{"id":9222,"date":"2012-05-24T16:09:08","date_gmt":"2012-05-24T16:09:08","guid":{"rendered":"http:\/\/ecclesia.com.br\/news\/2012\/?p=9222"},"modified":"2016-03-20T15:31:13","modified_gmt":"2016-03-20T15:31:13","slug":"a-terra-redimida-pela-ecoteologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/news.ecclesia.org.br\/?p=9222","title":{"rendered":"A TERRA REDIMIDA PELA ECOTEOLOGIA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Artigo de J\u00fcrgen Moltmann<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As crises ecol\u00f3gicas destroem as condi\u00e7\u00f5es vitais da Terra. Precisamos de uma teologia da Terra e de uma nova espiritualidade da cria\u00e7\u00e3o. Uma nova\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?secao=370\" target=\"_blank\">teologia ecol\u00f3gica<\/a>\u00a0pode nos ajudar nisso.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A opini\u00e3o \u00e9 do te\u00f3logo alem\u00e3o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php%3Foption%3Dcom_content%26view%3Darticle%26id%3D2292%26secao%3D280&amp;sa=U&amp;ei=9PG2T9ykK6aX6QHTjNnWCg&amp;ved=0CAcQFjAB&amp;client=internal-uds-cse&amp;usg=AFQjCNEhfkTo-BpOPTpaod88nlwuswmP6g\" target=\"_blank\">J\u00fcrgen Moltmann<\/a>, em artigo publicado no jornal dos bispos italianos,\u00a0Avvenire, 18-05-2012. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de\u00a0Mois\u00e9s Sbardelotto.<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_9227\" aria-describedby=\"caption-attachment-9227\" style=\"width: 249px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/news.ecclesia.org.br\/2013\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Child-of-the-Universe.jpg\" rel=\"attachment wp-att-9227\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-9227\" src=\"https:\/\/news.ecclesia.org.br\/2013\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Child-of-the-Universe-249x300.jpg\" alt=\"....\" width=\"249\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/news.ecclesia.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Child-of-the-Universe-249x300.jpg 249w, https:\/\/news.ecclesia.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Child-of-the-Universe-46x55.jpg 46w, https:\/\/news.ecclesia.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Child-of-the-Universe.jpg 365w\" sizes=\"(max-width: 249px) 100vw, 249px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9227\" class=\"wp-caption-text\">&#8230;.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontramo-nos hoje no fim da era moderna e no in\u00edcio do futuro ecol\u00f3gico do nosso mundo, se o nosso mundo deve sobreviver. Com isso, entende-se um novo paradigma, em seu nascimento, que liga entre si a cultura humana e a natureza da Terra de uma forma diferente de como ocorreu no paradigma da era moderna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A era moderna foi determinada pela tomada de poder do ser humano sobre a natureza e as suas for\u00e7as. Essas conquistas e tomadas de posse da natureza chegaram hoje ao seu limite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os ind\u00edcios indicam que o clima da Terra est\u00e1 se alterando drasticamente por obra de influentes comportamentos humanos. As calotas de gelo dos polos da Terra est\u00e3o derretendo, o n\u00edvel da \u00e1gua aumenta, algumas ilhas desaparecem, aumentam os per\u00edodos de seca, ampliam-se os desertos e assim por diante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0N\u00f3s conhecemos tudo isso, mas n\u00e3o fazemos nada