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Encontro Histórico entre o Patriarca Ecumênico e o Papa

3 de dezembro de 2025

Konstantinos Zorbás sobre o encontro histórico entre o Patriarca e o Papa

A unidade como exigência ontológica do mundo contemporâneo

Por Dr. Konstantinos V. Zorbás
Diretor-Geral da Academia Ortodoxa de Creta
Presidente da Associação dos Teólogos de Creta

Encontro histórico do Patriarca Ecumênico Bartolomeu e do Papa Leão XIV

A recente e histórica reunião do Patriarca Ecumênico Bartolomeu com o Papa Leão XIV — em Ancara (como evento político), em Niceia da Bitínia e no Fanar — constitui um marco tanto da história da Igreja quanto da história mundial, carregado de mensagens para o ser humano do século XXI. Trata-se da primeira viagem apostólica do Pontífice, uma viagem ousada, iniciada simbolicamente na grande ponte sobre os Dardanelos em direção ao Oriente Médio, especificamente ao Líbano, símbolo da união entre Oriente e Ocidente. Assim, o novo Papa manifesta suas prioridades na região do Mediterrâneo Oriental, repleta de desafios e marcada por conflitos que fazem sangrar seus povos.

O decálogo de mensagens que se segue oferece respostas às inquietações de todo ser humano pensante, que — seja como cidadão, seja como fiel — olha esperançoso para o futuro, evitando repetir os erros do passado e buscando a unidade «de todo o universo».

1. Unidade como memória e como futuro

Quando o Papa entrou no Fanar e falou da emoção de seguir os passos de seus predecessores (1979, 2006, 2014), tocou uma verdade profunda: a história da Igreja não é uma cadeia de fatos, mas um lugar de memória. E a memória, na tradição eclesial, não é passado; é presente vivo que suspende a força do esquecimento.

A reunião entre os dois líderes carrega esse duplo peso: honra aqueles que ousaram a aproximação no passado e, ao mesmo tempo, convoca para um futuro em que a unidade não seja símbolo, mas realidade.

A recitação conjunta do Credo de Niceia sem o filioque não é apenas gesto de prudência teológica. É um ato de «recordação da unidade» — uma memória que não remete à nostalgia, mas à profecia. O ser humano é «ser da expectativa», e aqui esta verdade se manifesta plenamente: a Igreja, como comunidade da esperança, é chamada a lembrar o seu futuro.

2. O Primeiro Concíliο Ecumênico de Niceia como arquétipo

A ida dos dois líderes a Niceia não foi uma simples cerimônia comemorativa, mas uma busca do arquétipo da unidade. Os Padres de Niceia não formularam o Credo como texto teórico, mas como confissão existencial de uma verdade que dava sentido à vida comum.

O Credo não é manifesto ideológico, mas definição eclesiológica do futuro — e não do passado.

Hoje, quando a palavra se separa da comunidade e a verdade se reduz à opinião pessoal, o retorno a esse arquétipo funciona como contraproposta: a verdade não existe sem comunhão. A unidade não decorre de acordos institucionais, mas é fruto de uma relação ontológica fundada na liberdade e no amor, não na imposição.

O Patriarca Bartolomeu, ao convidar os fiéis «a escutar todas as vozes que clamam por unidade», expressa uma posição profundamente teológica: a unidade é uma polifonia que rejeita o ruído da discórdia e busca a harmonia da concórdia. Não é uniformidade, mas sinfonia; não é homogeneidade, mas convivência.

3. O diálogo como superação da violência

Na declaração conjunta, os dois Primazes rejeitaram explicitamente o uso da religião como instrumento de violência, num mundo dominado por estratégias militares, econômicas e geopolíticas que configuram o que o Papa Francisco chamou de «uma Terceira Guerra Mundial em pedaços».

No plano filosófico, essa posição expressa uma convicção cristã: a verdade não se impõe, oferece-se. A violência nasce do medo; o diálogo é expressão de liberdade. A tradição eclesiástica sabe que a violência não transforma, apenas subjuga.

Filosoficamente, isso encontra eco em Emmanuel Lévinas (1906–1995): o Outro nunca pode ser objeto, é portador de um infinito que me convoca à responsabilidade ética. Assim, o diálogo entre as Igrejas não é apenas debate teológico: é espaço onde o Outro se torna portador de manifestação divina. A acolhida do Outro, mesmo na diferença, é ato teológico porque é ato de amor.

4. O caminho das duas Igrejas

A história das relações entre Roma e Constantinopla lembra o que Alexandros Papadiamantis chamou de «milagre lento». Foram necessários séculos para remover os anátemas; mais ainda para reconstruir a confiança. Na teologia, o tempo não se mede pela rapidez da política, mas pela maturação espiritual.

O diálogo começou como «diálogo do amor» e prosseguiu como «diálogo da verdade», porque não há verdade sem amor, nem amor sem verdade.

Os dois líderes caminham não para um acordo fácil, mas para uma sinceridade que exige coragem para contemplar as feridas da história.

