{"id":3295,"date":"2010-01-23T21:54:41","date_gmt":"2010-01-23T23:54:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ecclesia.com.br\/news\/?p=3295"},"modified":"2021-07-24T18:33:02","modified_gmt":"2021-07-24T21:33:02","slug":"o-monge-que-achou-a-liberdade-na-prisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/news.ecclesia.org.br\/?p=3295","title":{"rendered":"O monge que achou a liberdade na pris\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Entrevista publicada originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, Edi\u00e7\u00e3o de 17 de janeiro de 2010.\u00a0<a title=\"Aqui\" href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/estadaodehoje\/20100117\/not_imp496892,0.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aqui<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SAI NO BRASIL O DI\u00c1RIO DA FELICIDADE, LIVRO DO PENSADOR ROMENO NICOLAE STEINHARDT<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Antonio Gon\u00e7alves Filho e Felipe Cherubin<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-15186 size-full\" src=\"https:\/\/news.ecclesia.org.br\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/nicolae-steinhardt-1912-1989.jpg\" alt=\"nicolae-steinhardt-1912-1989\" width=\"240\" height=\"377\" srcset=\"https:\/\/news.ecclesia.org.br\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/nicolae-steinhardt-1912-1989.jpg 240w, https:\/\/news.ecclesia.org.br\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/nicolae-steinhardt-1912-1989-191x300.jpg 191w, https:\/\/news.ecclesia.org.br\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/nicolae-steinhardt-1912-1989-35x55.jpg 35w\" sizes=\"(max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/>O Di\u00e1rio da Felicidade, primeiro livro do monge ortodoxo romeno Nicolae Steinhardt publicado no Brasil, chega \u00e0s livrarias para apresentar ao leitor um autor praticamente desconhecido. Steinhardt, no entanto, foi um dos pensadores mais intrigantes da cultura romena no s\u00e9culo 20. Nascido em Bucareste, no seio de uma fam\u00edlia judia, teve forma\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e logo se tornou cr\u00edtico liter\u00e1rio, manifestando profunda erudi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Steinhardt publicou pouco em vida. S\u00e3o textos que se resumem a an\u00e1lises liter\u00e1rias &#8211; com exce\u00e7\u00e3o de O Di\u00e1rio, sua obra-prima -, legado de uma vida que testemunhou o lado mais sombrio da cultura e da pol\u00edtica romena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1960, Steinhardt, interrogado pela Securitate, pol\u00edcia ideol\u00f3gica do regime comunista romeno, recusou-se a colaborar como testemunha de acusa\u00e7\u00e3o no processo movido contra um grupo de intelectuais, entre eles seu melhor amigo, o fil\u00f3sofo Constantin Noica. A sua recusa lhe custou a pena de doze anos de trabalhos for\u00e7ados, dos quais cumpriu quatro. Convertido ao cristianismo na pris\u00e3o, ele foi libertado em 1964, retirando-se para a vida no mosteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Publicado pela \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es (554 p\u00e1ginas, R$ 110), O Di\u00e1rio da Felicidade foi traduzido por Elp\u00eddio M\u00e1rio Dantas Fonseca, estudioso da obra de Steinhardt. A seguir, o tradutor fala em entrevista exclusiva concedida ao Estado, sobre o livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Certas passagens do livro marcam uma mudan\u00e7a formal na linguagem de Steinhardt, considerando que num dos primeiros livros, \u00c0 Maneira&#8230; de Cioran, Noica, Eliade, ele emulava o estilo de outros autores. Steinhardt buscava deliberadamente essa imita\u00e7\u00e3o ou um caminho pr\u00f3prio? Qual a sua conclus\u00e3o sobre a sua constru\u00e7\u00e3o