com rela\u00e7\u00e3o ao que sabemos. A maior parte das pessoas fecham os olhos ou est\u00e3o como que paralisadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, nada favorece tanto as cat\u00e1strofes quanto o n\u00e3o fazer nada paralisante. Precisamos compreender a natureza de um modo novo e de uma nova imagem de ser humano e, por isso, de uma nova experi\u00eancia de Deus na nossa cultura. Uma nova teologia ecol\u00f3gica pode nos ajudar nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo as tradi\u00e7\u00f5es b\u00edblicas, Deus n\u00e3o infundiu seu pr\u00f3prio esp\u00edrito divino apenas no ser humano, mas em todas as suas criaturas: &#8220;Escondes tua face e eles se apavoram, \/ retiras deles a respira\u00e7\u00e3o, e expiram, \/ voltando a ser p\u00f3. \/ Envias o teu sopro e eles s\u00e3o criados, \/ e assim renovas a face da terra&#8221; (Salmo 104, 29-30). Pode-se deduzir disso: se a imagem e semelhan\u00e7a divina do ser humano depende do esp\u00edrito divino que nele habita, ent\u00e3o todas as criaturas, nas quais habita o Esp\u00edrito de Deus, s\u00e3o imagens de Deus e, portanto, devem ser respeitadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todo caso, os seres humanos fazem parte da natureza da Terra de um modo t\u00e3o estreito que se encontram na mesma situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o redimida e na esperan\u00e7a comum da reden\u00e7\u00e3o. Os seres humanos n\u00e3o ser\u00e3o salvos &#8220;desta&#8221; terra, mas &#8220;com&#8221; esta terra, da caducidade e da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo\u00a0<\/strong>ouviu o &#8220;gememos no \u00edntimo, esperando [\u2026] a liberta\u00e7\u00e3o para o nosso corpo&#8221; (Rm 8, 23) por parte daqueles que s\u00e3o animados pelo Esp\u00edrito de Deus. Por isso, Ele tamb\u00e9m ouviu o &#8220;gemido e a expectativa&#8221; da cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o humana ao seu redor (Rm 8, 22). Ele estava convencido de que \u00e9 o pr\u00f3prio Esp\u00edrito de Deus que faz com que n\u00f3s e toda a cria\u00e7\u00e3o gemamos \u00e0 espera da reden\u00e7\u00e3o do destino de morte. O Esp\u00edrito presente \u00e9 o princ\u00edpio da nova cria\u00e7\u00e3o, na qual n\u00e3o haver\u00e1 mais a morte, porque ele \u00e9 o Esp\u00edrito da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus e a presen\u00e7a difundida do Ressuscitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia ortodoxa expressou isso com a esperan\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 na diviniza\u00e7\u00e3o dos seres humanos, mas tamb\u00e9m na diviniza\u00e7\u00e3o do cosmos: &#8220;Toda a natureza est\u00e1 destinada \u00e0 gl\u00f3ria, da qual os seres humanos ter\u00e3o parte no reino do cumprimento&#8221;. Os homens, na sua singularidade, no seu destino e na sua esperan\u00e7a de vida, s\u00e3o uma parte da natureza. Portanto, eles n\u00e3o est\u00e3o no centro do mundo, mas, para sobreviver, devem se integrar na natureza da Terra e na comunidade das criaturas com as quais vivem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A arrog\u00e2ncia do poder sobre a natureza e a liberdade de fazer dela o que querem n\u00e3o compete a eles, mas lhes compete, sim, uma &#8220;humildade c\u00f3smica&#8221; e uma considera\u00e7\u00e3o atenta por tudo o que eles fazem \u00e0 natureza. S\u00f3 quando estivermos conscientes da nossa depend\u00eancia \u00e0 vida da Terra e da exist\u00eancia de outros seres vivos nos tornaremos, de &#8220;divindades