A última homilia de Ioannis Zizioulas
A Igreja e o mundo — texto preparado para 30 de janeiro de 2023 (não pronunciado)
Atenas — Passaram-se três anos desde a partida do grande teólogo ortodoxo Ioannis Zizioulas, Metropolita de Pérgamo, ocorrida em 2 de fevereiro de 2023, aos 92 anos.
Considerado por muitos um dos mais originais e fecundos teólogos cristãos entre os séculos XX e XXI, Zizioulas marcou a reflexão eclesiológica contemporânea por uma leitura penetrante e coerente da Tradição dos Padres Gregos, da qual extraía, com vigor, a centralidade da Eucaristia e da escatologia — a Igreja caminhando não apenas pela memória do passado, mas também pela esperança do “futuro prometido”.
No dia 30 de janeiro de 2023, ele deveria proferir uma homilia na Metrópole de Peristeri, por ocasião da celebração dos Três Hierarcas. Porém, tendo sido internado em 28 de janeiro por complicações relacionadas à Covid-19, não lhe foi possível pronunciá-la; dois dias depois, iniciou sua jornada para o lar eterno.
Agora, por ocasião do terceiro aniversário de seu repouso, o site grego Fós Fanariou (Φως Φαναρίου) divulgou o texto grego da homilia, sob o título “A Igreja e o mundo”, com nota editorial de Nikos Tzoitis, recordando também a repercussão internacional que o texto recebeu.
A seguir, apresentamos uma versão em português, revisada para publicação, e em seguida a homilia na íntegra, traduzida do grego publicado no Fós Fanariou. Fontes indicadas ao final.
Homilia na íntegra (tradução para o português)
Metropolita Ioannis de Pérgamo: “A Igreja e o mundo”
A nota editorial que acompanha a publicação grega informa que este texto foi preparado para ser proferido em 30 de janeiro de 2023, em homenagem aos Três Hierarcas, na Metrópole de Peristeri, mas não chegou a ser pronunciado.
A Igreja no mundo: conclusões a partir dos Três Hierarcas
O estudo da obra dos Três Hierarcas conduz-nos a certas conclusões sobre a condição da Igreja no mundo.
Não há dúvida de que os Três grandes Padres, que hoje honramos, influenciaram profundamente a cultura de seu tempo — e não apenas. Em particular, influenciaram a chamada cultura bizantina e a cultura dos povos que, em sua maioria, pertencem à Igreja Ortodoxa, e não só.
Entre os efeitos dessa influência não esteve apenas o respeito pela Igreja e por seus ministros, respeito este que no passado — e talvez nem mesmo hoje — nunca foi comprometido pela indignidade de indivíduos concretos (pois, exercendo uma admirável distinção, os ortodoxos sempre separaram a pessoa concreta da realidade e da pessoa a que ela remetia, para que a honra do Protótipo não fosse perturbada por eventuais defeitos daquilo que o reflete e é sua imagem…).
No plano social, a Igreja introduziu o comunitarismo na organização da vida pública, fortalecendo assim o espírito de “democracia” em sua expressão autêntica. Criou também um ethos humano de tolerância diante das fraquezas das pessoas, evitando todo tipo de “inquisições sagradas” e “caças às bruxas”, e cultivando positivamente um ethos de participação na dor e na alegria do próximo.
Tudo isso seria impensável em nossa cultura sem a profunda influência da Igreja — algo que hoje se evidencia pelo fato de que, com a gradual ocidentalização de nossas sociedades, tais valores vão lentamente desaparecendo. A sociedade continua o seu caminho, seguindo uma trajetória que, ao que tudo indica, não pode ser interrompida pelas chamas de nossas inflamadas pregações sociais.
O terrível, porém, é que a própria Igreja, sem perceber, começa a se alterar, e deixa de ser o sal capaz de preservar, ainda que sob a forma de um “pequeno resto”, o modo de existir que remete ao Deus Trino, conforme nos ensinaram os Padres que hoje honramos.
Os sinais de alteração da identidade de nossa Igreja são hoje, infelizmente, muitos. A título indicativo, menciono três.
a) O psicologismo, que corrói cada vez mais a Igreja
Nossos fiéis já não vão à Igreja, como outrora, para encontrar o outro, mas para “sentir” antes uma experiência individual de contato com o “Divino”. Esse tipo de religiosidade psicológica — puramente individual e subjetiva — é agora cultivado pela própria Igreja sob a forma de uma “comoção” artificial: pequenas igrejas semiescuras, preferência por mosteiros, impulso de evitar a multidão das festas, e assim por diante.
Isso acontece até mesmo com a Confissão, que, de meio para restaurar nossa relação com a sociedade e com a Comunidade da Igreja — como era na Igreja antiga — tende a transformar-se em um “centro terapêutico” de feridas psíquicas (isto é, psicológicas) do indivíduo.
A psicanálise — esse construto individualista por excelência da introversão — conquista inclusive a teologia ortodoxa e transforma a Igreja em “hospital” ou centro de tratamento de indivíduos, como se a Comunidade eclesial não bastasse para curar o ser humano, convertendo-o de introvertido em ser de comunhão.
b) O moralismo ameaça abalar os próprios fundamentos da Igreja
O moralismo — que deve ser claramente distinguido do ethos — baseia-se na promoção de normas morais, sempre de acordo com aquilo que uma sociedade julga e aceita como “moral”. Assim, encobre-se a consciência da pecaminosidade geral que governa nossa natureza decaída, e introduz-se a distinção entre pessoas “mais” ou “menos” pecadoras, como se o pecado pudesse ser graduado e quantificado.
