Em Roma, durante a concessão do título de Doutor Honoris Causa pela Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, o Patriarca Ecumênico refletiu sobre o legado do Santo e Grande Concílio de Creta, dez anos após sua realização.
ROMA, 23 de outubro de 2026 — Sua Santidade Bartolomeu, Patriarca Ecumênico de Constantinopla, recebeu o título de Doutor Honoris Causa em Teologia Sagrada da Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino (Angelicum), em Roma. Na ocasião, pronunciou uma importante reflexão sobre a natureza conciliar da Igreja, a comunhão entre as Igrejas locais e os desafios contemporâneos da unidade cristã.
A solenidade ocorreu no contexto de uma conferência especial promovida pelo Instituto de Estudos Ecumênicos (Oecumenicum) da universidade, dedicada ao décimo aniversário do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa, realizado em junho de 2016, na ilha de Creta.
Intitulada «Conciliaridade e Comunhão na Igreja», a mensagem do Patriarca apresentou uma avaliação teológica e pastoral do Concílio, reconhecendo suas realizações, as dificuldades que acompanharam sua convocação e a atualidade de suas decisões para a vida da Ortodoxia.
O Concílio de Creta e a unidade da Igreja Ortodoxa
Ao recordar o longo processo de preparação do Santo e Grande Concílio, iniciado formalmente no começo do século XX e impulsionado pelo Patriarca Ecumênico Atenágoras na década de 1960, Bartolomeu destacou a importância histórica da reunião de Creta para a Igreja Ortodoxa contemporânea.
Segundo o Patriarca, o Concílio testemunhou a fidelidade da Ortodoxia à tradição sinodal, pela qual os bispos se reúnem para discernir, em comunhão, os caminhos da Igreja diante das necessidades de cada época.
Nesse sentido, recordou que a Igreja Ortodoxa não constitui uma federação de comunidades independentes e isoladas, mas um único Corpo de Cristo, unido pela fé apostólica, pela vida sacramental e pela continuidade da Tradição.
Ao abordar a ausência de algumas Igrejas autocéfalas no encontro de 2016, Bartolomeu advertiu contra avaliações que reduzam o significado do Concílio aos resultados imediatos ou às dificuldades de sua recepção. A história da Igreja, observou, demonstra que os próprios Concílios Ecumênicos conheceram processos graduais de reconhecimento e acolhimento.
O Santo e Grande Concílio deve, portanto, ser compreendido à luz de sua contribuição para a consciência eclesial da Ortodoxia e para o fortalecimento da responsabilidade comum das Igrejas locais.
A missão da Igreja no mundo contemporâneo
O Patriarca recordou que os documentos conciliares de Creta abordaram questões fundamentais para a vida cristã, entre elas o matrimônio, o jejum, a organização pastoral da diáspora ortodoxa e as relações com as demais comunidades cristãs.
Destacou igualmente a responsabilidade da Igreja diante dos desafios sociais e humanos contemporâneos, especialmente a promoção da paz, da justiça, da dignidade humana, da liberdade e do cuidado com a criação.
No campo das relações intercristãs, reafirmou a importância do diálogo teológico, compreendido como expressão de fidelidade à oração de Cristo pela unidade de seus discípulos, conforme o Evangelho de João (17,21).
Para Bartolomeu, a comunhão eclesial exige encontro, escuta e discernimento compartilhado, inclusive quando persistem divergências e dificuldades para alcançar consensos.
Primazia e sinodalidade: dimensões inseparáveis
Um dos pontos centrais do pronunciamento foi a relação entre primazia e sinodalidade, tema que ocupa lugar significativo no diálogo teológico entre as Igrejas Ortodoxa e Católica Romana.
O Patriarca recordou as contribuições de importantes teólogos ortodoxos, como Georges Florovsky, Nikos Nissiotis e o Metropolita João Zizioulas, para a compreensão da conciliaridade em suas dimensões patrística, pneumatológica, eucarística e ontológica.
A partir dessa tradição teológica, afirmou que a vida sinodal pertence à própria constituição da Igreja e encontra sua expressão fundamental na assembleia eucarística.
Bartolomeu também mencionou os avanços do diálogo ortodoxo-católico, particularmente os documentos de Ravena (2007) e Chieti (2016), que examinaram a relação entre primazia, sinodalidade e comunhão nos níveis local, regional e universal.
Nesse contexto, ressaltou que o exercício da primazia deve permanecer vinculado à comunhão eclesial e ao serviço da unidade, evitando tanto a centralização da autoridade quanto a fragmentação entre as Igrejas.
Um chamado à recuperação da cultura conciliar
Dez anos depois do Concílio de Creta, o Patriarca reconheceu que muitos dos desafios enfrentados pela Ortodoxia permanecem presentes, agravados por tensões geopolíticas, divisões eclesiásticas e transformações sociais e culturais.
Diante desse cenário, apresentou a recuperação da cultura conciliar como uma necessidade fundamental para o futuro da Igreja.
Em sua reflexão, destacou que a autocefalia não significa isolamento e que a comunhão entre as Igrejas locais exige responsabilidade recíproca, cooperação pastoral e disposição permanente para o encontro.
A mensagem concluiu com um apelo à humildade, ao diálogo e à superação das divisões e do nacionalismo, reafirmando que a unidade eclesial encontra seu fundamento na comunhão de amor da Santíssima Trindade.
Ao agradecer a distinção acadêmica recebida, Sua Santidade encerrou o pronunciamento evocando a bênção apostólica de São Paulo:
«A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com vocês e conosco.» (2Cor 13,14)
A homenagem prestada pela Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino e a reflexão apresentada pelo Patriarca Ecumênico constituem uma ocasião significativa para renovar a atenção ao legado do Santo e Grande Concílio de Creta e à responsabilidade das Igrejas cristãs na promoção da comunhão, do testemunho evangélico e da unidade.
ECCLESIA NEWS | Patriarcado Ecumênico
Documento: Discurso de Sua Santidade Bartolomeu, Patriarca Ecumênico, por ocasião da concessão do Doutorado Honoris Causa pela Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino — Roma, 23 de outubro de 2026.
Texto integral: Disponível em português no documento que acompanha esta publicação.


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