soberbas e infelizes&#8221; (Lutero), seres humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O verdadeiro saber n\u00e3o \u00e9 o poder, mas a sabedoria. As novas ci\u00eancias astrof\u00edsicas demonstraram as intera\u00e7\u00f5es entre os \u00e2mbitos inanimados e os animados do nosso planeta Terra. Disso deriva a ideia de que a biosfera da Terra forma com a atmosfera, os oceanos e as plan\u00edcies um sistema complexo, \u00fanico no seu g\u00eanero, que tem a capacidade de produzir vida e de criar espa\u00e7os vitais. \u00c9 a muito discutida\u00a0<a href=\"http:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/36903-gaia-sagrada-as-relacoes-entre-ecologia-feminismo-e-cristianismo-entrevista-especial-com-anne-primavesi&amp;sa=U&amp;ei=JvK2T6_4I4nM9QSt19SYCg&amp;ved=0CA0QFjAE&amp;client=internal-uds-cse&amp;usg=AFQjCNEsjEQpOeOZF4vJineLd0cGWZ1zEg\" target=\"_blank\"><strong>teoria de Gaia<\/strong><\/a>, de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/31094-%2560%2560os-humanos-sao-muito-estupidos-para-evitar-as-mudancas-climaticas%2560%2560-afirma-lovelock&amp;sa=U&amp;ei=JvK2T6_4I4nM9QSt19SYCg&amp;ved=0CAcQFjAB&amp;client=internal-uds-cse&amp;usg=AFQjCNGivDYTz9_u1G9V65Hjjx7nzMzj9g\" target=\"_blank\"><strong>James Lovelock<\/strong><\/a>. Apesar do nome po\u00e9tico da deusa grega da Terra, n\u00e3o se pretende com isso fazer uma diviniza\u00e7\u00e3o da Terra. Mas a Terra \u00e9 concebida como um organismo vivo que produz vida e cria espa\u00e7os vitais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se entendemos a vida em sentido puramente biol\u00f3gico, ent\u00e3o a terra n\u00e3o \u00e9 &#8220;viva&#8221;, porque n\u00e3o se reproduz. No entanto, deve se dizer que ela \u00e9 mais do que viva, porque produz vida. Ela n\u00e3o \u00e9 nem um &#8220;organismo&#8221;, no sentido em que conhecemos os organismos biol\u00f3gicos. Ela \u00e9 mais do que um organismo, porque produz organismos. A Terra \u00e9 um sujeito de tipo particular, incompar\u00e1vel e \u00fanico. N\u00e3o \u00e9 um conglomerado aleat\u00f3rio de mat\u00e9ria e energia, n\u00e3o \u00e9 nem cega, nem muda. \u00c9 inteligente, porque produz intelig\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um ponto espec\u00edfico da sua evolu\u00e7\u00e3o, a Terra come\u00e7ou a sentir, a pensar, a tomar consci\u00eancia de si mesma e a merece respeito. N\u00f3s, seres humanos, somos criaturas da Terra. Portanto, n\u00e3o estamos diante da Terra como seus sujeitos, mas, na nossa dignidade de seres humanos, somos parte da Terra e membros da comunidade terrena das criaturas. N\u00f3s mesmos somos &#8220;concriaturas&#8221;, juntamente com os outros seres vivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse sentimento c\u00f3smico de comunh\u00e3o \u00e9 mais amplo do que todos os \u00e2mbitos da natureza que podemos conhecer e dominar. Por isso, hoje \u00e9 tempo de colocar no centro a santidade da Terra e de nos integrarmos conscientemente \u00e0 comunidade da Terra. Comecemos a falar sobre um tema particular da teologia crist\u00e3, tema que, na reviravolta ecol\u00f3gica para a Terra e as suas condi\u00e7\u00f5es de vida, torna-se atual hoje: a teologia natural. Embora tradicionalmente se entendia por essa express\u00e3o um conhecimento indireto de Deus a partir da natureza, hoje precisamos de um conhecimento indireto da natureza a partir de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As crises ecol\u00f3gicas destroem as condi\u00e7\u00f5es vitais da Terra. Para conserv\u00e1-la