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Pronunciamento do Cônsul Honorário da Grécia por ocasião da outorga do título de Arconte Oficial da Igreja Ortodoxa

Pronunciamento do Professor Constantino Comninos, Cônsul Honorário da Grécia em Curitiba, com jurisdição para os Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, por ocasião da outorga do título de Arconte Oficial da Igreja Ortodoxa da Ordem de São Bartolomeu Apóstolo por ato de Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla. Curitiba, 05 de dezembro de 2010


Curitiba, 05 de dezembro de 2010

«Ο τιμώνεαυτόν τιμά».

«Quem honra os outros, honra a si mesmo».
São João Crisóstomo,
(in Homilias sobre os atos dos apóstolos)

constantino-comninos1Percorrendo os caminhos da máxima de São João Crisóstomo, cumpre-me, neste momento significativo de minha vida, pronunciar algumas palavras. Se alguém me perguntar o porquê desta homenagem, confesso, eu não saberia responder de imediato. Dito latino diz que “comenda não se pede, não se rejeita e não se usa”. Posto que, neste caso, ao aceitá-la, ao outorgado está implícita a responsabilidade que ela encerra, haja vista a sua origem, por concessão, firmada por Ato Patriarcal de Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla, representante máximo e primus inter paris da Ortodoxia. Saliento que devo esta homenagem pela indicação de Sua Eminência Reverendíssima Dom Tarásios, Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese Ortodoxa Grega de Buenos Aires, Primaz e Exarca da América do Sul. Agradeço a Sua Santidade o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I e a Sua Eminência Reverendíssima Dom Tarásios, a outorga deste título, que considero acima de tudo um gesto de nobreza, bondade e que muito me honra.

Manifesto os meus cumprimentos à Diretoria da Associação Helênica do Paraná, estendendo-os a todos os membros da Comunidade Helênica deste Estado, que me distinguem nela estar integrado. Ao Proto-presbítero Reverendo Panaghiótis Meintánis, pároco desta Igreja, com quem venho colaborando faz alguns anos nas medidas do possível e, diga-se grata participação, os meus respeitos.

Este título me preocupa, pois, na qualidade de Arconte Oficial da Santa Igreja Ortodoxa na Ordem de São Bartolomeu Apóstolo conforme cânones leiam-se função, ofício, serviço, posição, indica o peso da responsabilidade maior desta investidura. Explico. Trata-se de conceito nobiliárquico, na acepção de axiomas políticos e que no período bizantino tornaram-se axiomas eclesiásticos. Desta feita, uma vez portador de Cruz e Diploma Patriarcal, percebo que simbólica e efetivamente se define na guarda, na prática e difusão dos ensinamentos do Cristianismo e das questões laicas da Igreja Ortodoxa Grega. Sob a égide destes princípios, procurarei dar de mim tudo o que estiver ao meu alcance, para desempenhar esta missão nos preceitos estatutários que norteiam os objetivos maiores de seu significado apostólico.

Entretanto estar, diria melhor ser Arconte nominado como “Guardião da Fé Ortodoxa na Igreja Local de Curitiba”, nesta ordem honorífica e expressa nas palavras de Dom Tarásios, é de meu entendimento, e como a sociologia sugere, estou sendo incorporado a um grupo, cujas atribuições me levam a assumir tarefas que este status vem exigir. Que Deus me dê forças para que eu possa cumprir os papéis desta Ordem, com humildade, modéstia e simplicidade, e com o respeito e a obediência devidas às hierarquias. Considerando minha origem batismal e dado o crédito desta imposição, declaro a minha crença nos ensinamentos da Igreja, na palavra do Cristo Jesus, cuja presença i parousia – (in PAULO; Mt 24; Mc 13; Lc 21), entre nós mortais e cristãos, é o sustentáculo de nossa fé.

Rogo-lhes, permitam-me expor algumas considerações. Na tentativa de responder o porquê da outorga deste título, em minha humilde percepção, quero crer, que a análise de alguns pontos dos bons caminhos por mim percorridos, devem ter influenciado na escolha, prevalecendo a minha dedicação nas fronteiras do possível, às causas da Igreja Ortodoxa Grega, ao meu envolvimento há alguns decênios às questões da helenidade e as tarefas que venho desempenhando frente às funções honoríficas consulares. É evidente que este fato não teria acontecido, se eu não tivesse nascido em lar grego, onde a vivência da helenidade, isto é, o aprendizado da língua grega, a observância dos fatos históricos da “grecidade” e o respeito aos mistérios e a preservação do Cristianismo Ortodoxo Grego, tripé que assegura a identidade grega, eram práticas do dia-a-dia.

De outro lado, minha convivência com os gregos oriundos após a Segunda Guerra Mundial, a maioria de saudosa memória, alguns deles Arcontes, aos quais homenageio, pois meu conhecimento sobre a vivência da helenidade na diáspora e o papel das associações helênicas – as kinótites -, muito com eles apreendi.

