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Riccardo Maccione: Para o Concílio Pan-ortodoxo o caminho está todo em saída. A defecção de Moscou redimensiona um evento histórico

Um caminho de preparação longo atormentado. Uma vigília elétrica. O risco concreto da falência. A dois dias de sua abertura, o Concílio Pan-ortodoxo de Creta é uma grande incógnita. Certamente o cenário é muito diverso daquele desenhado em janeiro na Sinaxe (a reunião dos Primazes das Igrejas) de Chambésy, onde foi decidida a sede; a ilha grega precisamente, e a data: de 19 a 26 de junho. Se aquela, emersa na Suíça era a imagem de um Oriente cristão que, embora entre mil diferenças, desejava unitariamente interrogar-se sobre a própria saúde espiritual e dialogar com uma humanidade que parecia te extraviado o sentido de Deus, hoje a crônica é povoada principalmente pelo distingo, obstinações e reivindicações de autonomia. E não está muito distante da realidade quem pensa que sem a tenacidade de longo alcance de Bartolomeu I, a sua vontade de ir além dos particularismos, as assembleias sinodais sequer ocorreriam.

Riccardo MaccioneA reportagem é de Riccardo Maccione, publicada por Avvenire, 17-06-2016. A tradução é de Benno Dischinger para IHU On-line, de onde o texto foi extraído para publicação em ECCLESIA.


“O Santo e Grande Concílio é a nossa sagrada missão”, disse o Patriarca Ecumênico de Constantinopla chegando a Creta. “Há cinco meses – acrescentou – tomamos uma decisão e anexamos nossas assinaturas sobre ela: devíamos vir a Creta em junho para realizar esta visão seguida no decurso de muitos anos: todas as nossas Igrejas desejam, declaram e proclamam a unidade da nossa Igreja Ortodoxa.

E queremos examinar os problemas que dizem respeito ao mundo ortodoxo para resolvê-los juntos. Palavras que, além da forma pacata, são a fotografia de um caminho todo em saída e, ao mesmo tempo, auspício que, quem anunciou a própria defecção possa, mesmo in extremis, repensá-lo. Atualmente, em ausência do requerido reenvio, decidiram desertar do Concílio as Igrejas de Antioquia, Bulgária, Geórgia e, sobretudo Rússia, que sozinha se vangloria da jurisdição sobre mais da metade dos cristãos ortodoxos. Seria, no entanto, nada generoso acusar Moscou de haver boicotado o caminho de preparação. Mais simplesmente, forte da própria liderança, por assim dizer territorial e política, o patriarcado ortodoxo russo não se empenhou mais tanto para salvaguardá-lo, motivando a própria ausência com questões regulamentares já conhecidas, mas que ocultam razões mais profundas.

Moscou sabe, de fato, que de Creta, isto é, de uma assembleia que se move em torno de documentos já escritos e aprovados, de certo modo blindados, não poderá obter respostas aos problemas que estão nos primeiros lugares da própria agenda eclesial, como a confirmação da autoridade sobre a Igreja na Ucrânia ou o reconhecimento, da parte de Constantinopla, da autocefalia da Orthodox Church of America (OCA).

Ao mesmo tempo, falta ao patriarcado, cujo líder Kirill sofreu críticas, também severas, pelas aberturas ao Papa Francisco, aquela visão de conjunto, aquele olhar realmente ecumênico que, por motivos pessoais, históricos e também de arriscada consistência numérica, é própria de Constantinopla. Ao desejo de Bartolomeu de ir além dos excessos do tradicionalismo, de ter um papel de protagonista no mundo globalizado e necessitado, mais do que nunca, de uma alma religiosa, de um sopro espiritual, Moscou opõe o reforçamento da própria liderança sobre o mundo russo; o fortalecimento da própria presença no setor geopolítico, a busca de um novo modo de viver, de um novo horizonte para o antigo e legítimo nacionalismo.

