Estamos na véspera do domingo no qual os cristãos ortodoxos festejam o Pentecostes. Festa que também no Ocidente deveria ser precedida por uma missa de meia-noite como a de Natal e de Páscoa, mas que pouquíssimas comunidades celebram, convencidas da própria tepidez que vigiar à espera do Espírito seja simplesmente improponível.
O comentário é de Alberto Melloni, historiador, publicado por Repubblica, 16-06-2016. A tradução é de Benno Dischinger para publicação em IHU de onde este artigo foi retirado para publicação em ECCLESIA.
Este Pentecostes é a data de início do Concílio Pan-ortodoxo. O primeiro após doze séculos, preparado desde 1961, quando um Papa, São João do Concílio, sonhava que o seu Vaticano II teria sido um novo Pentecostes, como o foi realmente.
Por diversas vezes, e ainda em janeiro, em Chambésy, a Sinaxe dos Patriarcas – o órgão que coaduna os chefes das catorze Igrejas da Ortodoxia – havia confirmado a data e transferido a sede do Concílio de Constantinopla para Creta, a fim de evitar que a crise entre Putin e Erdogan impedisse a vinda dos russos.
A Sinaxe também havia decidido submeter ao Concílio cinco documentos, agora disponíveis no site do Concílio: quatro firmados por todos os patriarcas; o último, sobre o matrimônio, com um voto contra. Contudo, não obstante aquela firma solene abriu-se uma crise dramática entre as Igrejas Ortodoxas sobre se/como/o que submeter ao concílio de Creta.
Três igrejas sobre catorze (Bulgária, Antioquia, Geórgia) requereram nestes últimos dias transferir o concílio e rediscutir os documentos preparatórios. Uma questão típica de todas as vigílias conciliares, em todas as igrejas: quem temeu que um concílio de curta duração (16-26 de junho) ter-se-ia limitado a aprovar sem modificar aqueles cinco textos requereu tempo para garantir que nas pregas dos documentos não emergissem os sinais de um antagonismo antiocidental que alguns ambientes julgam irrenunciável.
A Sérvia rediscutiu a questão, mas se enfileirou a favor do Concílio. Ao invés, na segunda-feira passada, o sínodo da Igreja Russa decidiu que, na ausência de três igrejas, nem mesmo a Rússia teria ido a Creta. Não uma adesão tout court ao reenvio, mas uma posição mais esfumada: não exclui de todo repensamento do último minuto (em 1962 Moscou mandou os próprios observadores ao Vaticano II sob fio de lã) e mediações típicas da fisiologia institucional dos concílios, mas abre uma crise.
O risco da falência do Concílio é, portanto, real. Mas, não tem origens políticas e consequências teológicas: quando muito, vice-versa. O Concílio – os Padres de todos os parlamentos – tem realmente uma fisionomia política. Mas o decisivo de cada concílio (e com frequência dos parlamentos) é o modo pelo qual é vivenciado: um Concílio que saiba pensar-se como evento de graça, no qual o Espírito reúne o que está dividido, suscita precisamente para isto contra impulsos divisórios, aos quais responde teologicamente.
Com a crise de Creta a globalização pesa pouco e a modernidade nada: a questão é o revelar-se de um déficit de fé, do qual o mundano desinteresse de todas as igrejas – igreja católica incluída – no orar pelo concílio tem sido a contraprova. Este déficit poderia levar a uma falência: e isto teria consequências políticas. As mais graves dizem respeito à Rússia. Perder-se-ia o investimento feito pelo patriarca Kyril e por Putin sobre as relações com Roma, já que o Papa não pode escolher seus próprios interlocutores: e Matteo Renzi, que estará no Kremlin dentro de poucas horas e que era prefeito quando a Rússia emprestou um ícone de Andrei Rublev à Itália para celebrar a edição do Concílio de Niceia II, poderia empenhar-se para que Putin aconselhe os ausentes a embarcarem em retardo para Creta.
