21/10/2011 — Vladímir Ruvínski, Gazeta Russa — Ator e músico, Piotr Mamonov é uma figura emblemática na Rússia. Começou sua carreira de artista de acordo com a tradição da contracultura vanguardista e acabou vivendo na clausura em uma aldeia remota da região de Moscou, adepto da religião ortodoxa. Mesmo assim, não deixou de ser artista procurado e apreciado por muitas pessoas. O correspondente da Gazeta Russa tentou encontrar explicações para seu fenômeno.

Uma noite estrelada no sul da Rússia. No banco, está sentado, curvado, um homem idoso, magro e careca, quase sem os dentes da frente, de jaqueta cinza e sapatos simples, parecido, ao mesmo tempo, com Steve Jobs e o rei russo Ivan, o Terrível. “O mundo é um organismo único, se uma célula dói, todo o corpo dói, se me dói um dente, eu estou todo doente”, diz Pioter Mamonov, figura icônica do rock underground russo da década de 1980.
Atuou na banda “Zvuki Mu” (Os Sons Mú) com a qual trabalhou o famoso produtor Brian Eno que já disse sobre Mamonov: “Nunca tinha visto nada parecido. Ele é um homem obcecado”. Com a obra de Mamonov cresceu o punk russo, dizem críticos. No teatro, Mamonov, homem de plástica mágica e temperamento furioso, criou seu próprio gênero: um mono-espetáculo absurdista, que faz sempre sucesso de bilheteira.
Mas essa vida impetuosa ficou no passado: agora ele sai muito rararamente de sua aldeia remota na região de Moscou, onde vive há mais de 15 anos com sua mulher. Voltou-se para a religião cristã e minimizou seu contato com o mundo externo. “Aos 45 anos de idade, fiquei em um impasse, pensando sobre o que viemos fazer nessa terra. Então me veio a fé cristã e o Senhor me ajudou a entender porque eu vivo”, diz Petr Mamonov.
O público não se esqueceu dele. Seus raros concertos em Moscou tem sempre casa cheia. Mamonov toca suas canções anteriores à sua conversão para o cristianismo, dizendo que assim mostra como não se deve viver. Toca dois acordes, no máximo, em uma caríssima guitarra Gibson e diz textos irônicos, às vezes quase sarcásticos. Críticos chamam, brincando, esse gênero de “blues russo”. Seus concertos reúnem não só seus admiradores como também o público de cinema.
Atualmente, Mamonov é mais conhecido como ator de cinema e santo louco, ao qual é permitido dizer tudo o que pensa. Por exemplo, em 2006, na cerimônia de entrega do prêmio de Melhor Ator por seu desempenho do papel de monge eremita no filme “A Ilha”, Piotr Mamonov compareceu de blusa de tricô, jeans e sapatênis e disse, humilde e gaguejante, ao público que enchia a sala, que os problemas reais da Rússia eram espirituais e que nenhum dos presentes se importava com isso. “Será que Púitn deve resolvê-los? Pútin é fraquinho, o que ele, agente de serviços secretos, pode fazer? Cabe-nos a nós lidar com isso!”, declarou Mamonov, deixando confuso o público na sala, e acrescentou: “Todas suas músicas, filmes, tudo será esquecido”.
Petr Mamonov nasceu em 1951, no centro de Moscou, filho de um engenheiro e uma tradutora. Em meados da década de 1960, convoca, inspirado nos Beatles, sua primeira banda e se torna um dos hippies mais famosos de Moscou por seus gostos artísticos extraordinários e suas extravagâncias que logo se tornam conhecidas na cidade. No teatro, Mamonov apresenta mono-espetáculos em que encarna ou um chimpanzé ou um réptil gigante ou simula ataques epilépticos. O público admirador deu à sua obra uma designação clara e muito expressiva: “alucinação popular russa”. Na década de 1980, Petr Mamonov chega ao auge da popularidade e sua vida se resume, segundo confessa ele próprio, a duas coisas: o vinho e as mulheres. Após o lançamento, em 1989, do álbum “Os Sons Mú”, gravado em Londres, Mamonov se recolhe e dissolve seu grupo.
Em 1988, ele fica famoso como ator de cinema depois de representar um chefão narcotraficante no filme soviético “A Agulha”, com Víktor Tsoi (ídolo do rock russo da década de 80) no papel principal. Ficou internacionalmente célebre ao interpretar um papel no filme “Taxi- Blues”, de 1990, de Pável Lunguin, que ganhou no Festival de Cannes o prêmio de Melhor Diretor. Continuou trabalhando com Pável Lunguin nos dois filmes subsequentes do diretor: “A Ilha” e “O Czar”, que levaram vários prêmios nacionais e internacionais.
Se no primeiro filme ele viveu, de fato, sua própria vida, no segundo, representou o rei russo Ivan, o Terrível, famoso por sua сrueldade. Recentemente, estrelou o filme “Sow Chapiteau”, grande sucesso deste ano na Rússia e premiado no Festival de Cinema de Moscou. Uma outra ocupação de Petr Mamonov é a literatura: suas traduções do inglês e norueguês foram incluídas em antologias literárias da União Soviética.
Recentemente, aprendeu um novo gênero literário: aforismos cristãos.
Encara sua obra sem piedade: “Comprei recentemente um disco de Solomon Burke, famoso músico norte-americano de soul. Tem 21 filhos, 79 netos e 17 bisnetos. Sua família é de 300 pessoas! Isso, sim, é uma vida de verdade! E os filmes, canções, etc. são coisas passageiras”.
“Estou atolado em um pântano gritando: não venham aqui!”
Durante a conversa, ele explica que se aproveita de sua popularidade para ajudar as pessoas a se aproximar de Deus. “Eu sou um homem crescido, tenho 60 anos, vivi essa vida e estou prestes a morrer. Somos todos parentes de Adão. Como é que posso não dizer a meus parentes o que compreendi sobre essa vida?”, diz Petr Mamónov. Compreendeu que o homem é orgulhoso e que o orgulho obscurece a mente, que Deus é o essencial e que as pessoas pecando se afastam dele, algumas bebendo vinho, outras invejando drogas, outras ainda mentindo. Compreendeu que o homem é criador e que dele depende o que ele vai criar: o bem ou o mal. A escolha é sua.
Diz isso com calma, em voz baixa sem tensão nem narcisismo. Quando uma pessoa fala com tanta facilidade sobre essas coisas, você percebe que toda a sua vida é uma luta consigo mesmo e que ele nem sempre é o vencedor. “Estou atolado em um pântano gritando: não venham aqui!”, diz Mamonov.
“Não estou em uma montanha pregando, estou atolado em um pântano até a cintura gritando: não venham aqui!” Depois de pensar um pouco, acrescenta: “Todos nós caminhamos por vias indiretas e desvios. Sou um bom exemplo de um homem que caminhava por desvios. Agradeço a Deus por ter me trazido para uma fonte certa. Mas podia não me ter trazido para lá”.




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