conjunto (Brock et al., 2001).
Para mais informações (em Inglês) sobre as várias reuniões realizadas até agora entre as duas famílias de Igrejas, visite este site.
Tradução: Pe. André Sperandio,
de texto publicado em Sacra Metrópolis de España y Portugal









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