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Florença acolhe simpósio pelos 60 anos da revogação dos anátemas entre Roma e Constantinopla

14 de dezembro de 2025
Michele Zanzucchi
Versão grega: Φως Φαναρίου

No dia 8 de dezembro de 2025, realizou-se em Florença uma jornada de estudos promovida pela Cátedra Ecumênica Chiara Lubich–Athenágoras, instituída no Instituto Universitário Sophia. O encontro assinalou os 60 anos da revogação mútua dos anátemas entre a Igreja de Roma e o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, ato ocorrido em 7 de dezembro de 1965, no encerramento do Concílio Vaticano II, com celebrações simultâneas em Roma e Constantinopla.

Com o título “1965–2025: A Revogação dos Anátemas”, a jornada reuniu os dois co-titulares da cátedra: o reitor do Instituto Sophia, Declan O’Byrne, e o Metropolita Máximo de Selymbria, figura de destaque do Patriarcado Ecumênico.

Memória da Igreja indivisa e o paradoxo eucarístico

As reflexões concentraram-se na “memória da Igreja indivisa do primeiro milênio”, entendida como evento profético que abriu novos caminhos de reconciliação. Destacou-se o Símbolo da Fé de Niceia–Constantinopla como o vínculo ecumênico mais forte, comum a católicos e ortodoxos, e, ao mesmo tempo, o paradoxo de uma comunhão de fé ainda não acompanhada pela plena comunhão eucarística.

Discutiu-se a necessidade de enfrentar questões doutrinais — como primado e sinodalidade — no interior de uma comunhão restaurada, e não como pré-condições impeditivas. Mensagens oficiais — entre elas as do Papa Leão XIV e do Patriarca Bartolomeu — apelaram à plena aplicação das consequências eclesiais e canônicas da declaração de 1965, incluindo a eliminação de linguagens polêmicas remanescentes.

O diálogo da caridade

Foi sublinhado o diálogo da caridade, encarnado na amizade entre Athenágoras e Chiara Lubich, como caminho que precede e prepara o progresso teológico, na convicção de que a unidade é dom de Deus, a ser discernido com clareza teológica e virtudes eclesiais.

Mensagens

Em sua mensagem, o Patriarca Bartolomeu recordou que 2025 foi marcado por sinais ecumênicos relevantes, evocando a memória da Igreja indivisa, como a celebração comum da Páscoa (20 de abril). Após a morte do Papa Francisco, no dia seguinte à Páscoa, o novo Papa Leão XIV deu continuidade ao empenho ecumênico, especialmente por ocasião dos 1700 anos do Concílio de Niceia. O Patriarca qualificou a revogação dos anátemas de 1965 como “ato monumental”.

A presidente do Movimento dos Focolares, Margaret Karram, saudou os participantes, valorizando a herança de amor e perdão daquele gesto histórico e convidando a preparar o “milagre da unidade”, conforme a conhecida exortação do Patriarca Athenágoras: “A união acontecerá. Será um milagre… devemos preparar-nos.” O Instituto Sophia foi apresentado como lugar de preparação para esse horizonte.

O Papa Leão XIV, por meio de mensagem redigida pelo Cardeal Pietro Parolin, qualificou a revogação dos anátemas como ato histórico de reconciliação, reconheceu a purificação da memória de 1054 e encorajou a aplicação integral das consequências eclesiais do gesto, incluindo a superação definitiva de termos como “hereges” e “cismáticos”, bem como novos passos concretos a serem dados em conjunto.

Houve ainda a intervenção online do primeiro reitor do Instituto Sophia, Piero Coda, que relacionou a Cátedra Ecumênica à recente declaração comum assinada pelo Papa e pelo Patriarca, evocando o abraço fraterno entre Paulo VI e Athenágoras em Jerusalém como expressão de uma philia profética, sinal da ação do próprio Deus que convida a Igreja a viver novamente na plena comunhão.

Exposição introdutória

A exposição inicial foi apresentada por Sandra Ferreira Ribeiro, do Centro para o Diálogo Ecumênico dos Focolares. Ela traçou os antecedentes históricos que conduziram à revogação dos anátemas de 1965 e ao encontro entre Paulo VI e Athenágoras, lembrando os anátamas de 1054 entre o cardeal Humberto de Silva Candida e o Patriarca Miguel Cerulário. Embora juridicamente frágeis, tais atos alimentaram hostilidades agravadas por eventos como o saque de Constantinopla (1204) e tentativas frustradas de reconciliação.

A virada ocorreu com a visão patriarcal de Athenágoras e a iniciativa de Paulo VI, culminando no encontro de 5 de janeiro de 1964, em Jerusalém, que inaugurou uma “revolução copernicana” no ecumenismo: não a volta de uma Igreja à outra, mas de todos a Cristo. Em 1975, o gesto humilde de Paulo VI ao beijar os pés da delegação do patriarca Demétrio I marcou novo passo profético.

Hoje, insistiu-se na urgência de uma espiritualidade ecumênica comum, conforme a Declaração Conjunta de Leão XIV e Bartolomeu.

A conferência do Metropolita Máximo

O Metropolita Máximo analisou o Documento de Alexandria (2023), aprovado pela Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico, centrado na relação entre primado e sinodalidade no segundo milênio. O texto, de caráter histórico, propõe uma leitura comum da história e a purificação da memória, afirmando que a eclesiologia eucarística da comunhão é a chave para compreender ambos, inseparáveis e complementares, rejeitando tanto o primado monárquico quanto um sinodalismo nivelador.

O documento observa que o ensino do Concílio Vaticano I sobre primado de jurisdição e infalibilidade papal não pode ser aceito pela Igreja Ortodoxa, por obscurecer a catolicidade da Igreja local, embora reconheça convergências e diferenças remanescentes, como o papel do Papa na recepção das decisões sinodais. Concluiu apontando perspectivas positivas para uma compreensão mais autêntica no horizonte da comunhão.

A conferência do Reitor Declan O’Byrne

Ao evocar os 1700 anos de Niceia, o Reitor colocou a questão decisiva: se confessamos juntos o mesmo Símbolo da Fé, por que persiste a divisão eucarística? O Credo é necessário, mas não suficiente; a unidade requer também virtudes eclesiais — amor, humildade e paciência.

Uma proposta contemporânea — retomando a fórmula de união de 433 — sugere que a fé comum de Niceia já constitui base para a comunhão eucarística, deslocando o ônus da prova para objeções adicionais. O teólogo Paul Gavrilyuk defende que diferenças posteriores (como o filioque ou o primado romano) sejam tratadas dentro de uma comunhão restaurada, sem minimizar o diálogo, mas reordenando-o.

A analogia histórica de 1965 mostra que a caridade pode remover obstáculos canônicos sem esperar acordo doutrinal perfeito. A unidade, dom do Espírito, deve ser acolhida e refletida nas formas institucionais com clareza teológica e amor.

Um passo decisivo

Cerca de cem participantes — incluindo um grupo de estudantes xiitas presentes na Sophia para um curso introdutório de espiritualidade cristã — destacaram a clareza das posições e o impulso decidido à unidade promovido pela Cátedra.

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