Falando sobre Halki e as dificuldades do Patriarcado na Turquia, o Patriarca Bartolomeu mencionou «paciência, esperança e oração». Estas três palavras exprimem uma verdadeira teologia do tempo: paciência não é passividade, mas confiança; esperança não é ingenuidade, mas modo de ser; oração não é fuga, mas ação espiritual profunda.

5. A unidade como exigência do mundo contemporâneo

O que torna este encontro tão decisivo não é apenas sua dimensão teológica: é que ele se oferece ao mundo como modo alternativo de vida.

O ser humano moderno vive fragmentado: politicamente, socialmente, psicologicamente. A era digital promete conexão, mas produz isolamento. As identidades tornam-se campos de batalha.

A unidade proposta pelos dois líderes resiste a essa lógica: unidade sem eliminação da alteridade, comunhão sem destruição da diferença. É o que Hegel chamaria de reconciliação — síntese não da uniformização, mas do reconhecimento mútuo.

Assim, o encontro fala não só aos cristãos, mas a todos os que buscam sentido além do ruído da época. A unidade, como exigência ontológica, é chamado a um modo de existir em que o Outro não é ameaça, mas possibilidade.

6. A unidade como disciplina espiritual

A reunião entre Bartolomeu e Leão XIV não é imagem de triunfo, mas de ascese. A unidade não se conquista com declarações, mas com esforço diário, humildade, renúncia ao egoísmo pessoal, eclesial e cultural.

Cada encontro, cada oração conjunta, cada referência a Niceia como pátria comum da fé é uma pequena abertura do mundo para a verdade. Num mundo habituado à divisão, a unidade surge como ato de resistência.

É também tentativa de as Igrejas se reapresentarem ao mundo do Sul Global, promovendo mudança de consciências (metanoia) e valores evangélicos num mundo que exalta o tóxico como virtude.

7. A unidade como pedagogia

A unidade educa o olhar. Numa época de visão superficial e fragmentada, a reunião dos dois Primazes é convite a «ver de novo».

Patriarca e Papa recordam que a unidade exige ver o Outro como pessoa, não como representante de um sistema.

Ortodoxos e católicos convergem no núcleo da antropologia cristã: o homem é imagem de Deus. E a imagem só é reconhecida à luz — esta luz é a unidade.

Maurice Merleau-Ponty (1908–1961) falou de uma «visibilidade que toca»: a unidade é esta forma de contato em que a relação precede o julgamento.

8. Unidade diante das dores do mundo

Os dois líderes se encontraram num momento em que o mundo sofre com guerras, crises sociais e exaustão existencial. A referência aos refugiados, às crianças feridas e às comunidades destruídas não é adorno retórico — é central.

A unidade torna-se diaconia. Não se limita ao dogma, mas se encarna na filantropia. A Igreja deve ser «lugar de cura», como dizia João Crisóstomo — das feridas espirituais e também das sociais.

Num mundo em que a injustiça é tolerada e a esperança escassa, a unidade oferece testemunho silencioso e poderoso: o ser humano não está abandonado; a história não é um beco sem saída; a caridade ainda pode transformar o espaço público.

9. Unidade como superação criativa da história

Surge uma pergunta profunda: pode a história ser superada?

As feridas do passado permanecem, mas a unidade propõe uma nova relação com o tempo. A teologia sabe que há tempo linear e kairós — tempo oportuno. O encontro parece ativar esse tempo: não elimina o passado, mas o transforma.

Paul Ricoeur (1913–2005) falou da «reformulação contínua» da tradição. Assim, a unidade não é amnésia, mas recriação reconciliada. Até o tema do cômputo comum da Páscoa, conforme a Primeira Concíliο de Niceia (325), reaparece como expressão dessa busca.

10. A unidade como abertura ao desconhecido

Por fim, a unidade é sempre abertura: ao Deus desconhecido e ao ser humano imprevisível.

Não está concluída; é caminho, êxodo de si, entrada num espaço onde o Outro se torna irmão. O encontro não traz todas as respostas, mas traz o essencial: a promessa de continuidade, de diálogo paciente e pastoral, evitando precipitações que criem novos cismas.

É confiança no Espírito Santo que age até quando não o percebemos. Num mundo que teme o desconhecido, a unidade convida a transformá-lo não em ameaça, mas em graça.

Conclusão

Numa época em que a divisão se tornou quase condição existencial, o encontro entre o Patriarca Bartolomeu e o Papa Leão XIV revela-se acontecimento de peso teológico, filosófico e espiritual. Não é simples reunião diplomática: é convite à reconciliação, à conversão, à redescoberta da unidade como modo de existência.

A Igreja — iluminada por Cristo e pelo Evangelho — é chamada a intervir nas questões sociais e políticas, defendendo a dignidade humana, a justiça e a unidade.

A unidade deixa de ser apenas pedido das Igrejas: torna-se proposta para o ser humano, para o mundo e para a própria forma da vida.

Fonte: Φῶς Φαναρίου (Fós Phanarion)

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