MOSCOU, Rússia, 10 de novembro de 2015 — O Patriarca Kirill, de Moscou e Toda a Rússia, encontrou-se na última terça-feira, 10 de novembro, com o Patriarca de Antioquia e de todo Oriente – Primaz universal da Igreja Ortodoxa Siríaca (Comunhão Ortodoxa Oriental). O evento teve lugar no Monastério Danilov, residência oficial do Patriarca russo. O Patriarca Inácio Aphrem II estava acompanhado de uma delegação de alto nível da Igreja Siríaca Ortodoxae, da Igreja Russa, além do Patriarca Kirill, participaram o Metropolita Hilarion de Volokolamsk, Presidente do Departamento de Relações Exteriores e outros dignitários do clero. Na pauta das reuniões o principal tema era a atual situação na Síria, no Iraque e no Oriente Médio em geral. O Patriarca Inácio Aphrem II agradeceu ao Patriarca Kirill pelo continuado apoio que tem dado à Síria e ao seu povo, particularmente, no caso do sequestro dos Arcebispos de Aleppo, Metropolitas Gregorius Youhanna Ibrahim e Boulos Yaziji.
Trata-se de uma visita histórica, assim como foi a de 1998, quando o falecido Patriarca Inácio Zakka I Iwas, de Antioquia, visitou a Rússia por ocasião da comemoração do milênio do Batismo de Kiev Rus.
As relações entre as duas igrejas passaram a se desenvolver rapidamente na segunda metade do século XX. Contudo, isto não quer dizer que não tenha havido contatos e relações anteriores a este tempo entre a Rússia Ortodoxa e a Igreja sírio-Jacobita. “Imediatamente após a adoção do cristianismo pelos nossos antepassados, um grande número de peregrinos de nosso povo acorreu ao Oriente Médio – Síria, Palestina e Iraque – visitando os lugares sagrados e reunindo-se com os filhos de vossa Igreja, estabelecendo vínculos de fraternidade e proximidade humana”, – Observou o Patriarca Kyrill. Recordou ainda S. Santidade que, “nos últimos tempos, sempre que a vida dos cristãos no Oriente era ameaçada, a Rússia sentiu-se no dever de oferecer sua ajuda. Hoje, as comunidades cristãs no Oriente Médio passam por um momento particularmente grave e muito difícil. Tal sofrimento pode ser comparado aos dos primeiros cristãos, submetidos a perseguição do governo pagão romano, porém com algumas diferenças: os romanos não destruíam casas ou assentamentos, enquanto os atuais inimigos do cristianismo destroem casas e aldeias inteiras. Milhares de cristãos são permanentemente expulsos de seus lares”, disse o Patriarca.
O Primaz da Igreja Ortodoxa Russa fez referência ainda às terríveis estatísticas das vítimas desta tragédia humana, homens, mulheres e crianças que são forçados a abandonar seus lugares de origem por causa de sua fé cristã. Prosseguiu expressando sua preocupação com o destino dos metropolitas de Alepo, D. Paul Yaziji – Igreja Ortodoxa de Antioquia -, e D. Yuhanna Ibrahim – Igreja Siro-Jacobita -, este último a quem conhecia pessoalmente há décadas. Os dois hierarcas foram sequestrados por extremistas no nordeste da Síria há mais de dois anos e não se têm qualquer informação confiável sobre seus destinos, tampouco se ainda permanecem com vida.