Multiplicam-se, então, os que seguram nas mãos a pedra do anátema, prontos para apedrejar os que consideram mais pecadores do que eles. Nessa cena de apedrejamento, Cristo está ausente (a Igreja o “esconde”), Ele que diria: “aquele que estiver sem pecado seja o primeiro a atirar a pedra”.
Em seu lugar, aparece a própria Igreja, como outro Saulo antes de sua conversão, a conduzir — ou fingir conduzir — o apedrejamento “purificador”. Assim, o arrependimento, a contrição do publicano, tende a ser substituído pelo farisaico: “não sou como os demais” (οὐκ εἰμί ὥσπερ οἱ λοιποί).
E enquanto Cristo, Cabeça da Igreja, embora sem pecado, identifica-se na Cruz com os pecadores, o seu Corpo, a Igreja, hoje evita tal identificação, incapaz de carregar a Cruz de sua Cabeça. Desse modo, a eclesiologia de São João Crisóstomo inverte-se na prática: a Cabeça é crucificada, enquanto o Corpo recusa ser crucificado. Mas toda separação do Corpo em relação à Cabeça — sublinha Crisóstomo — significa a morte do Corpo. A identidade da Igreja, tal como foi concebida pelos Três Hierarcas, está em perigo.
c) A identidade da Igreja é ameaçada por sua assimilação à cultura tecnológica
Este ponto é muito delicado e requer especial atenção.
A tecnologia constitui uma ameaça à identidade da Igreja porque introduz uma forma peculiar — e perigosíssima — de individualismo: ela abole a comunhão corporal entre as pessoas e cultiva uma forma de comunicação “liberta” da matéria.
Particularmente com a internet, assim como com a televisão, o encontro físico dos fiéis “no mesmo lugar” (ἐπί τό αὐτό), que pertence à própria natureza da Igreja, é substituído por um contato dito “espiritual”, no qual são abolidos os símbolos materiais pelos quais se exprime o caráter icônico das relações eclesiais.
Assim, já não seria necessária a reunião local do povo e o beijo físico das imagens ou dos ministros, pois a Divina Liturgia pode agora ser transmitida — e às vezes por exigência da própria Igreja — também pela televisão (em breve, até a Confissão será realizada pela internet).
E não se diga que isso acontece para facilitar aos enfermos ou a outros impedidos: porque o que se oferece a tais pessoas não é a realidade do ato litúrgico (que pressupõe presença física e comunhão do corpo), mas uma imagem visual, isto é, uma “realidade virtual”, uma caricatura da Santa Liturgia.
Oferece-se apenas uma satisfação psicológica, mas, com isso, a Igreja altera a realidade ontológica de sua identidade, pois a Liturgia é Sinaxe “no mesmo lugar” (ἐπί τό αὐτό) e a Igreja é Comunidade. As “coisas santas” são dadas “aos cães” (τοῖς κυσί) com inteira tranquilidade de consciência. Em nome da adaptação às exigências do homem contemporâneo, a identidade da Igreja é deformada de modo rápido e perigoso.
A Divina Eucaristia: expressão plena da identidade da Igreja
Os Três Hierarcas, que hoje honramos solenemente, redigiram Divinas Liturgias. Isso não é casual. Na Divina Eucaristia exprime-se do modo mais completo a identidade da Igreja.
Ali, a Igreja se revela e se realiza como Corpo de Cristo, imagem da Santíssima Trindade, antecipação do Reino de Deus. Ali, o ser humano vive sua relação com o Deus Trino em Cristo, com os demais seres humanos e com a própria criação material. Dessa relação tira inspiração e direção para a vida.
Bastaria analisar a Divina Liturgia de São Basílio ou de São João Crisóstomo para transmitir, hoje, a quintessência da contribuição desses Padres à Igreja e ao ser humano de todas as épocas — inclusive a nossa.
Vigilância e responsabilidade pastoral
Os pontos acima são os mais importantes a serem destacados, sobretudo em nossos dias. Os Três Hierarcas foram mestres ecumênicos: sua importância não se limita à cultura grega, como costuma ser enfatizado nesta data.
Seu ensinamento dirige-se a todo ser humano e diz respeito ao modo de existir do homem, em geral, como imagem do Deus Trino. Esse modo de ser é encarnado e manifestado de modo eminente pela Igreja — e ela o faz não apenas por aquilo que ensina, mas por aquilo que é, por sua própria identidade.
Eis por que é tão importante que a identidade da Igreja não seja distorcida nem alterada. O perigo dessa alteração apresenta-se grave em nossos dias. Os pontos mencionados são indicativos; muitos outros talvez pudessem ser acrescentados. Que estes bastem para despertar nossas consciências, especialmente as daqueles que carregam responsabilidades de liderança e de educação do povo: como expressão suprema de diaconia, e não de despotismo.
Se preservarmos a identidade da Igreja tal como os Padres a conceberam, não precisaremos de mais nada para cumprir nosso dever diante de Deus e dos homens, e também diante desses três grandes Padres da Igreja de Cristo, que hoje honramos.
FONTES:
- Agência Fides — “L’ultima omelia di Ioannis Zizioulas” (3 de fevereiro de 2026). (fides.org)
- Fós Fanariou (Φως Φαναρίου) — “Μητροπολίτου Περγάμου Ιωάννη: ‘Η Εκκλησία και ο κόσμος’” (5 de fevereiro de 2026). (Φως Φαναρίου)









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