estil\u00edstica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2500 A constru\u00e7\u00e3o estil\u00edstica dele revela um autor com o completo dom\u00ednio da l\u00edngua. Ent\u00e3o, propositadamente, procurei manter o n\u00edvel elevado onde era elevado e o n\u00edvel vulgar onde era vulgar. Algumas vezes ele emprega palavr\u00f5es, express\u00f5es cruas, est\u00e3o assim no romeno. Minha id\u00e9ia foi a de manter em portugu\u00eas a mesma constru\u00e7\u00e3o original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 dif\u00edcil entender o enredo da obra e da vida de Steinhardt sem o conhecimento pr\u00e9vio de sua rela\u00e7\u00e3o com Constantin Noica, amizade, ali\u00e1s, que o levou \u00e0 pris\u00e3o. Que tipo de envolvimento ele teve com o fil\u00f3sofo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2500 \u00a0Steinhardt e Noica foram alunos do fil\u00f3sofo romeno Nae Ionescu, al\u00e9m de terem feito parte de uma gera\u00e7\u00e3o de grandes intelectuais &#8211; Emil Cioran, Eug\u00e8ne Ionesco e Mircea Eliade. Eles tinham uma grande amizade e o pr\u00f3prio Steinhardt considerava Noica um segundo pai, que o fez nascer de novo, apontando o mosteiro onde passou seus \u00faltimos anos. O cr\u00edtico Virgil Bulat, ali\u00e1s, considerava suas obras filos\u00f3ficas complementares. A vida de Steinhardt est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 de Noica, um dos muitos intelectuais romenos que confrontaram o regime instalado em seu pa\u00eds e passaram a ser perseguidos, tendo obras censuradas. O simples fato de se falar mal do regime em reuni\u00f5es levou o governo a infiltrar nelas espi\u00f5es e controlar o movimento dessas pessoas. Isso provocou a pris\u00e3o de 22 intelectuais em 1958, entre eles Noica. O \u00faltimo a ser encarcerado foi Steinhardt, de quem exigiram que fosse testemunha de acusa\u00e7\u00e3o do grupo, mas, a despeito de ter sido tra\u00eddo por todos os amigos, n\u00e3o traiu ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O t\u00edtulo do livro de Steinhardt \u00e9 curioso. Por que O Di\u00e1rio da Felicidade? O que era a felicidade para Steinhardt? Como lidar com esse paradoxo da no\u00e7\u00e3o de felicidade num per\u00edodo de quase meio s\u00e9culo de mem\u00f3rias marcado por fatos sombrios?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2500 A felicidade para Steinhardt est\u00e1 fora do tempo, independente do ambiente circundante. Ele a encontra nas piores situa\u00e7\u00f5es. Ela est\u00e1 fundamentalmente associada \u00e0 convers\u00e3o ao cristianismo. Steinhardt diz que s\u00e3o os anos mais felizes da vida dele, pois foi a pris\u00e3o que o levou ao cristianismo, do qual vinha se aproximando havia muito tempo. Mas foi a possibilidade de morrer sem ser batizado que o levou \u00e0 convers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Di\u00e1rio da Felicidade recorre a um estilo liter\u00e1rio confessional, em que a preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria e a sinceridade s\u00e3o eixos que desenrolam a narrativa da biografia de Steinhardt. A que tradi\u00e7\u00e3o ele estaria filiado?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2500 Ele est\u00e1 numa linha direta com Santo Agostinho, isto \u00e9, a confiss\u00e3o crist\u00e3 do abrir-se totalmente diante Daquele que tudo sabe para que possamos saber ainda mais acerca de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 poss\u00edvel classificar O Di\u00e1rio como um testamento pol\u00edtico, uma resposta contra o fen\u00f4meno do totalitarismo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2500 Sim. Steinhardt se concentrou em problemas que Constantin Noica, por exemplo, acreditava serem menores. Noica teve uma preocupa\u00e7\u00e3o de resgatar o passado e dirigir-se ao futuro