Referindo-se a visita que fez à Síria e ao Líbano em novembro de 2011 – época do início deste conflito -, Kirill afirmou ter se encontrado então com líderes das comunidades cristãs locais, e que, à essa altura, já manifestavam abertamente preocupação de que a guerra traria terríveis consequências para a população cristã local. No Líbano, disse o Patriarca, ouviu testemunhos chocantes de representantes das comunidades cristãs, tradicionalmente associadas ao Ocidente, que expressavam a sensação de abandono e desamparo, isso para não mencionar os cristãos que não eram associados ao Ocidente. Aquelas palavras, segundo Kyrill, penetraram profundamente em seu coração e impulsionaram iniciativas no sentido de sensibilizar e mobilizar pessoas para a necessidade de levar proteção e apoio aos cristãos do Oriente Médio. O tema, segundo o Patriarca, tem estado na pauta das sessões do Santo Sínodo e nas de suas reuniões com os chefes de Estado e de organizações internacionais. O Patriarca relatou ao seu ilustre convidado as atividades que Igreja Ortodoxa Russa desenvolve na organização e envio de ajuda humanitária para a região atingida pelo conflito, em articulação com o Patriarca João X de Antioquia e com o Grande Mufti da Síria, Ahmad Badr Al-Din Hassoun, para distribuição às vítimas. “Nós sabemos”, disse o Kirill, “quanto a Igreja Siro-Jacobita tem sofrido e o que já perdeu como consequência desta guerra, especialmente nos distritos de Aleppo e Homs, tanta destruição, incluindo a de importantes igrejas históricos que guardavam preciosas relíquias”. Mesmo assim, expressou sua esperança de que aquele encontro fortaleça ainda mais as relações entre as duas Igrejas, trazendo um pouco de conforto à situação dramática vivida pelos cristãos no Oriente Médio.
Por sua vez, o chefe da Igreja Siro-jacobina expressou, em seu nome e em nome de todos os seus irmãos do Oriente Médio, o agradecimento pelo convite da Igreja Ortodoxa Russa para aquela visita nas difíceis condições em que sua Igreja se encontra. Hoje, disse Patriarca Inácio Ephrem, viemos de Damasco, cidade do Apóstolo Paulo, Ananias e muitos outros santos, um dos mais antigos lugares habitados da terra. Viemos aqui trazendo conosco a dor de nosso sofrido povo sírio, com suas aspirações e esperanças”. Referindo-se ainda ao sofrimento do povo da Síria e do Iraque, sublinhou que “sofremos por causa da propagação do terrorismo e do extremismo, trazidos ao nosso país a partir do exterior e que ameaçam a presença dos cristãos em todo o Oriente Médio”. […] “Este ano marca o centésimo aniversário do genocídio da população cristã no Império Otomano. Há cem anos atrás, muitos de nossas comunidades Siro-jacobitas fugiam do terror e da cruel perseguição contra os cristãos e encontravam proteção na Rússia. Gostaríamos de lhe agradecer, Santidade, pelo fato de podermos contar mais uma vez neste momento difícil com vossa solidariedade e seu ombro amigo, e pelo apoio e contínua contribuição em vista de encontrar uma solução pacífica para o conflito na Síria, e pela assistência humanitária que a Igreja Ortodoxa Russa tem dado ao nosso povo”.
Por fim, o Patriarca Efraim chamou a atenção para o problema dos refugiados nas áreas de conflito, muitos deles, membros das comunidades cristãs perseguidas. “De acordo com nossas estimativas, mais de quarenta por cento dos cristãos fugiram da Síria”, disse o Patriarca […] “Muitos de nossos irmãos e irmãs estão começando a perder a esperança. Perguntam-se, se é possível ainda esperar por algum futuro, se conseguirão permanecer na terra onde seus ancestrais viveram por milhares de anos, antes e depois do advento do Cristianismo […] Em Nínive, no Iraque, num piscar de olhos, 150 mil pessoas perderam suas casas e agora estão em campos de refugiados, na parte curda do país. Há quase dois anos esperam pela ajuda prometida do Ocidente, mas até agora este apoio não chegou”. […] “Por tratar-se de países que não dispõem de reservas petrolíferas ou outros recursos naturais, parece que nosso destino não interessa às grandes potências, embora também sejamos pessoas”, lamentou o Patriarca Inácio Ephrem.
Durante a conversa, os Líderes religiosos trataram ainda das perspectivas de diálogo bilateral e da contribuição que a Igreja Russa pode oferecer na articulação e promoção do diálogo entre os cristãos ortodoxos e as antigas Igrejas orientais, em curso desde o final de 1980 no âmbito do diálogo teológico oficial. Também discutiram sobre vários outros aspectos relacionados à possível cooperação entre a Igreja Ortodoxa Russa e as Igrejas Siro-jacobitas.
Pe. André Sperandio
Com informações de: DECR Serviço de Comunicação
Fotos: Patriarchia.ru















Seja o primeiro a comentar