Sua Santidade o Patriarca Ecumênico Bartolomeu presidiu, na tarde de terça-feira, 4 de agosto de 2026, o Ofício da Paráclise na Igreja da Dormição da Santíssima Theotokos, em Neochori, no Bósforo.
Durante a celebração, realizada no período de preparação para a Festa da Dormição da Santíssima Theotokos, o Patriarca dirigiu-se aos fiéis com uma reflexão sobre a Virgem Maria como expressão da alegria da salvação, do silêncio, da liberdade e da plena adesão à vontade de Deus.
Confira a mensagem:
Caros filhos e filhas no Senhor,
No mundo ortodoxo, a “salvação como alegria” e a “alegria da salvação” encontram sua expressão mais plena na pessoa daquela que é a “causa da alegria” e a “alegria do mundo”: a Santíssima Theotokos. Em todas as nossas santas igrejas espalhadas pelo mundo, o ícone da Mãe de Deus ocupa o primeiro lugar no iconostásio, à esquerda da Porta Real. Também aqui, a veneração prestada à Theotokos manifesta-se como expressão e símbolo da unidade da Igreja Ortodoxa.
Na pessoa da Virgem Maria revela-se o mistério da caridade divina: o amor de Deus pela humanidade, que ultrapassa toda palavra e todo entendimento, bem como a fé inabalável do ser humano no Senhor da glória, fundada na certeza de que “o que é impossível para os homens é possível para Deus” (Lc 18,26).
A Theotokos manifesta igualmente o “mistério do silêncio”. “Alegra-te, porque sem dor deste à luz a Luz; alegra-te, porque nada ensinaste.” Como costumava afirmar o saudoso Metropolita Melitão de Calcedônia, a Virgem Maria é “a personificação do silêncio”:
“Qual é a vida da Mãe de Deus? Um silêncio imenso e profundo. A Virgem Maria falou pouco. Os Evangelistas conservaram apenas algumas de suas palavras, e a maioria delas foi pronunciada antes do nascimento de Cristo. Depois disso, tudo mergulha em um grande silêncio. E como poderia ser diferente? A Virgem Maria deu ao mundo a única Palavra encarnada, o único Verbo, Aquele que ‘no princípio estava com Deus’ e que é Deus. Que mais poderia ser dito além d’Ele? O que restaria, senão o silêncio?” (Calcedônia, p. 450).
A “Virgem silenciosa” transmite ao mundo a mensagem salvífica do “santo silêncio”, do “silêncio da santidade” e do “silêncio do amor” — mensagem particularmente necessária em nossos dias, marcados pela “era das muitas palavras”.
A teologia ortodoxa compreende a vida da Mãe de Deus como uma manifestação do verdadeiro significado da liberdade. A liberdade constitui o núcleo vital da existência humana, e a maneira como a compreendemos e exercemos está intimamente ligada à nossa dignidade, à nossa ética, ao nosso testemunho, à nossa felicidade e até mesmo ao nosso sofrimento.
A Virgem Maria ensina-nos que a verdadeira liberdade não consiste em dizer “não”, mas em dizer “sim” a Deus. Ela revela que a liberdade se realiza na humildade e na livre adesão à vontade divina — atitude jamais imposta por Deus, mas que brota espontaneamente das profundezas do coração humano. A liberdade, portanto, não se reduz ao simples exercício da vontade ou da escolha individual; pelo contrário, a escravidão à própria vontade é frequentemente a mais severa de todas as formas de escravidão.
Tudo isso constitui um convite e, ao mesmo tempo, um desafio para compreendermos em profundidade o verdadeiro espírito da Festa da Dormição, celebrada em 15 de agosto. Supliquemos à Santíssima Mãe de Deus que interceda junto de seu Filho e nosso Deus, fortalecendo-nos na luta pela libertação do “eu amado” e concedendo-nos a graça de nos tornarmos “cooperadores de Deus” na caminhada de seu povo rumo ao cumprimento definitivo de Seu desígnio.
O poder da Igreja é essencialmente espiritual. Hoje, a Santa e Grande Igreja de Cristo, diante das ambiguidades da existência humana, do prometeísmo do poder econômico e da tecnocracia centrada na autorrealização individualista, continua a viver e proclamar a liberdade doxológica, eucarística e fundada no amor em Cristo. Ela distingue o verdadeiro Bem de todos os bens passageiros e anuncia Aquele “que é o único necessário”, libertando o ser humano da ansiedade pelas muitas coisas que o afligem, contribuindo, assim, para a transformação do mundo e mantendo sempre aberta a porta do Reino dos Céus.
Fonte: Patriarcado Ecumênico


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