{"id":8473,"date":"2015-11-05T15:28:02","date_gmt":"2015-11-05T17:28:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ecclesia.com.br\/news\/2013\/?p=8473"},"modified":"2016-03-08T19:06:42","modified_gmt":"2016-03-08T19:06:42","slug":"igreja-ortodoxa-russa-da-perseguicao-sovietica-a-ressurreicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/news.ecclesia.org.br\/?p=8473","title":{"rendered":"Igreja Ortodoxa Russa: da persegui\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O livro \u201cStalin e o Patriarca: a Igreja Ortodoxa e do Poder Sovi\u00e9tico\u201d revisita a rela\u00e7\u00e3o entre o stalinismo e a Igreja Ortodoxa Russa.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Roma, 05 de novembro de 2015 (<a href=\"http:\/\/www.zenit.org\/pt\">ZENIT.org<\/a>) Federico Cenci &#8212; Era o outono de 1917 quando a bandeira vermelha brandida por massas enfurecidas come\u00e7ou a tremular ao vento g\u00e9lido da R\u00fassia. Para a Igreja Ortodoxa, foi o prel\u00fadio de uma das mais tr\u00e1gicas p\u00e1ginas da hist\u00f3ria, tamb\u00e9m tingida de vermelho: n\u00e3o, por\u00e9m, pelas cores de uma bandeira, mas pelos rios de sangue dos seguidores de Cristo. A persegui\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica \u00e0 Igreja Ortodoxa foi implac\u00e1vel e visava a sua total aniquila\u00e7\u00e3o, pelo menos at\u00e9 a noite de 3 para 4 de setembro de 1943. \u201cPara a Igreja Ortodoxa, \u00e9 um evento um tanto paradoxal: Stalin, o carrasco, o principal protagonista de uma persegui\u00e7\u00e3o que tinha causado mais de um milh\u00e3o de v\u00edtimas, convocava com relativa benevol\u00eancia os \u00fanicos tr\u00eas metropolitas ainda livres para exercer, embora com significativas limita\u00e7\u00f5es, o seu minist\u00e9rio\u201d.\u00a0 \u00c9 o que nos conta Adriano Roccucci, professor de hist\u00f3ria contempor\u00e2nea na Universidade Roma e autor de \u201cStalin e o Patriarca: a Igreja Ortodoxa e o Poder Sovi\u00e9tico\u201d (2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ZENIT o entrevistou para entender melhor o complexo relacionamento entre a Igreja Ortodoxa e o bolchevismo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ZENIT: Prof. Roccucci, como aconteceu a virada de setembro de 1943?<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Prof. Roccucci: <\/strong>A historiografia tem diversas interpreta\u00e7\u00f5es. Entre as hip\u00f3teses mais cred\u00edveis, Stalin precisava do apoio patri\u00f3tico da Igreja russa durante a Segunda Guerra Mundial. Deve ser dito, por\u00e9m, que, apesar das persegui\u00e7\u00f5es, o apoio dos ortodoxos j\u00e1 tinha se manifestado sem est\u00edmulos particulares do governo. No rescaldo da invas\u00e3o alem\u00e3 da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a Igreja mobilizou os fi\u00e9is para defenderem a p\u00e1tria. Essa linha da Igreja Ortodoxa continuou durante todo o conflito, com apelos, documentos, prega\u00e7\u00f5es patri\u00f3ticas, mas tamb\u00e9m com ajuda pr\u00e1tica. Um exemplo disso foi a coleta de dinheiro entre os fi\u00e9is para apoiar o ex\u00e9rcito. Outros historiadores especularam que as concess\u00f5es do governo, como a possibilidade de eleger um patriarca e a reabertura de cursos teol\u00f3gicos, entre outras, eram uma forma de recompensar a Igreja pelo apoio. Na minha opini\u00e3o, isso est\u00e1 fora das caracter\u00edsticas de Stalin, que n\u00e3o era um homem dado \u00e0 gratid\u00e3o. E h\u00e1 uma terceira hip\u00f3tese.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ZENIT: Qual?