apesar das for\u00e7as destrutivas, precisamos de um &#8220;sim&#8221; \u00e0 Terra que supere tais for\u00e7as e de um invenc\u00edvel amor pela Terra. H\u00e1 talvez um maior reconhecimento e um amor mais forte do que a f\u00e9 na presen\u00e7a de Deus na Terra e nas suas condi\u00e7\u00f5es de vida? Precisamos de uma teologia da Terra e de uma nova espiritualidade da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Deus e o mundo: a doutrina trinit\u00e1ria da cria\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p><strong>O Criador n\u00e3o \u00e9 apenas exterior \u00e0 sua cria\u00e7\u00e3o, mas est\u00e1 tamb\u00e9m interiormente ligado a ela: a cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 em Deus, e Deus est\u00e1 na cria\u00e7\u00e3o. Segundo a doutrina crist\u00e3 original, o ato criador \u00e9 um evento trinit\u00e1rio.<\/strong><\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>2. Deus e o mundo: <\/strong><\/h3>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><strong>Da distin\u00e7\u00e3o entre Deus e o mundo \u00e0 doutrina trinit\u00e1ria da cria\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/strong><strong>De um mundo sem Deus ao mundo em Deus e a Deus no mundo<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>a)<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>A teologia moderna atribuiu \u00e0 f\u00e9 b\u00edblica na cria\u00e7\u00e3o a distin\u00e7\u00e3o fundamental entre Deus e o mundo. O mundo n\u00e3o saiu do ser eterno de Deus, mas sim da sua livre vontade. Se tivesse surgido do ser eterno de Deus, ele mesmo seria de natureza divina. Seria, ent\u00e3o, autossuficiente como Deus, fundamentado em si mesmo e perfeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como criatura de Deus, ao inv\u00e9s, c\u00e9u e terra s\u00e3o mundanos, celestes e terrenos, mas n\u00e3o divinos. A interpreta\u00e7\u00e3o moderna sublinha que a f\u00e9 israelita na cria\u00e7\u00e3o teria privado o mundo do car\u00e1ter divino, o teria desdemonizado e &#8220;secularizado&#8221; no sentido moderno.\u00a0<em>&#8220;Profana illis omnia quae apud nos sacra&#8221;<\/em>, afirmavam, seguindo\u00a0<strong>C\u00edcero<\/strong>, os romanos devotos do mundo a prop\u00f3sito dos judeus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a sua f\u00e9 na cria\u00e7\u00e3o,\u00a0<strong>Israel<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>liquidou os cultos da fertilidade presentes em\u00a0<strong>Cana\u00e3<\/strong>, como narra a hist\u00f3ria de\u00a0<strong>Elias<\/strong>. Por isso, cientistas modernos como\u00a0<strong>Sir Isaac Newton<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>se referiram \u00e0 B\u00edblia quando expulsaram da sua\u00a0<em>Weltanschauung<\/em>\u00a0a &#8220;alma do mundo&#8221;, de matriz aristot\u00e9lica, e compreenderam o mundo como um mecanismo sem alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda em Israel ca\u00edram os tabus das religi\u00f5es naturalistas do\u00a0<strong>Antigo Oriente<\/strong>. A natureza se tornou o mundo do ser humano: &#8220;dominem a terra&#8221;. Isso foi retomado pelos te\u00f3logos modernos, que entregaram a natureza \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica dos seres humanos. Os pr\u00f3prios m\u00e9todos cient\u00edficos foram privados de valor cient\u00edfico, foram empregados em sentido agn\u00f3stico ou ateu. O estreito te\u00edsmo da idade moderna expulsou Deus no chamado mist\u00e9rio da transcend\u00eancia, para ter o mundo para o ser