Apresentada no Vaticano a versão italiana do livro “A palavra do pastor”, do patriarca Kirill.
Por Giuseppe Rusconi
Cidade do Vaticano, 21 de Setembro de 2015 (ZENIT.org) — Vontade de avançar juntos em tempos tempestuosos por causa do ataque implacável do laicismo niilista, apesar das diferenças teológicas e, especialmente, apesar da velha questão sobre o exercício do primado do Bispo de Roma. É mais importante que o papa Francisco e o patriarca Kirill, de Moscou, estejam unidos espiritual e materialmente na defesa dos valores humanos e cristãos.
Este poderia ser o resumo da apresentação, feita no Vaticano no fim de tarde da sexta-feira, 18 de setembro, do livro “A palavra do pastor”, cujo autor é o Patriarca de Todas as Rússias, Kirill. Estiveram presentes o Metropolita Hilarion, que preside o Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, e o Cardeal Gerhard Ludwig Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
O livro, como recordado por Hilarion, recolhe os pronunciamentos de Kirill desde 1994 no programa “A palavra do pastor”, da televisão russa, e foi publicado pela Livraria Editora Vaticana em conjunto com as edições do Patriarcado de Moscou e com a Academia Scientia et Sapientia, cuja presidente, Giuseppina Cardillo Azzaro, cuidou da versão italiana do livro lançado em 2008 e hoje traduzido para várias línguas. A apresentação, introduzida por Giuseppina com a leitura de uma mensagem do Cardeal Secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, foi moderada pelo ex-reitor da Universidade Católica Lorenzo Ornaghi e contou com os cumprimentos da embaixada russa junto à Santa Sé, representada por Vadim Razumovskiy.
Razumovskiy disse que o livro é “fruto de um verdadeiro pensamento cristão” e fez votos de que a obra leve “a um desenvolvimento mais positivo do intercâmbio entre católicos e ortodoxos”, destacando a importância da recente visita à Rússia do cardeal Kurt Koch , presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos.
O Cardeal Müller definiu Kirill como “um teólogo ilustre, de grande espiritualidade, precioso para estabelecer uma ponte entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa” no caminho da unidade da única Igreja. Entre católicos e ortodoxos, destacou o prefeito, “há plena compatibilidade” da Doutrina Social, resultante “da mesma antropologia fundada na dignidade de cada pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus”. O cardeal quis recordar a emoção que sentiu quando, em nome da Conferência dos Bispos da Alemanha, participou da entronização do patriarca Kirill na Catedral do Cristo Salvador, em Moscou: uma igreja esplêndida, que “une a memória da vitória de 1812 sobre Napoleão e da destruição causada em 1931 por Stalin”. Sobre as bases da catedral, o ditador comunista quis construir um monumento de 415 metros de altura (mas não conseguiu). A catedral foi depois reconstruída e dedicada em 2000 como símbolo da vitória sobre a violência. Durante a liturgia de entronização de Kirill, o então bispo Müller não se sentiu “nem estrangeiro nem hóspede”, tamanha era a evocação mística do Altíssimo.
O prefeito da Doutrina da Fé se perguntou, à semelhança do que Kirill fez no livro apresentado, qual é a diferença entre as tentativas de suprimir a Igreja no regime soviético e “nos projetos atuais da cultura ateísta do Ocidente”. O laicismo ocidental de hoje “é uma emanação política do niilismo filosófico, do materialismo ateu”, já utilizado contra a Igreja Russa, que ainda hoje é “injustamente atacada” no Ocidente: ela é repreendida, erradamente, por querer levar a Rússia de volta ao período pré-revolução. Müller recordou as promessas soviéticas de criar o “paraíso na terra”, quando, na realidade, o que foi criado foi “um inferno antecipado”. Por isso, temos de “aceitar com muito favor os esforços da Igreja Ortodoxa Russa para reintroduzir a lei natural como a base da sociedade”.
O volume de Kirill inclui uma centena de capítulos que “dão ao povo de Deus uma belíssima cosmologia crística, realizada organicamente em cada uma de suas partes” (Giuseppina Cardillo Azzaro). Sobre o conteúdo do livro (que vai do Gênesis até a morte e ressurreição de Jesus), o cardeal alemão não tem dúvidas: “Eu o li de um só fôlego e me declaro pessoalmente de acordo com todos os argumentos de Kirill. As reflexões do autor podem ser comparadas com as de Bento XVI sobre Jesus de Nazaré” e com as meditações do Papa Francisco.
“Eu acredito que Kirill e o papa Francisco já se encontraram em Cristo, a quem ambos pregam todos os dias, independentemente de qualquer encontro físico em algum lugar da Europa”. É claro que subsistem diferenças entre católicos e ortodoxos, “reservas históricas e sistemáticas”, em especial quanto ao exercício do primado do Bispo de Roma, mas “hoje é necessário o testemunho comum de Cristo, o Redentor do mundo”.
Não obstante a distinção das responsabilidades da Igreja e do Estado (que Kirill explica bem no seu livro), a Igreja, disse o Cardeal Müller, “tem o direito e o dever de levantar a voz quando o poder do Estado desafia a lei natural”. É um incentivo claro àqueles que não se resignam a um ajuste fácil e irresponsável ao pensamento dominante em muitos âmbitos políticos, culturais e midiáticos.
O Metropolita Hilarion, por sua vez, falou do autor e da sua frenética atividade em toda a Rússia. Kirill é bem consciente da sua responsabilidade histórica e eclesial e, do seu livro, transparecem as qualidades do pastor. A antologia de breves textos escritos para a TV da Rússia foi composta não só para benefício dos ortodoxos: é um contributo importante para o desenvolvimento das relações com os católicos. Mais ainda: o volume é voltado ao “homem contemporâneo”, rico das “verdades eternas” cuja busca atravessa toda a história da humanidade.






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