Por Tasos Kokkinidis – 28 de novembro de 2025
Créditos das imagens: EPA/Alessandro Di Meo via AMNA; Vatican News
No marco dos 1.700 anos do Primeiro Concílio de Niceia (325 d.C.), o Papa Leão XIV e o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, de Constantinopla, encontraram-se nesta sexta-feira em İznik (antiga Niceia), na Turquia, para uma celebração sem precedentes — um gesto de profunda relevância espiritual e histórica.
Sete séculos após a formulação comum do Credo e quase um milênio depois da ruptura provocada pelo Grande Cisma de 1054, os dois líderes cristãos reuniram-se onde os antigos Padres da Igreja definiram a fé da cristandade, buscando “reviver o espírito de Niceia” e renovar o compromisso com o caminho da unidade.
A celebração tornou-se o centro espiritual da viagem do Papa à Turquia, evidenciando sua decisão de priorizar a reconciliação entre católicos e ortodoxos — movimento que contrasta com sua escolha diplomática de não visitar a Basílica de Santa Sofia nesta ocasião.
Niceia: um lugar teológico antes de ser histórico
A escolha de Niceia não é apenas simbólica. Ali, em 325 d.C., reuniu-se o Primeiro Concílio Ecumênico, reverenciado tanto no Oriente quanto no Ocidente. Seu objetivo principal foi enfrentar a controvérsia ariana e afirmar solemnemente a fé cristã na divindade de Jesus Cristo.
O Concílio:
- rejeitou o arianismo,
- proclamou o Filho como “consubstancial” (homoousios) ao Pai,
- e formulou o Credo Niceno, fundamento da doutrina trinitária da Igreja.
Ao celebrarem juntos neste lugar, Papa e Patriarca reafirmam que ambas as tradições permanecem unidas na mesma fé professada há dezessete séculos.
Uma peregrinação de unidade
A presença conjunta dos dois primazes foi concebida como um “ícone vivo” da unidade da Igreja antes do Cisma. Segundo o Patriarca Bartolomeu, “as Igrejas são mais fortes e mais credíveis quando permanecem unidas”.
O encontro realça décadas de diálogo teológico e busca aprofundar passos concretos de aproximação, inclusive a discussão sobre uma data comum para a celebração da Páscoa (Pascha) — hoje um dos sinais mais visíveis da separação entre Oriente e Ocidente.
O Ofício de Oração Ecumênica
A cerimônia realizou-se junto às escavações arqueológicas da antiga Basílica de São Neófito, à beira do lago İznik, considerada a área próxima ao local do Concílio de 325.
Os momentos centrais incluíram:
- Oração conjunta, elevando a Deus súplica comum pela reconciliação;
- Proclamação do Credo Niceno, recordando os vínculos de fé partilhados;
- Acendimento simbólico de uma vela, gesto representando a luz de Cristo que ambas as Igrejas desejam reencontrar em plena comunhão.
O ato público visa renovar o impulso do diálogo e preparar terreno para decisões concretas.
Declaração conjunta em preparação
Está prevista para o dia seguinte, em Istambul, a assinatura de uma Declaração Conjunta, afirmando:
- a autoridade espiritual compartilhada entre os dois líderes;
- o compromisso renovado com a busca da unidade;
- e a determinação de trabalhar pela cura de uma divisão que perdura há quase mil anos.
O encontro de Niceia, pela sua força simbólica e espiritual, representa um dos passos mais significativos nas relações entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa em toda a era moderna.
Fonte original
Tasos Kokkinidis, Greek Reporter, 28/11/2025.
Fotos: EPA/Alessandro Di Meo via AMNA; Vatican News.








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