humano, em uma iman\u00eancia isenta de transcend\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00faltima consequ\u00eancia na teologia da idade moderna, Deus foi pensado sem o mundo, para dominar o mundo isento de Deus e para viver nele sem Deus. Se Deus est\u00e1 apenas no al\u00e9m, ent\u00e3o pode-se conquistar o aqu\u00e9m liberado de Deus e mold\u00e1-lo a gosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arnold Gehlen<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>resume assim o resultado de modo pertinente: &#8220;Ao t\u00e9rmino de uma longa hist\u00f3ria da cultura e do esp\u00edrito, a\u00a0<em>Weltanschauung<\/em>\u00a0da\u00a0<em>entente secr\u00e8te<\/em>, a metaf\u00edsica dos poderes vitais, concordantes e contendentes, foi destru\u00edda, e precisamente por obra do monote\u00edsmo, de um lado, e do mecanismo cient\u00edfico-t\u00e9cnico, de outro. Em favor do qual, por sua vez, o monote\u00edsmo, desdemonizando e desdivinizando a natureza, havia lutado por primeiro para liberar o lugar. Deus e a m\u00e1quina sobreviveram ao mundo arcaico e agora se encontram sozinhos&#8221;\u00a0<strong>[9]<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 mais assustador nessa vis\u00e3o \u00e9 o fato de que, entre o Deus transcendente e o mundo das m\u00e1quinas, o ser humano, como o conhecemos, n\u00e3o aparece mais: ele mesmo se tornou uma m\u00e1quina, e n\u00e3o Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como, por\u00e9m, dados esses pressupostos negativos, pode-se compreender o mundo como &#8220;cria\u00e7\u00e3o de Deus&#8221;? Poder-se-ia argumentar deste modo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As modernas ci\u00eancias da natureza t\u00eam a ver apenas com a quest\u00e3o do como: como funciona alguma coisa? Elas n\u00e3o t\u00eam a ver com quest\u00f5es que se referem ao fundamento e ao sentido de alguma coisa. Elas n\u00e3o respondem \u00e0 primeira pergunta metaf\u00edsica: por que existe algo ao inv\u00e9s de nada? A quest\u00e3o da conting\u00eancia do mundo permanece sem resposta. A teologia responde a tal quest\u00e3o com a ideia da cria\u00e7\u00e3o do mundo por obra da livre vontade de Deus. Deus podia n\u00e3o criar o mundo, portanto, ele n\u00e3o deve necessariamente existir, mas ele gosta de chamar \u00e0 exist\u00eancia uma realidade que n\u00e3o \u00e9 divina, mas que corresponde \u00e0 sua bondade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o conceito de correspond\u00eancia (analogia), a dist\u00e2ncia entre Deus e o mundo \u00e9 superada\u00a0<strong>[10]<\/strong>. O mundo e os seus ordenamentos s\u00e3o um eco da palavra criadora de Deus; s\u00e3o resson\u00e2ncias do seu eterno canto; correspondem, na sua bondade, ao Sumo Bem. O mundo, por\u00e9m, existe fora de Deus, e o agir de Deus com rela\u00e7\u00e3o a ele \u00e9 um agir externo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>b-1)<\/strong>\u00a0H\u00e1, contudo, uma compreens\u00e3o ecol\u00f3gica mais profunda da cria\u00e7\u00e3o: o Criador n\u00e3o \u00e9 apenas exterior \u00e0 sua cria\u00e7\u00e3o, mas est\u00e1 tamb\u00e9m interiormente ligado a ela: a cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 em Deus, e Deus est\u00e1 na cria\u00e7\u00e3o. Segundo a doutrina crist\u00e3 original, o ato criador \u00e9 um evento trinit\u00e1rio: Deus Pai cria o mundo atrav\u00e9s da sua palavra eterna na for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo. O mundo n\u00e3o \u00e9 uma realidade divina, mas sim permeada por Deus. Se todas as coisas s\u00e3o criadas por Deus Deus, atrav\u00e9s de Deus Filho e em Deus Esp\u00edrito Santo, ent\u00e3o elas tamb\u00e9m s\u00e3o de Deus, atrav\u00e9s de Deus e em Deus\u00a0<strong>[11]<\/strong>.