em suas aulas de filosofia, afastando-se de um mundo que o repelia, ao passo que Steinhardt n\u00e3o. Ele d\u00e1 o testemunho diante das condi\u00e7\u00f5es mais desfavor\u00e1veis, p\u00f5e em pr\u00e1tica aquilo que aprende da filosofia e da religi\u00e3o. Ent\u00e3o, as palavras dele s\u00e3o cheias de sentido. Tudo o que ele diz nesse livro foi vivido, n\u00e3o foi da boca para fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Levando em conta o grande n\u00famero de cita\u00e7\u00f5es de fil\u00f3sofos e escritores existencialistas, em que medida o cristianismo de Steinhardt foi marcado pela leitura de Sartre ou Camus?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2500 O que eu posso dizer, de forma geral, n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o ao existencialismo, mas a respeito de uma s\u00e9rie de outras teorias e confiss\u00f5es religiosas do livro, \u00e9 que o cristianismo, como mostrado por Steinhardt, \u00e9 o verdadeiro cristianismo e n\u00e3o a caricatura com que estamos acostumados a ver. Ele analisa, apanha o que importa e rejeita o que n\u00e3o interessa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas, como crist\u00e3o, Steinhardt cita uma s\u00e9rie de autores que poderiam, de certo modo, serem entendidos como seus ant\u00edpodas, entre eles Jean Genet. Por que Steinhardt, curiosamente, se concentra em autores fora da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2500 Em rela\u00e7\u00e3o a outras personagens que Steinhardt cita em O Di\u00e1rio da Felicidade, ele busca aquilo que em determinado momento expressa o comportamento crist\u00e3o. Na verdade, o cristianismo abrange tudo isso &#8211; abrange e supera &#8211; ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 simplesmente pelo fato de algu\u00e9m ser anticrist\u00e3o que tudo aquilo o que ele diz ser\u00e1 100 % errado. \u00c9 exatamente aquilo de colher o que importa. Essas pessoas n\u00e3o ficaram cegas para tudo. \u00c9 o pr\u00f3prio divino que fala com cada um de n\u00f3s. \u00c9 isso que Steinhardt identifica nessas pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Steinhardt, ao longo de sua vida, esteve diante de pelo menos duas grandes amea\u00e7as: primeiro, o antissemitismo por causa de sua origem e o comunismo romeno. Como isso o afetou?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2500 Em rela\u00e7\u00e3o ao antissemitismo, Steinhardt, ao entrar no mosteiro, escreve uma pequena autobiografia na qual diz que n\u00e3o sentiu de perto esse preconceito j\u00e1 que o pai, engenheiro e her\u00f3i da 1\u00aa Guerra, era o que se chamava de judeu de segunda classe &#8211; havia separa\u00e7\u00f5es nessa \u00e9poca, sendo os judeus de primeira classe os grandes industriais, e os de segunda classe, profissionais liberais. Ent\u00e3o, ele n\u00e3o sentiu o antissemitismo, ainda mais pela proximidade da fam\u00edlia dele com crist\u00e3os ortodoxos &#8211; na verdade, ele passou a sentir que era repelido pela comunidade judaica ap\u00f3s sua convers\u00e3o ao cristianismo. No caso do comunismo romeno e do totalitarismo em geral, ele tem um livro em que mostra quando come\u00e7am os sinais da corrup\u00e7\u00e3o do Direito. Steinhardt identifica isso no fim do s\u00e9culo 19, na Sorbonne, produzindo um livro para repudiar essas novas tend\u00eancias do Direito \u00e0 luz do Direito Constitucional tradicional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em que linha filos\u00f3fica voc\u00ea colocaria o trabalho de Steinhardt?