<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo alguns historiadores, Moscou precisava desse gesto porque, naquela \u00e9poca, no contexto da alian\u00e7a contra Hitler entre Estados Unidos, Gr\u00e3-Bretanha e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, estava para chegar uma delega\u00e7\u00e3o de representantes da sociedade civil brit\u00e2nica. Ent\u00e3o, havia interesse por parte de Stalin de mostrar que a liberdade religiosa era respeitada, j\u00e1 que este era um dos temas levantados pelo mundo de l\u00edngua inglesa como fonte de d\u00favidas quanto \u00e0 alian\u00e7a com os sovi\u00e9ticos. Stalin teria interesse em causar uma boa impress\u00e3o para que os aliados abrissem uma nova frente de guerra no Ocidente, para n\u00e3o sustentar sozinho o confronto com os ex\u00e9rcitos de Hitler.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ZENIT:<\/strong> O que o senhor acha dessa hip\u00f3tese?<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem elementos de verdade nela. Deve ser dito, no entanto, que, em setembro de 1943, uma nova frente no Ocidente n\u00e3o era uma necessidade premente para Stalin, porque, em poucos meses, tinham ocorrido duas grandes batalhas: a de Stalingrado e a de Kursk, tornando claro que a guerra na Frente Oriental ia ser ganha pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. A tese que eu sustento \u00e9 que, naquela \u00e9poca, Stalin j\u00e1 estava pensando nos cen\u00e1rios do p\u00f3s-guerra, que levaria a URSS a se expandir especialmente para o oeste. Portanto, nesta vis\u00e3o geopol\u00edtica, Stalin acreditava que a religi\u00e3o poderia ser \u00fatil, recuperando em certa medida o paradigma imperial czarista, que tinha usado a ortodoxia para estabelecer a domina\u00e7\u00e3o de Moscou. Tanto mais que, nas regi\u00f5es onde se ampliaram as fronteiras sovi\u00e9ticas (Ucr\u00e2nia e Bielorr\u00fassia, por exemplo), a presen\u00e7a religiosa era muito forte.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ZENIT:<\/strong> Mas a presen\u00e7a religiosa tamb\u00e9m era bem enraizada na zona rural da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Podemos dizer que o campesinato era um posto avan\u00e7ado que ajudou a manter a f\u00e9 viva durante as persegui\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exatamente. Foi um dos elementos de resist\u00eancia mais evidentes ao projeto bolchevique, que, ali\u00e1s, era fortemente \u201canticampesino\u201d. Tenha em mente uma p\u00e1gina da hist\u00f3ria escondida at\u00e9 a abertura dos arquivos sovi\u00e9ticos. Em 1937, Stalin fez um censo exigindo que houvesse tamb\u00e9m uma pergunta sobre religi\u00e3o. Na v\u00e9spera do censo, a NKVD (pol\u00edcia secreta) informou que, em muitas \u00e1reas, tinha se espalhado entre os agricultores o boato de que o censo era um instrumento de poder para eliminar os \u00faltimos fi\u00e9is remanescentes. Apesar disso, o resultado do censo foi surpreendente: mais de metade da popula\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica declarou acreditar em Deus, apesar de duas d\u00e9cadas de persegui\u00e7\u00e3o e propaganda religiosa em todos os n\u00edveis. Os n\u00fameros s\u00e3o mais altos na zona rural e menores nas cidades. Este censo jamais foi publicado: al\u00e9m do dado embara\u00e7oso sobre a religi\u00e3o, havia um grave d\u00e9ficit de popula\u00e7\u00e3o, devido principalmente \u00e0s consequ\u00eancias desastrosas das pol\u00edticas agr\u00e1rias stalinistas e da fome que assolava as regi\u00f5es da Ucr\u00e2nia, dos Urais e do Don.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ZENIT:<\/strong> \u201cDa Liturgia, tudo poder\u00e1 ressurgir\u201d, disse profeticamente o Metropolita Nikodim, de Leningrado. Qual foi o papel da centralidade lit\u00fargica da ortodoxia nessa complexa rela\u00e7\u00e3o Igreja-Estado?