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Para n\u00f3s existe um s\u00f3 Deus: o Pai.<br \/>\nDele tudo procede, e para ele \u00e9 que existimos.<br \/>\nE h\u00e1 um s\u00f3 Senhor, Jesus Cristo,<br \/>\npor quem tudo existe e por meio do qual tamb\u00e9m n\u00f3s existimos&#8221; (1Cor 8, 6).<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sua obra,\u00a0<strong><em>O Esp\u00edrito Santo<\/em><\/strong>,\u00a0<strong>Bas\u00edlio<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>escreve:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Vede na cria\u00e7\u00e3o desses seres o Pai como fundamento que os precede, o Filho como fundamento criador, e o Esp\u00edrito como o fundamento que os leva \u00e0 cumprimento, de modo que os esp\u00edritos servidores t\u00eam o seu princ\u00edpio na vontade do Pai, s\u00e3o levado ao ser mediante a realidade do Filho, e encontram cumprimento atrav\u00e9s da assist\u00eancia do Esp\u00edrito&#8221;\u00a0<strong>[12]<\/strong>.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se considerarmos o ato criador como um processo trinit\u00e1rio desse tipo, ent\u00e3o ele n\u00e3o pode ser atribu\u00eddo somente a &#8220;Deus Pai Todo-Poderoso&#8221;, mas, da mesma forma, tamb\u00e9m ao Filho e ao Esp\u00edrito. Ele n\u00e3o \u00e9 um ato &#8220;de fora&#8221; (<em>ad extra<\/em>), mas sim um ato na vida de toda a Trindade. Enquanto o Esp\u00edrito, mediante as suas energias, opera, estimula e vive em todas as criaturas, Deus est\u00e1 presente na sua cria\u00e7\u00e3o, e a sua cria\u00e7\u00e3o tem exist\u00eancia nele. Se, como afirma Bas\u00edlio, o Esp\u00edrito \u00e9 aquele que leva a cumprimento, ent\u00e3o todas as criaturas s\u00e3o orientadas, atrav\u00e9s das energias do Esp\u00edrito, \u00e0 sua plenitude futura e a ela s\u00e3o solicitadas. O &#8220;cumprimento&#8221; da cria\u00e7\u00e3o consiste, segundo as tradi\u00e7\u00f5es b\u00edblicas, no fato de que o Deus trinit\u00e1rio &#8220;in-habita&#8221; na sua cria\u00e7\u00e3o tornada perfeita, e todas as criaturas, ent\u00e3o, t\u00eam parte na sua vida eterna (Ap 21, 1-3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>b-2)<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>Dessa vis\u00e3o trinit\u00e1ria da cria\u00e7\u00e3o, segue a ideia de um mundo no qual o Esp\u00edrito est\u00e1 operando. Nas energias do seu Esp\u00edrito, Deus est\u00e1 em todas as coisas, e todas as coisas est\u00e3o em Deus. Pode-se imaginar o Esp\u00edrito de Deus no mundo tamb\u00e9m como um campo de for\u00e7as, que d\u00e1 energia a todas as coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mundo medieval,\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php%3Foption%3Dcom_content%26view%3Darticle%26id%3D4283%26secao%3D385&amp;sa=U&amp;ei=Bo69T_X4Lu6v6gHO1vxN&amp;ved=0CAUQFjAA&amp;client=internal-uds-cse&amp;usg=AFQjCNHH3xQTRFKdTEP6B9cYzhZdoEc7xA\" target=\"_blank\">Hildegard de Bingen<\/a><\/strong><strong>\u00a0<\/strong>experimentou o mundo deste modo:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;O Esp\u00edrito Santo \u00e9 a vida que d\u00e1 vida,<br \/>\nmotor do universo e raiz de todo ser criado,<br \/>\nEle purifica o universo de impurezas,<br \/>\nEle cancela a culpa e acalma as feridas,<br \/>\nassim ele \u00e9 vida que ilumina, digna de louvor,<br \/>\nque desperta e faz ressurgir o universo sempre de novo&#8221;\u00a0<strong>[13]<\/strong>.