Apofatismo e formalismo

Na língua de hoje, a palavra ortodoxia tem o significado de adesão a um dogma, a uma ideologia tomada ao pé da letra. Equivale, mais ou menos, ao conservadorismo, ao apego firme a formas transmitidas. É ortodoxo aquele que permanece fiel à formulação verdadeira e autêntica de um ensino, em oposição aos que alteram o seu significado inicial e que se afastam dele.
Assim, toda ideologia dogmática – religiosa, social ou política – esconde sua própria ortodoxia. Por exemplo, fala-se de ortodoxia luterana, freudiana ou marxista, para designar o apego (conservador, e em geral estéril) às formulações de Lutero, Freud ou Marx, um apego contraposto às interpretações ulteriores e às transformações criativas das ideias originais.
Invoca-se ordinariamente a ortodoxia gabando-se de ser fiel ao verdadeiro e autêntico. Isto traduz a exigência de um reconhecimento comum e de um respeito dos valores transmitidos, mas também em relação aos homens que os preservam e representam. Assim a ortodoxia chega a funcionar como um meio de justificação útil, não tanto para as ideias conservadoras, quanto para pessoas conservadoras, servindo para mascarar psicologicamente uma falta de audácia ou uma esterilidade espiritual. Aqueles que não ousam ou não podem criar algo novo na sua vida se agarram fanaticamente a uma certa ortodoxia. Tiram dela um peso, uma autoridade e, finalmente, um poder, se tornando representantes intendentes da autenticidade, defensores das formas, intérpretes da letra. Acabam transformando a dita ortodoxia num “leito de Procusta” sobre o qual amputam a vida para adaptá-la às exigências do dogma.
Esta interpretação da ortodoxia e os sinais que a acompanham são consequência de uma certa concepção da verdade e das possibilidades de aceder a ela. Ela pressupõe a capacidade para o homem de deter individualmente a verdade e, portanto, de transformá-la num objeto que ele poderá dominar.
Para poder ser transformada num objeto possuído, a verdade tem que ter um caráter dado e definitivo, se identificar à sua formulação, à “letra” mesma da sua formulação; a verdade deve encontrar seus limites inamovíveis dentro da sua formulação. A identificação com uma formulação definitiva objetiviza a verdade. Faz dela um objeto que a inteligência pode possuir e dominar. Assim, a forma perfeita de posse da verdade é o apego à ortodoxia, à objetivação inicial e autêntica.
Semelhante concepção da verdade e das possibilidades de aceder caracteriza e também funda a nossa civilização atual, a civilização chamada “euro-ocidental”, de dimensões universais. Todavia, ela não tem relação nenhuma com a Igreja e a ortodoxia eclesial.
O apofatismo da verdade eclesial, de que falamos nas páginas anteriores, exclui toda concepção objetivada da ortodoxia. A verdade não se esgota na sua formulação, que nada mais é do que uma fronteira-limite da verdade, um “envelope” ou uma “salvaguarda” daquela. A realidade que nunca é desmentida nela mesma, é verdade. A vida que não é abolida pela morte é verdade, e de maneira última. Por isso, o conhecimento da verdade não se obtém pela compreensão das formulações, mas pela participação no evento da verdade, na verdade da vida, na imediaticidade da experiência […] Continue lendo.






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