<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No meu livro, eu sustento a tese de que uma das estrat\u00e9gias de resist\u00eancia da ortodoxia russa foi claramente lit\u00fargica. A beleza e a magnific\u00eancia da liturgia eram a preserva\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de alteridade. A um entrevistador ocidental, o Patriarca de Moscou, Alexis I (1945-1970), respondeu: \u201cA Igreja Ortodoxa Russa \u00e9 uma Igreja que celebra a liturgia\u201d. Pode-se pensar que foi uma resposta diplom\u00e1tica num contexto em que a Igreja n\u00e3o podia exercer todas as liberdades, mas eu acredito que o Patriarca quis transmitir um conceito mais profundo: que na celebra\u00e7\u00e3o da liturgia estava a for\u00e7a da Igreja. Esta resposta tamb\u00e9m explica o porqu\u00ea da rela\u00e7\u00e3o com o poder sovi\u00e9tico: poder celebrar a liturgia em lugares acess\u00edveis a qualquer pessoa, como as igrejas. Da\u00ed a afirma\u00e7\u00e3o do Metropolita Nikodim. Falando com um ocidental que insinuava que a Igreja ortodoxa estava muito comprometida com os sovi\u00e9ticos, ele disse: \u201cSe nos impedirem todos os encontros, se desmantelarem todas as estruturas, eu aceitarei tudo isso. S\u00f3 vou pedir uma coisa: que nos deixem celebrar a \u00faltima divina liturgia&#8230;. Porque, mesmo se n\u00e3o restar mais nada, eu estou certo de que esta \u00fanica e \u00faltima Divina Liturgia far\u00e1 tudo ressurgir\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ZENIT: <\/strong>Um cap\u00edtulo do seu livro fala de \u201canomalia ucraniana\u201d. A que se refere?<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma anomalia de enraizamento religioso no campo, que \u00e9 ainda mais forte do que no campo russo. Al\u00e9m disso, os territ\u00f3rios ucranianos foram e ainda s\u00e3o plurais do ponto de vista crist\u00e3o. Pensemos na Igreja greco-cat\u00f3lica, que, na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, sofreu uma repress\u00e3o imensa: foram presos e enviados para os campos de concentra\u00e7\u00e3o todos os bispos; e alguns foram mortos; esse destino foi seguido por muitos sacerdotes e fi\u00e9is leigos. E as estruturas da Igreja greco-cat\u00f3lica foram incorporadas \u00e0 Igreja ortodoxa com um \u201cs\u00ednodo\u201d, canonicamente inv\u00e1lido porque n\u00e3o participou dele nenhum bispo greco-cat\u00f3lico, realizado em Lviv em 1946. Esta incorpora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma segunda anomalia, queria conter o mundo greco-cat\u00f3lico, nacionalmente avesso a Moscou e considerado potencialmente subversivo.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ZENIT:<\/strong> Qual foi o peso da persegui\u00e7\u00e3o comunista na rea\u00e7\u00e3o que levou ao renascimento crist\u00e3o atual na R\u00fassia?<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma antiga cren\u00e7a de que, parafraseando Tertuliano, \u201co sangue dos m\u00e1rtires \u00e9 semente de crist\u00e3os\u201d. Ao ler essas p\u00e1ginas da hist\u00f3ria de um ponto de vista espiritual, poder\u00edamos dizer que o testemunho do mart\u00edrio est\u00e1 de fato no cora\u00e7\u00e3o do renascimento crist\u00e3o na R\u00fassia. O percurso da hist\u00f3ria \u00e9 ainda mais atravancado. Na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a persegui\u00e7\u00e3o durou 70 anos. V\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es foram atingidas. Houve um racha profundo com a R\u00fassia czarista, tamb\u00e9m porque as elites ortodoxas foram atingidas pela repress\u00e3o. O bolchevismo, como todas as ideologias do s\u00e9culo XX, acariciou o mito de construir um \u201cnovo homem\u201d, e isso teve uma influ\u00eancia profunda na mentalidade da popula\u00e7\u00e3o. Quando a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ruiu, com sua agrega\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, houve um retorno em massa \u00e0 Igreja Ortodoxa, com milh\u00f5es de pessoas pedindo o batismo. Foi tamb\u00e9m uma resposta a uma demanda de identidade, ap\u00f3s o fim da identidade comunista. De resto, o atual Patriarca, Kirillo afirmou que, depois da volta do povo para a Igreja, agora \u00e9 hora da sua evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro \u201cStalin e o Patriarca: a Igreja Ortodoxa e do Poder Sovi\u00e9tico\u201d revisita a rela\u00e7\u00e3o entre o stalinismo e a Igreja Ortodoxa Russa. 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