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca da Reforma, encontramos na\u00a0<strong><em>Institutio<\/em><\/strong>, de\u00a0<strong>Jo\u00e3o Calvino<\/strong>, uma frase semelhante:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;De fato, o Esp\u00edrito est\u00e1 presente em toda parte e conserva, nutre e vivifica a todas as coisas, no c\u00e9u e sobre a terra. O fato de ele infundir a sua for\u00e7a em tudo e prometer ser vida e movimento a todas as coisas \u00e9 algo \u00e9 claramente divino&#8221; (Inst 13. 14) [14].<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na doutrina trinit\u00e1ria da cria\u00e7\u00e3o, a obra do Pai transcendente est\u00e1 ligada com a divindade do Esp\u00edrito Santo, que flui imanente, com o resultado de que o mundo criado deve ser considerado divino por ser sustentado e movido por for\u00e7as divinas. Isso n\u00e3o \u00e9 &#8220;pante\u00edsmo&#8221;, porque Deus e o mundo s\u00e3o distintos. Isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 &#8220;panente\u00edsmo&#8221;, que afirma que todas as coisas est\u00e3o &#8220;em Deus&#8221;. O fato de que Deus est\u00e1 presente em todas as coisas com o seu Esp\u00edrito \u00e9 expressado de um modo melhor pela doutrina hebraica vetero-testament\u00e1ria da\u00a0<em>Shekinah<\/em>: Deus quer &#8220;habitar&#8221; no meio do povo de Israel. Deus &#8220;habitar\u00e1&#8221; para sempre na nova cria\u00e7\u00e3o, quando todas as coisas forem repletas da sua gl\u00f3ria (Is 6,3). A forma de pensamento neotestament\u00e1ria que encontramos em\u00a0<strong>Paulo<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>e em Jo\u00e3o foi chamada pela teologia da Igreja antiga de\u00a0<em>perichoresis<\/em>: a habita\u00e7\u00e3o rec\u00edproca de Deus no mundo e do mundo em Deus.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Quem permanece no amor permanece em Deus<br \/>\ne Deus permanece nele&#8221; (1Jo 4, 16).<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Notas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>9.<\/strong>\u00a0A. GEHLEN,\u00a0<em>Urmensch und Sp\u00e4tkultur<\/em>, Bonn 1956, 285.<br \/>\n<strong>10.<\/strong>\u00a0K. BARTH,\u00a0<em>Kirchliche Dogmatik III<\/em>, 1-4, Z\u00fcrich 1947-1951.<br \/>\n<strong>11.<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><em>Gott in der Sch\u00f6pfung<\/em>, 106 [tradu\u00e7\u00e3o italiana,\u00a0<em>Dio nella creazione<\/em>, Queriniana, Brescia 1986. 2007 3].<br \/>\n<strong>12.<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>BASILIO DE CESAREIA,\u00a0<em>\u00dcber den Heiligen Geist<\/em>, Freiburg 1967, 75 [edi\u00e7\u00e3o italiana,\u00a0<em>Lo Spirito santo<\/em>, Citt\u00e0 nuova, Roma 1993].<br \/>\n<strong>13.<\/strong>\u00a0HILDEGARD DE BINGEN,\u00a0<em>Lieder<\/em>, Salzburg 1969, 229.<br \/>\n<strong>14.<\/strong>\u00a0J. CALVINO,\u00a0<em>Institutio<\/em><em>\u00a0<\/em>I, 13, 14 [ed. it.,\u00a0<em>Istituzione della religione cristiana<\/em>, UTET, Turim 1971].<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Fonte: IHU<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de J\u00fcrgen Moltmann As crises ecol\u00f3gicas destroem as condi\u00e7\u00f5es vitais da Terra. Precisamos de uma teologia da Terra e de uma nova espiritualidade da cria\u00e7\u00e3o. Uma nova\u00a0teologia ecol\u00f3gica\u00a0pode nos ajudar nisso. 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