Seguindo outros traços de minha vida, lembro, in memoriam, minha mãe, Afrodite Comninos, que deixou Smyrna no dia 14 de setembro de 1922, dia este consagrado à Exaltação da Cruz de Cristo. Dona Afrô, como era conhecida, muito deu de si para esta comunidade. Entre tantas obras marcantes de sua dedicação às causas da Igreja Ortodoxa, recordo sua altivez como incentivadora da Liga Filantrópica, fundada com a presença de um grupo de senhoras gregas que se encontravam em nossa casa no Dia da Apresentação de Nossa Senhora no Templo – Ta Issodia tis Iperagias Theotókou -, aos 21 de novembro de 1954, conduzindo os destinos desta organização por aproximadamente 20 anos. A título de esclarecimento, esta Liga Filantrópica foi criada antes mesmo da fundação da Associação Helênica do Paraná. E de meu pai, Cosmos Comninos, ascendente da mais meridional ilha grega, Kastellorizo, Megisti desde a antiguidade, poliglota, de cultura invejável, leitor assíduo dos autores clássicos e estudioso de temas religiosos e de quem sempre recebi o incentivo à leitura. Quanto ao conhecimento da ortodoxia e da prática da vida comunitária grega, este débito é para com meu sogro, Professor Estefano Lambros. Conhecedor dos mistérios da Igreja Ortodoxa, sempre conduziu todos nós da família aos significados da prática religiosa da ortodoxia, da língua grega e do civismo pátrio, elos indissolúveis do ideário grego, que a diáspora vem exigir.

Sem dúvida alguma, outra face que singulariza esta honrosa homenagem, tem origem em meu vínculo matrimonial com a Maria. Mulher de fé inigualável, praticante dos mistérios da Igreja Ortodoxa Grega e preocupada com suas demandas. A perspicácia para temas culturais de Maria completa sua cultura como estudiosa e professora da língua, da literatura, da mitologia e do teatro clássico gregos. Eu não me encontraria nesta assembléia para momento tão especial em nossas vidas, sem as virtudes que lhe são peculiares como a determinação, a perseverança, a paciência, a compreensão, o carinho e seus sábios conselhos, que dominaram em muitas ocasiões minha impetuosidade mediterrânea, ao longo de meio século de vida em comum.

Iniciando meu caminhar nas trilhas das atribuições de Árconta do Patriarcado, sigo expondo. No cumprimento dos deveres de Apóstolo da Presença Cristã no Hemisfério Sul, Sua Eminência Reverendíssima Dom Tarásios, manifestou, recentemente, a sua preocupação com a fé cristã, em texto cujo título fala por si só: “Breves Reflexões em Torno da Situação da Ortodoxia na América do Sul”. É um documento pastoral ímpar e profundo, onde com coragem, diplomacia e fé apostólica, Dom Tarasios alerta a situação do cristianismo com ênfase à ortodoxia. Refere-se às boas relações do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla com a Igreja Católica Romana. Perspicaz e visionário situa a problemática que envolve as igrejas cristãs tradicionais e recomenda, com respeito pastoral, a unidade cristã integrada aos vários ramos do ecúmeno apostólico, razão de ser de nosso presente e de nosso futuro como seguidores de Cristo. Enfatiza sobre a formação de bons sacerdotes, e que estejam preparados para compreenderem as necessidades dos paroquianos e de seus descendentes que vivem em um mundo moderno repleto de armadilhas. Cita, com vigor, os programas de catequeses e pastoral para atender principalmente aqueles que se afastaram e fazer com que retornem ao convívio da mensagem do Salvador. Ponto crucial destas reflexões, Dom Tarásios expõe as dificuldades que se encontram as nossas comunidades, como mantenedoras, guardiãs e sustentáculo das igrejas ortodoxas gregas. E nos convoca como fiéis, a união comunitária, augurando a necessidade da práxis religiosa pelo engajamento de todos nós. Afirmo que é imprescindível para todos os membros que integram as comunidades gregas do hemisfério, seguir a liderança de nosso Pastor, Primaz e Exarca nesta tarefa. Com o devido acatamento, concito todos os gregos e descendentes que compõem o ecúmeno helênico das Américas Hispânica e Portuguesa, para que, em consonância à causa cristã comunitária, possamos dar mesmo o pouco que temos para atingirmos os objetivos que o cristianismo, como crença herdada e presente, seja professada apostolicamente, em auxílio às diretrizes que norteiam a obra arquidiocesana de Dom Tarásios na imensa área de sua jurisdição.

Agradecendo a Visita Pastoral de nosso Arcebispo a esta comunidade, expresso a minha admiração para com Dom Tarásios, pela sua cultura, preparado para as funções que o Patriarcado Ecumênico confiou, batalhador das causas da Igreja que representa com a energia e a dedicação que lhe são próprias, e, em nome de todos nós que integramos as comunidades gregas do sul brasileiro, e particularmente em meu próprio nome, rogamos a Deus que lhe dê muitos anos de vida (póla ta éti déspota), para que possa dar continuidade à sua meritória obra arquidiocesana.

Muito me alegra receber esta honraria no Dia Consagrado ao Padroeiro desta casa, São Savas, diplomata e peregrino da Fé Cristã na Ásia Menor. Que Deus nos proteja sob as bênçãos de Nossa Senhora a Guardiã, augurando a São Savas, a São Nicolau e aos Santos Apóstolos, Padroeiros das Comunidades do Sul do Brasil, que nos dêem força e determinação, para que de mãos dadas, possamos todos juntos batalhar por esta obra que é tanto apostólica como comunitária, tal qual “os operários da vinha (in Mt, 20: 1 – 16)”, no intuito de merecermos os mesmos denários, mesmo chegando para o trabalho na undécima hora.

Obrigado pela paciência em me ouvir.

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