Para a Rússia está em jogo outra coisa. A antiga esperança da Ucrânia de ver-se reconhecida como autocéfala – isto é, a constituição numa igreja autônoma nacional com respeito ao território canônico de Moscou – seria objetivamente encorajada pelo desmanchar-se da unidade conciliar obtida na Sinaxe e jogaria benzina no fogo da guerra que se combate além do Dnepr, que é também uma guerra de religião entre cristãos.
As outras igrejas que no momento se enfrentam no reenvio-boicotagem da convocação conciliar, que também haviam subscrito, não arriscam pouco: apoiar ou fazer-se apoiar por Moscou as grava de responsabilidades que excedem em muito o peso dos países com os quais se identificam, também em sede europeia.
Por certo a Europa política sequer se deu conta que pela primeira vez um concílio era convocado no seu território: mas, uma Lady Pesc’, como Federica Mogherini e o seu chefe de gabinete Stefano Manservisi, que foi embaixador na Turquia, deveriam saber quanto pesam a ortodoxia e os patriarcas no quadrante balcânico, anatólico, médio-oriental e interno.
O fiasco do Concílio reforçaria de fato as pulsões nacional-autoritárias dos países católicos do ex-império absbúrgico, ajudaria certamente Erdogan, e talvez até o Estado islâmico, que por certo não é intimidado pelas intermitentes lamúrias sobre a perseguição dos cristãos, mas somente pelo risco que a comunhão entre cristãos dê um bom exemplo ao Islã sobre o modo de superar as guerras de religião entre muçulmanos de que Estado Islâmico – ISIS extrai força. A falência do concílio teria, no entanto, rebordos sérios também em Roma.
O Papa Francisco colocou a sinodalidade e a unidade como centro da reforma da igreja e do papado, na lógica toda bergogliana da revolução por normas invariadas; em tempos indefinidos. Se o Concílio Pan-ortodoxo falisse, seria uma vitória para os muitos inimigos e para os fingidos apoiadores da sinodalidade que está no coração da eclesiologia reformadora e do ecumenismo de Francisco.
Assim, o fio da meada retorna às mãos de Bartolomeu, o Patriarca Ecumênico, chegado a Creta ontem na quarta-feira com o sentido grave e a serenidade de quem sabe estar – e não é a primeira vez – ante um momento supremo, um kairós. Bartolomeu, já fez saber que o Concílio iniciará com a celebração do Pentecostes na Catedral de Heraklion, tem como seu um princípio canônico intangível que exige o famoso quod omnes tangit ab omnibus approbari debet [toca a todos e por todos deve ser aprovado] da igreja latina.
Aquilo que é decidido pela Sinaxe de fato não pode ser mudado sem uma decisão da Sinaxe, convocada para a manhã de amanhã (hoje) em Kolymbari. Paradoxalmente, portanto, a solicitação de adiamento torna ainda mais necessário o concílio. O concílio poderia de fato decidir conciliarmente como proceder: se convém esperar os ausentes, com um gesto típico d toda a tradição conciliar; se suspender os trabalhos por algumas semanas ou meses; se reconhecer, como fizeram os bispos católicos no Vaticano II, que o material preparado em Chambesy seja reformulado, porque aquele escrito com a tinta do medo parece para alguns demasiado obscuro e a outros demasiado claro.
Mas, o concílio poderia também tomar ato da falência do seu caráter pan-ortodoxo. E reencaminhar cada um dos Patriarcas a uma solidão mundana, que os tornará menos livres, menos em comunhão e, portanto, por definição, menos cristãos. A decisão sobre o concílio, em suma, caberá a todos os cristãos e a todo o mundo. No mundo onde de global existe somente a divisão, as Igrejas podem apoiar o espírito cismático. Ou então deixar que a encíclica venha fazer soprar em sentido oposto o Sopro que os discípulos sentem somente no coração do Silêncio mais impalpável. Aquilo que falou a Elias sobre o Horeb, aquilo que decide se as Igrejas no mundo são sal ou sal insípido.
Negrito do editor.










Seja o primeiro a comentar