(Adaptação da versão original em grego do artigo publicado pelo Metropolita Filoteu de Tessalônica no jornal Ελεύθερος Τύπος em 29 de dezembro de 2025)
«Pessoa Humana e Comunidade»
Ao iniciarmos um novo ano, somos chamados não apenas a fazer planos, mas a discernir espiritualmente o tempo em que vivemos. A sociedade em que estamos inseridos exige de nós reflexão, vigilância interior e uma abertura real à comunidade humana. As verdadeiras expectativas não dizem respeito somente ao progresso material, mas à redescoberta do caminho da pessoa, vivido ao mesmo tempo de modo humano e teocêntrico.
Neste contexto, a inteligência artificial apresenta-se como um dos grandes desafios do nosso tempo. Não é apenas uma inovação tecnológica, mas uma realidade que toca o próprio coração da pergunta: o que é o ser humano? A fé da Igreja responde com clareza: o valor do homem não está na eficiência, nem na capacidade de cálculo, mas no fato de ser pessoa criada à imagem de Deus.
Os Santos Padres, como São Basílio, o Grande, e São Gregório de Nissa, ensinam que a pessoa humana se define pela liberdade e pela relação: relação com Deus e relação com o próximo. O “eu” humano não é fechado em si mesmo, mas existe como movimento de amor em direção ao outro, segundo o modo de existência da Santíssima Trindade.
Por isso, a teologia ortodoxa — como nos recordam o Metropolita Ioannis Zizioulas e Christos Yannaras — não compreende o ser humano como soma de funções ou capacidades, mas como unicidade irrepetível que se realiza na comunhão. Quando a pessoa perde essa dimensão relacional, perde também o sentido da sua existência.
A inteligência artificial, por mais avançada que se torne, permanece sem profundidade pessoal. Ela não pode amar, não pode rezar, não pode entrar em comunhão com Deus. Não conhece a vida como dom nem a comunidade como mistério. Por isso, não pode substituir a pessoa humana nem oferecer a unidade existencial que nasce da antropologia ortodoxa.
Superar o egocentrismo
Ao mesmo tempo, o nosso tempo nos chama à superação do egocentrismo. Os Padres da Igreja identificaram no individualismo a raiz de muitas enfermidades espirituais. São Máximo, o Confessor, ensina que a cura desse fechamento está na vida eclesial, isto é, na passagem do “eu” isolado para o “nós” da comunhão.
A Igreja existe para formar pessoas que aprendem a viver não para si mesmas, mas em relação. Como recorda o Pe. Alexandre Schmemann, o ser humano só se torna verdadeiramente pessoa quando vive “eclesialmente”, aberto à graça de Deus e ao encontro com o outro.
Diante dos desafios do nosso tempo, somos chamados a não temer o progresso, mas a discerni-lo à luz do Evangelho. Colocar o ser humano no centro não significa exaltar o indivíduo, mas reafirmar a vocação da pessoa à comunhão, ao amor e à vida em Cristo.
Somente assim o futuro poderá ser, não um espaço de desumanização, mas um lugar de esperança, de criação e de relações autênticas, vividas no seio da Igreja, Corpo de Cristo.
“A inteligência artificial, por mais que evolua e amadureça, permanece sem profundidade pessoal; não pode existir em relação com Deus nem viver comunidade com a unidade existencial que oferece a antropologia ortodoxa.”
Metropolita Filoteu de Tessalônica














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