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2500 Numa linha direta socr\u00e1tica com um ponto alto em Santo Agostinho, no sentido de ser um pensador que retoma a filosofia e passa a viv\u00ea-la, colocando em choque concep\u00e7\u00f5es que antes eram tidas como certas, ou seja, a filosofia tomada a partir da viv\u00eancia real e concreta &#8211; aquela que est\u00e1 em busca da sabedoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Embora Steinhardt seja um monge, ele tem uma forte liga\u00e7\u00e3o com a modernidade, apresentando em seus textos considera\u00e7\u00f5es sobre ci\u00eancia e tecnologia. Como ele se relaciona com elas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-15188\" src=\"https:\/\/news.ecclesia.org.br\/2013\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/diario-da-felicidade.jpg\" alt=\"diario-da-felicidade\" width=\"274\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/news.ecclesia.org.br\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/diario-da-felicidade.jpg 274w, https:\/\/news.ecclesia.org.br\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/diario-da-felicidade-235x300.jpg 235w, https:\/\/news.ecclesia.org.br\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/diario-da-felicidade-43x55.jpg 43w\" sizes=\"(max-width: 274px) 100vw, 274px\" \/>Esse \u00e9 um lado que foi esquecido por alguns crist\u00e3os hoje em dia, do papel do cristianismo na forma\u00e7\u00e3o do Ocidente, e especificamente a Igreja Cat\u00f3lica, que perdeu a hegemonia cultural na modernidade. Eles deixaram de estar a par daquilo que acontecia, de serem sacerdotes, n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista ritual, mas tamb\u00e9m intelectual. A tecnologia e as ci\u00eancias nunca podem ser contr\u00e1rias \u00e0 realidade, elas partem do pressuposto do real. \u00c9 a abertura do pensamento de Steinhardt \u00e0 realidade, pr\u00f3pria do cristianismo, que foi perdida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PERFIL<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nicu-Aurelian Steinhardt, filho de m\u00e3e romena e pai judeu, nasceu na Rom\u00eania em 1912. Seu pai, engenheiro e arquiteto, foi her\u00f3i da 1.\u00aa Guerra Mundial. Por linha materna, Steinhardt era parente do psicanalista austr\u00edaco Sigmund Freud, a quem costumava visitar em sua juventude. Formado em Direito, freq\u00fcentou tamb\u00e9m o curso de Letras na Universidade de Bucareste. Estreou cedo no universo liter\u00e1rio, colaborando com algumas publica\u00e7\u00f5es. Sua primeira obra a vir a p\u00fablico foi um pequeno volume de posi\u00e7\u00e3o &#8220;liberal-conservadora&#8221;, escarnecendo tanto das manifesta\u00e7\u00f5es da nova direita e elitistas quanto as da esquerda. Entre os parodiados estavam Constantin Noica, Emil Cioran, Mircea Eliade, Petru Comarnescu e Geo Bogza. Foi grande amigo do fil\u00f3sofo Constantin Noica e conviveu com os principais intelectuais romenos do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Fonte: <a href=\"http:\/\/emnomedaverdade.wordpress.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Em nome da verdade<\/a> | De entrevista publicada originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, Edi\u00e7\u00e3o de 17 de janeiro de 2010.\u00a0<a title=\"Aqui\" href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/estadaodehoje\/20100117\/not_imp496892,0.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aqui<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Texto de apresenta\u00e7\u00e3o assinado pelo tradutor.<\/p>\n<h3>&#8220;Habent sua fata translationes, ou do porqu\u00ea traduzi O Di\u00e1rio da Felicidade, de Nicolae Steinhardt?<\/h3>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Coisas h\u00e1 que passam sem ser cridas,<br \/>\nE coisas cridas h\u00e1 sem ser passadas,<br \/>\nMas o melhor de tudo \u00e9 crer em Cristo. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">(Cam\u00f5es, terceto final do soneto CV)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[singlepic id=179 w=320 h=240 float=left]A pergunta mais do que natural que surgir\u00e1 ao leitor deste livro \u00e9: por que um brasileiro traduziria para o portugu\u00eas um livro de um monge romeno aqui desconhecido? E a hist\u00f3ria, longa, mas que procurarei resumir em algumas linhas, remonta ao ano de 1980: enquanto me dedicava aos estudos de l\u00edngua portuguesa, vi a indica\u00e7\u00e3o de uma gram\u00e1tica romena na s\u00e9rie de livros que manuseava e disse: por que n\u00e3o aprender tal l\u00edngua?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a realiza\u00e7\u00e3o desse plano s\u00f3 se daria dali a 18 anos quando conheci aquela que viria a ser minha esposa e que, num primeiro encontro, me emocionou tanto pela corre\u00e7\u00e3o com que se expressava em portugu\u00eas, que pensei com meu bot\u00f5es: o m\u00ednimo que essa mo\u00e7a merece \u00e9 que eu aprenda a l\u00edngua dela, se n\u00e3o t\u00e3o bem quanto ela fala a minha, ao menos num n\u00edvel que possa homenage\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Indicando ela um curso de auto-aprendizado, com fitas cassetes, qual n\u00e3o foi a minha surpresa quando ela tamb\u00e9m me recomendou aquela mesma gram\u00e1tica de dezoito anos antes! Comecei o curso por conta pr\u00f3pria, e, ap\u00f3s seis meses, passei a namorar aquela com quem me casaria. Passado um ano, fiz com ela minha primeira viagem \u00e0 Rom\u00eania, onde pude falar pela primeira vez e compreender sofrivelmente o romeno. Depois disso, com a ajuda de minha mulher, passei a falar razoavelmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis que um dia de 2004, enquanto ouvia de novo uma aula do curso de filosofia de Olavo de Carvalho, de 1998, atentei para um projeto de que ele falava entre as embaixadas da Rom\u00eania e do Brasil, tendo \u00e0 testa, ent\u00e3o, o Embaixador Jeronimo Moscardo, segundo o qual haveria tradu\u00e7\u00f5es de livros de filosofia romenos em portugu\u00eas, e tradu\u00e7\u00f5es de livros de filosofia brasileira em romeno: faziam parte da lista obras de M\u00e1rio Ferreira dos Santos, do pr\u00f3prio Olavo de Carvalho, Constantin Noica, Lucian Blaga e Nicolae Steinhardt.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O projeto, de 1998, infelizmente morrera e, dos livros planejados, apenas um, de Noica, As seis doen\u00e7as do esp\u00edrito contempor\u00e2neo (com tradu\u00e7\u00e3o de Fernando Klabin e Elena Sburlea, introdu\u00e7\u00e3o, edi\u00e7\u00e3o, notas e coment\u00e1rios de Olavo de Carvalho, e revis\u00e3o t\u00e9cnica de Carlos Nougu\u00e9, biblioteca de filosofia, Record, 1999), fora publicado. Depois que Olavo de Carvalho terminou de falar, na fita cassete, sobre O Di\u00e1rio da Felicidade, de Nicolae Steinhardt, tive uma ilumina\u00e7\u00e3o e pensei: ora, sei um pouco de romeno, por que n\u00e3o traduzir O Di\u00e1rio da Felicidade? Vou tomar a peito essa empreitada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imbu\u00eddo da vontade de traduzir Steinhardt, propus esse meu plano ousado \u00e0 minha esposa, que concordou. Finalmente, em 2006 terminei a tradu\u00e7\u00e3o e minha esposa entrou em contato com a editora do mosteiro de Rohia, para que este negociasse os direitos autorais do livro com Edson Manoel de Oliveira Filho, esse destemido editor que, desde o primeiro momento em que lhe falei de meu projeto, prometeu-me que publicaria o livro no dia seguinte ao em que eu o entregasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de alguns contratempos, minha esposa come\u00e7ou a revis\u00e3o e, como demorasse a resposta do mosteiro, fomos ela e eu, juntos, a Rohia, em janeiro de 2007, e formalizamos o contrato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De volta ao Brasil, houve uma espera de quase um ano e meio at\u00e9 chegar assinado o contrato: mal sab\u00edamos que tal demora seria providencial, pois, nesse \u00ednterim, duas novas edi\u00e7\u00f5es se tinham feito em romeno, aumentando, de muito, o n\u00famero de notas e de informa\u00e7\u00f5es, o que s\u00f3 viria a beneficiar o p\u00fablico brasileiro, at\u00e9 agora jejuno de Steinhardt.