“Todas as Igrejas devem participar do Concílio pan-ortodoxo – explicou aos 13 de junho passado o metropolita Hilarion, responsável pelo departamento para as relações externas do patriarcado ortodoxo russo – e somente neste caso as decisões tomadas em Creta serão legitimadas”. Dito de outro modo, melhor “transferir” o encontro “do que fazer as coisas apressadamente”. Porque um Concílio não pode ser pan-ortodoxo “se não participa uma ou outra Igreja local”.

A este propósito, o longo comunicado, difundido pelo patriarca ortodoxo russo aos 13 de junho, fala de uma assembleia sinodal que no futuro deverá reunir todos os bispos das Igrejas, fazendo referência à necessidade de discutir os documentos preparatórios do Sínodo.

Evidente o apelo a análogas requisições chegadas da Bulgária, Antioquia e Geórgia, cujas ausências têm, aliás, motivos diferentes para cada uma.

Em particular, a defecção da Igreja ortodoxa de Antioquia, que inclui Síria e Líbano, com fiéis pela maior parte fora dos territórios canônicos, se motiva com a excessiva rigidez do regulamento conciliar, mas, em profundidade menciona problemas de jurisdição com Jerusalém. É mais esfumada a posição da Sérvia, cujo patriarca Irinej, embora participando do Concílio, solicitou que se considerem as opiniões das Igrejas ausentes, sob pena do abandono dos trabalhos. “O Concílio – sublinha uma nota – não pode ser refém de regras estabelecidas e aceitas antecipadamente”.

A referência, uma vez mais, é aos documentos preparatórios, sobre os quais os participantes não poderão intervir, feita exceção para a mensagem final. Trata-se de uma agenda em seis pontos: “A missão da Igreja Ortodoxa no mundo contemporâneo”, “A diáspora ortodoxa”, “A autonomia e o modo de proclamá-la”, “o Sacramento do matrimônio e os seus impedimentos”, “A importância do jejum e sua observância hoje”, “As relações da Igreja ortodoxa com o restante do mundo cristão”.

Uma visão panorâmica sobre o cristianismo do Oriente, do qual, com respeito ao esboço apresentado em Chambésy, foram eliminados os critérios para a concessão do status canônico eclesiológico da autocefalia e a atualização dos vários calendários não concordantes no mundo ortodoxo. “Principal escopo e importância deste Sínodo – escreve Bartolomeu na encíclica difundida em março passado – é o de demonstrar que a Igreja Ortodoxa é a Igreja una, santa, católica e apostólica, unida nos Mistérios e naturalmente na Divina Eucaristia e na Fé Ortodoxa, mas também na sinodalidade”.

Ou então: “Os tempos são críticos e a unidade da Igreja deve constituir o exemplo de unidade da humanidade, lacerada pelas divisões e pelos conflitos”. Este é o cenário no qual, idealmente, o patriarca ecumênico de Constantinopla, primus inter pares entre os patriarcas, quis colocar sua guia do Sínodo, evento esperado há mais de um milênio, como etapa final de um caminho iniciado há mais de cinquenta anos por impulso do então patriarca Atenágoras.

O caminho, precedido hoje por uma pequena mas importante Sinaxe dos Primazes, será no domingo próximo, durante a celebração do Pentecostes ortodoxo. E realmente haverá a necessidade do Espírito Santo para fazer que as diversas almas presentes em Creta consigam entender-se e falem a mesma língua. Um acontecimento, o Concílio, do qual a Igreja católica olha com atenção e interesse, na prece compartilhada, com participação fraterna e ecumênica. Consciente que o seu êxito terá efeitos também sobre a saúde, sobre o andamento do diálogo interconfessional. E, de certo modo, no caminho das reformas iniciadas pelo Papa Francisco. Que precisamente a unidade e a sinodalidade segundo o modelo ortodoxo tem colocado no centro de sua revolução.

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