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Monastério de Santa Catarina, construída em 565 d. C, ainda hoje. (Foto: Wikimedia Commons)

Carta do Profeta Maomé (Muhammad) aos monges do Monastério Ortodoxo de Santa Catarina de Alexandria, em Monte Sinai (Egito)

Carta do Profeta Maomé aos os monges do monastério de Santa Catarina de Alexandria, em Monte Sinai, oferecendo proteção à liberdade religiosa e à paz.

Maomé (Muhammad), o profeta do Islã, viveu entre 570-632 (a.D). Os muçulmanos acreditam que ele foi o último profeta da tradição monoteísta abraâmica, que inclui Adão, Noé, Abraão, Moisés e Jesus.

Embora possa parecer surpreendente a muitos, Maomé visitava frequentemente os monges cristãos do  Monastério de Santa  Catarina de Alexandria, em Monte Sinai, localizado na península do Sinai, no Egito. Vale lembrar que, de acordo com as Sagradas Escrituras, foi nesta Montanha Santa que Moisés recebeu as Tábuas da Lei , como indica o livro do Êxodo.

Maomé mantinha um ótimo relacionamento com os monges, com os quais costumava passar horas em demoradas discussões sobre  ciência, filosofia, espiritualidade etc.

No ano 622, Maomé fugiu de sua cidade natal, Meca, na Arábia Saudita, após descobrir que planejavam assassiná-lo. Com seus seguidores (os que deixaram a cidade com ele), fixou-se na cidade de Medina onde estabeleceu oficialmente a religião do Islã. Esta peregrinação ficou conhecida na tradição islâmica como a Hégira.

Monastério de Santa Catarina, construída em 565 d. C, ainda hoje. (Foto: Wikimedia Commons)
Monastério de Santa Catarina, construído em 565 d. C. (Foto: Wikimedia)

Em 626 (de acordo com uma cópia que é conservada no Monastério de Santa Catarina de Alexandria), Maomé escreveu pessoalmente uma carta aos monges ortodoxos na qual lhes informa sobre a garantia de proteção dos direitos dos cristãos e de outros não-muçulmanos de “longe e de perto” que viviam em áreas predominantemente muçulmanas, fazendo saber aos seus seguidores o direito dos cristãos à liberdade de religião e de trânsito no território das comunidades muçulmanas. Declara ainda que lhes era concedida a liberdade de nomear seus próprios juízes e administrar suas propriedades, isentando-os de quaisquer tributos impostos pelo Islã ou por um governo islâmico:

Eles [os cristãos] não devem nada de sua renda, mas podem oferecer o que lhes agrada; não devem ser ofendidos ou perturbados, ou coagidos ou forçados. Seus juízes não devem ser substituídos ou impedidos de desempenhar seus ofícios, nem os monges perturbados no exercício da sua função religiosa… Nenhum imposto ou dízimos deve ser recebido daqueles que se dedicam ao culto a Deus nas montanhas, ou de quem cultiva a Terra Santa”.

Disse também aos seus seguidores que os cristãos estariam isentos de qualquer serviço militar obrigatório em uma comunidade muçulmana, acrescentando que os muçulmanos tinham o dever de protegê-los e lutar por eles em tempos de guerra:

Eles não devem ser obrigados a empreender uma viagem, ou serem forçados a ir para a guerra ou transportar armas (…)

Que as igrejas cristãs, como lugares sagrados, jamais sejam profanadas:

Ninguém está autorizado a pilhar os peregrinos, destruir ou estragar qualquer de suas igrejas ou casas de culto, ou tomar qualquer das coisas contidas no interior destes lugares sagrados, trazendo para o Islã. O que assim procede, corrompe o juramento de Deus e, na verdade, desobedece Seu Mensageiro.

A foto deste documento histórico (abaixo) não é original, mas  cópia de um original do século XVI,  versão que, provavelmente, recebeu ligeiras interpolações ao texto originalmente escrito  por Maomé em 626.

Dr. Aziz Suryal Atiya, professor de História Medieval na Universidade Farouk, participou de uma expedição ao Monastério de Santa Catarina, em Monte Sinai, quando desenvolvia um projeto de pesquisa que investigava a história do monastério e a autenticidade do documento. Observa este cientista que:

Depois da conquista árabe do Egito, em 640 a.D, foi dito que o Profeta Maomé havia estabelecido com os monges de Monte Sinai um pacto pelo qual assegurava a proteção de suas vidas e as propriedades em território muçulmano. De acordo com uma tradição, a carta original teria sido retirada do Monastério pelo sultão Selim I, após a conquista otomana do Egito em 1517. O sultão, no entanto, deu aos monges uma cópia do mesmo com um documento que atestava sua autenticidade.

carta-mohammedA cópia que agora se encontra no monastério é cópia da cópia autenticada, concedida pelo sultão depois que assumiu o original em 1517 (supostamente, para mantê-la em segurança em seu palácio em Constantinopla (atual Istambul), o que levou alguns a questionar a sua autenticidade. No entanto, a premissa básica da carta parece ter sido mantida ao longo dos anos, apesar de todas as pequenas alterações que possam ter sido feitas, tendo passado por diferentes mãos. De qualquer modo, o fato de que Monastério de Santa Catarina exista há quase 1.500 anos, sobrevivendo a inúmeros governantes diferentes (tanto cristãos como muçulmanos) e tempos de amargos conflitos religiosos no Oriente Médio, certamente diz muito sobre o respeito mútuo das religiões neste solo sagrado.

Fonte: The Higher Learning

Foto: Wikipedia

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