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o era de se esperarem menores dificuldades, quando se sabe que maiores agruras se abateram sobre Steinhardt, cujos manuscritos do Di\u00e1rio por duas vezes lhe foram confiscados pelo regime comunista da Rom\u00eania, obrigando-o a reescrever a obra, para, depois, ver devolvido o primeiro manuscrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, sinto-me plenamente recompensado, pois, envidando esfor\u00e7os superiores \u00e0s minhas for\u00e7as, consegui, ao menos em l\u00edngua portuguesa, atender, sem que o soubesse \u00e0 \u00e9poca, o pedido que, pouco antes de partir, fizera Steinhardt a seu amigo Virgil Ciomo\u015f:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Sabe, meu caro, fa\u00e7o enorme quest\u00e3o que este Di\u00e1rio apare\u00e7a. Sem este testemunho p\u00fablico, eu me sentiria culpado diante de Jesus. Gostaria de pedir-te, assim, que retenhas tr\u00eas coisas que te confiarei com l\u00edngua de morte: 1. Dize a todos que tive f\u00e9, de todo o meu cora\u00e7\u00e3o, em Jesus Cristo, nosso Salvador. Cristo \u00e9 um grande poder, irm\u00e3o Virgil, uma grande alegria e uma felicidade ainda maior. A \u00fanica coisa que ele deseja para n\u00f3s \u00e9 fazer-nos felizes. Houve um Instante em que se apiedou tamb\u00e9m de mim &#8211; o in\u00fatil &#8211; e me tomou para dizer-me que me perdoara. Era em Bra\u015fov. Nem sei quanto durou! 2. Dize-lhes ainda que amei sinceramente o povo romeno e que cheguei at\u00e9 a enamorar-me de seus defeitos e 3. toma conta do Di\u00e1rio. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num Brasil, onde professores de direitos humanos v\u00e3o fazer curso de especializa\u00e7\u00e3o na ilha pris\u00e3o, que \u00e9 a Cuba do tirano assassino e traficante de drogas que \u00e9 Fidel Castro, sem se darem conta da incongru\u00eancia desse ato, este livro servir\u00e1 de libelo para tirar-lhes a m\u00e1scara, trazendo-lhe a p\u00fablico o rosto sujo da ignor\u00e2ncia ou da coniv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Elp\u00eddio M\u00e1rio Dantas Fonseca&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No v\u00eddeo abaixo (em romeno) um document\u00e1rio primoroso, intitulado\u00a0Arheologia Regasirii, de cerca de uma hora e vinte de dura\u00e7\u00e3o, realizado por Vasile Alecu em 2006 para a Televis\u00e3o Rom\u00e2nia Cultural, acerca de Steinhardt e\u00a0O Di\u00e1rio da Felicidade, entrevistando as principais pessoas da vida deste: o padre Mina Dobzeu, que o batizou, o abade Serafim Man, que o recebeu no mosteiro e o fez monge, Justinian Chira, por interm\u00e9dio de quem entrou no mosteiro, Justin Hodea, atual bispo e companheiro de mosteiro, Virgil Bulat, companheiro de cela, George Ardeleanu, historiador liter\u00e1rio.<\/p>\n<table border=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><object width=\"450\" height=\"366\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"data\" value=\"http:\/\/video.crestinortodox.ro\/embedded\/bLVxCqvHWKE\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/video.crestinortodox.ro\/embedded\/bLVxCqvHWKE\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"450\" height=\"366\" src=\"http:\/\/video.crestinortodox.ro\/embedded\/bLVxCqvHWKE\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data=\"http:\/\/video.crestinortodox.ro\/embedded\/bLVxCqvHWKE\" \/><\/object><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista publicada originalmente no jornal O Estado de S. 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